NOS Primavera Sound: rescaldo do primeiro dia

9 JUNHO, 2017 -

O primeiro dia do NOS Primavera Sound foi marcado por uma intenção de estabelecer uma certa intimidade com quem estava do lado oposto ao palco. E assim foi. Para além das abaixo mencionadas, também Miguel, o luso Samuel Úria, Arab Strap, e Flying Lotus convenceram com a sua diferenciação nos ares melodiosos e decorosos da estação que dá nome ao festival. Ventos que tiveram como auge as esperanças mais aguardadas pelos melómanos, e que se consolidaram nas impressões que relatamos nos parágrafos subsequentes.

O fim de tarde era cinzento no Parque da Cidade do Porto quando entravam nos Palco NOS os norte-americanos Cigarettes After Sex. “Starry Eyes” é uma das primeiras músicas a embalar o público num misto de dança a dois ou sozinho ao ritmo de guitarras e baixo atmosféricos e doces. Segue-se “Dreaming of You”, que merece um querido “ooh” do público que timidamente vai dançando, por de entre beijos apaixonados, abraços de alegria, selfies que registam memórias certamente a não esquecer. O ambiente criado convida ao afecto, ao calor humano, apesar do tempo se fazer sentir frio. Os fotógrafos registam momentos belos de afecto enquanto o fumo dos cigarros e o fumo do palco se unem numa atmosfera étera de união onde os corações batem em uníssono ao som de Cigarettes After Sex e os corações desassossegados esquecem a ânsia por uns segundos.

A banda relembra que é a segunda vez que passam por Portugal e para agradecerem o carinho do público português anunciam que irão tocar “Sunsetz” uma música do novo trabalho, a sair já hoje, dia 9 de Junho, música que é fortemente aclamada pelo público. Há uma pausa de Greg Gonzalez para anunciar que a próxima música é especial, e ouvem-se os primeiros acordes de “Nothing’s Gonna Hurt You Baby”. Erguem-se os telemóveis, multiplicam-se os beijos e abraços, os afectos tomam conta do ambiente já tão contagiante. A audiência é embalada até ao final do concerto com a receita ideal: uma voz doce, um baixo de arrepiar e uma sonoridade que nos leva a um plano celestial, e nos aproxima num momento só nosso.

 O tema intemporal “We Are the Champions” ressoava bem alto no sistema de som quando Killer Mike e El-P – os Run the Jewels – entraram em palco, triunfais e prontos para fazer a festa. Abriram com “Talk to Me” e ao longo de mais de uma hora os dois rappers cuspiram barras e serviram de hype man um do outro. O repertório foi constituído maioritariamente por músicas do último álbum do duo, Run the Jewels 3, mas houve espaço para êxitos como “Early” ou “Lie, Cheat, Steal”, que soou depois de um discurso de Killer Mike sobre a classe política e sobre os políticos que admira, (“Shoutout to Corbyn and Bernie Sanders”). “Two years ago we found out that Porto fucks with Run the Jewels. We are so humble and honoured to be in this beautiful city!”, profere El-P a certa altura, relembrando com carinho os tempos passados na cidade enquanto a sigla “RTJ!” se ouve vinda do público, o hino deste começo de festival. “I started to say Barcelona but I didn’t. Hey, I’m an asshole. You know this one?” disse o rapper e produtor antes de “Hey Kids (Bumaye)” ribombar por todos os cantos do Parque da Cidade.

Ainda houve tempo para um agradecimento sentido de Killer Mike ao seu amigo El-P, percebendo-se que não só de música é feita esta união. O grupo é um testemunho de amizade e depois de todas as atribulações da vida é bom pisar o palco com um parceiro, como os dois artistas referem em “Down” ou “A Report to the Shareholds/Kill Your Masters”, também interpretadas. “Put your selfie sticks up and get ready to get down”, disse Killer Mike, incitando um público que apoiou incessantemente a dupla ao longo da actuação. No encore voltaram às origens e à música que dá nome à banda. Antes do compatriota Flying Lotus electrificar a multidão com a sua música de fusão e antes do alvoroço carregado de distorção de Justice, os Run the Jewels provaram mais uma vez o porquê de serem uma das melhores duplas de hip-hop do mundo. Foi uma actuação possante, repleta de energia e assistida por um público bastante envolvido, apoiando a banda sem nunca se esquecerem de entoar a sigla sagrada da noite.

Enquanto a massa de gente se deslocava do Palco Nos para o Palco Super Bock, após o concerto explosivo dos Run The Jewels, era o próprio Steven Ellison – conhecido pelo seu nome de palco Flying Lotus – que convidava as pessoas a acomodarem-se. «Venham, venham… vamos começar?». Não o estamos a ver. A sua mesa de mistura está atrás de uma tela translúcida. O espectáculo visual e sonoro que se seguiu foi uma surpresa, mesmo para quem já tinha elevadas expectativas sobre a actuação do músico. Com projecções simultaneamente nas costas de Flying Lotus e na tela que o separa do público, as animações surgem como que a 3D, numa experiência absolutamente hipnotizante.

A electrónica experimental, que constantemente vai pescar samples improváveis (ouvimos coros búlgaros, samba festivo, e nu-jazz), vai-nos guiando por um universo psicadélico que parece não ter limites. É o próprio Steven que nos confessa, a quinze minutos do fim do espectáculo: «E agora, para onde vamos? Não faço a mínima ideia». Foi quase uma sessão de curtas de cinema de animação – na sua maioria, abstractas – a ter por guia os beats experimentais de um dos precursores de géneros musicais ainda por vir. Não percebemos exactamente o que se passou ali – fica a sensação de que o universo construído por Flying Lotus tem tanto por explorar – mas aflorámos o suficiente para nos deixarmos conquistar. No final, a promessa: «Voltamos a ver-nos no próximo ano!».

A fasquia da primeira noite começava a ficar elevada. E aumentou. Era meia noite e meia e o relvado do palco NOS já estava cheio para receber os Justice, provavelmente com pessoas conscientes de que iam dançar durante a próxima hora e meia. O imprevisível aconteceu quando Safe and Sound soou nas colunas Marshall, milimetricamente dispostas em palco, seguida pela mais esperada, D.A.N.C.E.. O duo francês mostrou que um concerto pode realmente ser um espetáculo,  e que tirar partido dos efeitos de luz é uma grande ajuda para o público emergir no universo da sua música. Os cabelos já estavam despenteados, o frio já não se fazia sentir e o cansaço era evidente; mas não importava, tinha valido a pena.

 Fotografias de: Sara Camilo

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS

Chegara o dia temido por muitos: 20 de agosto. Com ele terminaria a mais recente edição d

O pop-noir demorou, mas chegou em força. Cigarettes After Sex não são caso típ