NOS Primavera Sound: o derradeiro dia do festival

11 JUNHO, 2017 -

O Parque da Cidade preparava-se para o último dia deste trio de jornadas recheadas de música muito diversa, mas célebre para os ouvidos dos mais de 80 mil de espectadores que encheram o recinto nestes três dias. O último destes três dias contou com nomes como Metronomy, Mitski, Aphex Twin, e Sampha, e confirmou o NOS Primavera Sound como um dos festivais musicais de referência na Península Ibérica. O próprio festival não se ressentiu da lotação quase esgotada, e apresentou-se caraterizado, mostrando-se à altura de acompanhar mais um passo sustentado no seu crescimento.

Uma voz anuncia no Palco Super Bock que é chegada a hora da mulher do fim do mundo. É Elza Soares, a brasileira quase octogenária que, após uma intensa carreira discográfica nos anos 60 e 70, tem vindo a pontuar as décadas seguintes com alguns lançamentos isolados, numa demanda que prova o seu total amor e dedicação ao mundo da música. Começa por cantar, precisamente , «Me deixem cantar até o fim». É detrás de um biombo negro que surge, sentada no trono onde permanecerá ao longo de todo o concerto. São raros os momentos em que nos lembramos que temos diante de nós uma pessoa de idade avançada e saúde débil – a força que emana na sua performance, e por meio da sua mensagem, provocam-nos múltiplos arrepios. Fala de violência doméstica, pede um prolongado aplauso para a transexual Gisberta, e grita «consciência!». No público, dança-se um samba experimental, com toques de electrónica – uma aventura sónica que a artista faz questão de trilhar. No final, não nos dá vontade de abandonar aquela figura maternal tão suis generis, que nos ofereceu uma ‘festa linda’.

Depois da “revolução” brasileira pela mão de Elza Soares, o palco Super Bock ficou calmo e silencioso, em antecipação de Sampha e da sua estreia em terras lusas. “Timmy’s Prayer” abriu a actuação de surpresa, a surgir do completo silêncio com um break de bateria e a liderança vocal do jovem artista. O sol ainda cobria o Parque da Cidade com seu brilho de final de tarde enquanto “Under” soava, transitando da música anterior de forma tranquila e com grande pujança no final explosivo e de entrega total. “Hey, Primavera, it’s na absolute pleasure to be here in this beautiful city”, disse Sampha Sisay antes de “Reverse Faults” ser interpretado numa versão exacerbada, de melodia alternativa e bem aguda. O repertório do concerto de Sampha foi constituído por músicas do seu álbum de estreia Process lançado no início deste ano mas também houve espaço para outras músicas como “4422” do novo projecto de Drake, More Life, ou “Too Much”. Mas por mais que a voz harmoniosa de Sisay tentasse encher o Parque da Cidade, faltou qualquer coisa. A beleza magistral que caracteriza a sonoridade de Sampha não conseguiu ser replicada pelo artista. “Kora Sings” foi adornada de um break instrumental mais tenso mas a música soou comprimida, vagarosa, sem a fluidez que define a versão de estúdio. Para acabar, a íntima e belíssima “(No One Knows Me) Like the Piano” soou como a balada fabulosa que é, de voz doce e piano atmosférico. O estrondoso aplauso do público termina uma actuação que deixou a desejar e em que transpareceram algumas das valências musicais de Sampha.

Por volta das oito horas, na zona mercado/refeição do recinto já se ouvia “Dan the Dancer”, no soundcheck de Mitski, que subiu ao palco pelas nove, abrindo com dita baladona de power rock. É a articulação dessa agressividade canalizada com musicas calmas e melancólicas que torna a cantora uma verdadeira dádiva ao rock alternativo actual. O baixo, seu instrumento principal, fez-se somente acompanhar de guitarra e bateria; quem não soubesse, acharia que estava ali todo um 5 piece a fazer hard rock, que o som no palco Pitchfork nesse dia, especialmente o baixo, estava particularmente alto. “I Bet on Losing Dogs”, um dos mais interessantes temas de Mitski, fez as delícias do publico no geral, e “Francis Forever” do “Burry Me At Makeout Creek”, fez as delícias em particular dos amantes de Adventure Time (Marceline, the vampire queen, alguém?). “Your food is all so delicious!” Diz-nos amavelmente, para breves momentos depois estar a gritar “FUCK YOU and your money” nos primeiros versos de “drunk walk home”. Um pequeno interlúdio para falar nos movimentos do guitarrista de Mitski, que nos fizeram questionar se estaríamos no Primavera Sound ou a ver um set de Blink-182 no Warped Tour circa 2004. Muito engraçado. Nas duas últimas músicas, apresentou-se sozinha em palco, desta de guitarra, cheia de distorção, para “My Body’s Made of Crushed Little Stars” e “Class of 2013”, acabando o set a gritar para as cordas da guitarra. Concluindo, uma hora que passou a voar, estas slots deviam ser mais longas.

Os Death Grips vieram apresentar o seu novo álbum Bottomless Pit naquele que foi sem dúvida o concerto mais “caótico” deste último dia do NOS Primavera Sound. Não houve um “olá” ou cumprimentos dos artistas antes de o espectáculo começar, a abrasão sentiu-se desde o início com um turbilhão de sons e uma bateria acelerada e irrequieta a dar início às hostilidades. “Bubbles Buried in the Jungle” impôs à partida um ritmo rápido e severo, com saltos entre a pequena multidão a expressarem a “raiva” musical destilada a cru da banda para o público. Foi um set fluido na sua confusão, transitou entre músicas sempre com a entrega visceral de MC Ride fielmente complementarem pelos devaneios electrónicos de Andy Morin e a bateria incansável de Zach Hill: “Hot Head” deu lugar à lúgubre “No Love”, que soou grande, imponente. Com a sua batida incapaz de ser ignorada, “No Love” elevou o concerto a um nível ainda mais “zangado”, gritado, levando os ouvintes mais inexperientes da banda a questionarem de onde vem tanta “raiva” da entrega do vocalista. As batidas foram ensurdecedoras, os instrumentos abafavam tudo à sua volta, desfazendo os tímpanos do pequeno público que ali se juntava para ver Death Grips. Para os fãs, foi um concerto estranhamente intimista, uma arte musical com um grupo selecto de pessoas que a aprecia verdadeiramente, e que aqui se sentem na melhor das companhias sonoras.

Pelas 22h10, chegava a vez de Metronomy subirem ao Palco NOS. Sempre eléctricos, colocaram todo o Parque da Cidade a saltar e a cantar a pulmões cheios. Ouviam-se coisas belas do lado de lá, tais como “Porto, you’re my favourite city in the world” e “this is the nicest place we’ve been to”, da voz de Joseph Mount, o que deixou o público ainda mais em êxtase. A energia do palco saltava para a audiência e, ainda antes de terminar o concerto, já havia saudade de este não poder durar para sempre.

Natalie Merring, aka Weyes Blood, agraciou-nos na véspera do seu aniversário no palco pitchfork. Iniciando a solo, de guitarra ao peito, com “cant go home”, rapidamente se fez juntar dos restantes membros da banda para entregar um Set carregado dos temas de “Front Row Seat to Earth”. Seguiram-se “Diary”, “Seven Words” e “Be Free”, sempre com a cantora a alternar entre guitarra e teclas, num palco decorado de candelabros, que complementaram bem a solenidade do som a ser ali tocado. Merring, achando que se aproximava da meia noite – enquanto que na verdade o que se aproximava eram as onze horas – deixou-nos com um “whats gonna be the last song of 28?”. Foi a “Used to be”, ainda que continuasse com a mesma idade. Compreendemos, vinha de Espanha, não acertou o relógio.  “Do You Need My Love”, com as suas diversas fases, ritmos e efeitos sonoros, provou mais uma vez ser a jóia do repertório, e “Generation Why” provou mais uma vez como os millennials conseguem ou ser completamente oblívios da sua própria “condição” ou conscientemente rir-se da mesma, erguendo lanternas do telemóvel e entoando “YOLO Why” com a cantora. Termina como começou, a solo e de guitarra, com a taciturnidade de “bad magic”. Venustas melodias.

A noite aproximava-se progressivamente do fim. Antes ainda foi tempo de, no Palco Super Bock, vivermos o rock de fôlego dos Japandroids. No último concerto deste segmento da sua tour, a banda canadiana interpretou temas não só do novo álbum lançado no início do ano, mas também dos dois anteriores. O power rock dos Japandroids – a roçar o punk – conquistou o relvado do Parque da Cidade, com energia positiva e força de vontade. Sentia-se a partilha e a confiança entre os dois músicos, e até com os próprios roadies: há boa-disposição e brincadeira em palco. Brian King e David Prowse dão-se por completo, entregam tudo o que têm ao público. Nem chegamos a ter pena das guitarras, mal-tratadas aqui e ali, porque imaginamos que deva ser incrível para elas serem tocadas com tanto amor. Os Japandroids partilharam ainda que passaram o dia anterior a filmar o vídeoclip de «North East South West» na cidade do Porto. Pediram-nos os últimos cartuchos, e gritámos, cantámos, abanámos à cabeça – com direito a moche nas filas da frente. Só não nos podíamos dar por inteiro, porque nos faltava o concerto absolutamente mágico de Aphex Twin.

Assim, chegou a hora do mestre. Num palco coberto de ecrãs, começa a ouvir-se Aphex Twin. Os primeiros sons mais harmónicos, de electrónica ambiente fizeram acompanhar-se da distorção que povoou os ecrãs e que posteriormente ganhou forma para o identificável “A” do produtor. Disso se passou rápido para shots das caras de membros da audiência junto às grades, que foi praticamente uma constante ao longo do set – interessante, bem à moda de Richard James, inverter os papéis, focando-se na audiência, que esperava vê-lo a si. O som foi-se encorpando e tornando mais intenso, com as intermitências que são muito audíveis em Richard D. James ou Syro. A dimensão visual sofre mais uma metamorfose, desta com a sobreposição da sua cara e sorriso característico sobre as caras dos fãs que nos ecrãs apareciam, e, puxando bem à sua veia cómico-aterradora, também sobre as caras de uma panóplia de personalidades portuguesas muito, muito ecléticas – Antonio Costa, Mourinho, Lili Caneças, José Castelo-Branco, Salvador Sobral, e a lista continua. As luzes verdes a incidir sobre fumo e rodando freneticamente traduziam a urgência crescente do som, que passou de uma fase mais AFX para noise, quase que transe no final. Foram praticamente duas horas de inquietude exaustiva, e nada mais poderíamos esperar do pai do IDM.

Encabeçado por Cigarettes After Sex e Run the Jewels na jornada inaugural, e por Bon Iver e Angel Olsen no segundo dia – a banda de Justin Vernon declarou: “this is the classiest festival in the world” –  para além de Aphex Twin e de Metronomy no último, o NOS Primavera Sound não desapontou, cumprindo com as expectativas de, num ambiente familiar e confraternizador, transmutar a variedade musical numa enchente de emoções. A cidade do Porto acolheu, assim, mais uma edição de um festival que é cada vez mais sensação, e que reúne mais nomes de relevo do panorama musical. É de uma forma positiva e pungente que se dá início à temporada dos grandes festivais musicais de verão em Portugal, mas o saudosismo é certo para a Invicta, que já suspira por uma nova primavera.

Fotografias de: Sara Camilo

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