NOS Primavera Sound: foi assim o segundo dia

10 JUNHO, 2017 -

Passado o primeiro dia do NOS Primavera Sound, o Parque da Cidade do Porto acolheu a jornada mais ansiada do festival, na qual constavam os célebres nomes de Angel Olsen, Bon Iver, Whitney, King Gizzard and the Lizard Wizard, entre outros. O recinto foi preenchido por uma imensidão humana, destinada a acolher tamanha ebulição emocional. Assim, o vórtice de sensações sentidas derivou consoante a diversidade de melodias que entrava pelo ouvido e se fixava no coração.

Tivemos direito a um prólogo de luxo naquele que era, à partida, o dia mais forte do festival. Os portugueses First Breath After Coma embalaram com solenidade uma já vasta plateia, apesar de terem sido o primeiro concerto do dia, ainda a meio da tarde. Com sete membros em palco, entre guitarras, baixo, teclado, bateria e metais de sopro, apresentaram a quem ainda não os conhecesse um óptimo cartão de visita. O rock denso da banda portuguesa – ora escalando a intensidade, ora quebrando de repente – faziam lembrar a intensidade orquestral de Woodkid, em dados momentos. Ficou provado, entre momentos de paz e transcendência, que os First Breath After Coma entraram na cena musical portuguesa para ficar.

Os Whitney chegaram sem dormir. Cansados, confessam desde logo que este será um concerto especial. São as boas-vindas ao Verão, no final de tarde do Primavera, com uma plateia sedenta de se divertir e ser embalada pelas canções inocentes e frescas da banda de Chicago. A sonoridade vibrante do trompete é um dos elementos chave do som dos Whitney, expressando emoções diversas e dando o mote à estrutura da música. A intensidade de Julien Ehrlich, alimentada a moscatel e redbull ao longo do concerto, manifestou-se na interpretação vocal e percussiva, sensível e emotiva. O público cantou e dançou ao som de ‘Golden Days’, ‘No Woman’, e outros canções do primeiro e único álbum da banda. Houve ainda tempo para a apresentação do esqueleto de uma nova música, inventada pelo colectivo durante a sua passagem pelo Mexefest em Lisboa, no outono passado. Foi um momento de comunhão, com a plateia banhada pelo sol de final de tarde, no anfiteatro natural do Palco Super Bock.

É difícil imaginar uma Angel Olsen melhor que aquela que se apresentou só de guitarra por duas vezes na ZDB. Mas vê-la num palco desta dimensão, de banda completa – todos de fato cinzento e Bolo tie -, deu uma perspectiva diferente que vale tanto ou mais que as que já tínhamos tido. A banda fez o intro de “High and Wild” para a cantora entrar, que aparece ao som de aplausos no palco NOS do Primavera. O hit que tanto tornou o seu novo álbum aclamado seguiu-se, “Shut Up Kiss Me”, com ávida adesão da audiência, e com os gritos soltos do final da música e o pequeno solo de guitarra a saberem a pouco – é uma música demasiado curta! É certo para o ouvinte mais assíduo que Olsen tem aventurado a sua voz por novos caminhos, destacando-se “Give It Up” e “Not Gonna Kill You” como temas que fizeram prevalecer isso mesmo.  De “Half Way Home”, o seu álbum de estreia, apresentou “Acrobat”, numa versão muito mais agressiva que o passivo dedilhar do álbum, reinterpretando interessantemente a música. “Sister” e “Those Were The Days” fizeram brilhar a banda que suportou e agraciou a cantautora, potenciando as melodias criadas. E sim, não houve tanto witty banter como nos outros concertos que por cá deu, mas são três álbuns carregados de deliciosos Sons, onde está o tempo para isso? Além de que último tema valeu por essa ausência. Olsen tocou “Windows”, pela primeira vez em terras lusas, música que também não havia tocado em Barcelona, acabando uma performance que será para recordar.

A abrir as honras do Palco Pitchfork esteve Nikki Lane, com um timbre poderoso e uma sonoridade que lhe faz a devida justiça. O ambiente aconchegador convidava à dança e a audiência vibrava música após música. Ouvia-se “Right Time to Do The Wrong Thing” e a coisa certa era assistir a Nikki Lane e partilhar da energia única que se fazia sentir naquela tenda. Depois de receber do público o “Portuguese Boyfriend, João”, um boneco oferecido por fãs, acaba o set com um cover de Bob Dylan: “You Ain’t Going Nowhere” e assim queremos que o desejo seja cumprido, queremos permanecer ali naquele momento de alegria sem conceitos de espaço e tempo, num loop de partilha de felicidade.

A uma hora e meia do início do concerto dos Bon Iver, já o palco apresentava projecções das runas misteriosas e sequências numéricas que povoam o imaginário de ’22, a Million’. O entusiasmo era grande entre os fãs, que ocuparam cedo o seu lugar. Ao som do primeiro acorde, contínuo, de ’22 (OVER S∞∞N)’, percebia-se que era chegado o momento do cabeça-de-cartaz subir ao palco. Ao longo dos anos, Justin Vernon angariou uma vasta comunidade de ouvintes, que acompanharam o seu percurso artístico, e nele reconhecem uma espécie de génio. O concerto foi, arriscamos dizer, o melhor da noite. A voz de Vernon, dando uso ao frágil falsete que se tornou uma das suas marcas, guia-nos por um universo rico, povoado de composições densas e coloridas. Após correr a maioria das canções do último álbum, presenteou-nos com canções dos seus dois anteriores. A atmosfera era de solenidade, e foram múltiplos os arrepios sentidos ao longo do espectáculo. Destacaram-se ’29 #Strafford APTS’, ‘Perth’, ‘8 (circle)’, e ‘Holocene’. O concerto terminou com uma explosão de som, no final prolongado de ‘Creature Fear’. Após uma chuva de aplausos, os Bon Iver regressaram para uma interpretação de ‘Skinny Love’, cereja no topo do bolo de um concerto intenso e inesquecível para quem marcou presença no Parque da Cidade na noite de lua cheia.

“They told me I could put up whatever I wanted”, disse Julien Baker ao entrar no palco Pitchfork, apontando para a enorme bandeira LGBT atrás de si projectada. A cantautora, conhecida pela sua escrita, deixou-nos durante 50 minutos com as suas canções super intimistas, de depressão e procura do ser, começando com “Spained Ankle”, passando por “Everybody Does” e “Rejoice” do seu álbum de estreia, lançado em 2015. Ocorrendo o set no palco Pitchfork, e sendo este somente composto da cantora e da sua telecaster, houve algum bleeding de Bon Iver, que atuava simultaneamente no palco NOS, o que foi graciosamente endereçado pela cantora, claramente fã do músico, por valer como uma colaboração entre os dois. Foram tocadas novas musicas – novo álbum para sair em outubro -, entre as quais “Funeral Pyre”, e o concerto acabou com o single “Something”. Dada a dimensão dos artistas com quem debateu esta slot das 22h (Bon Iver no NOS, e Swans no ATP), a plateia fez-se ouvir substancialmente o tempo todo, através de aplausos e de “I Love You Julien” repetidos incessantemente por um grupo de entusiastas espanhóis. Valeu bem a doçura da simplicidade e quem perdeu os outros dois artistas não se ficou a lamuriar com certeza.

Depois da tranquilidade folk de Bon Iver, e enquanto Swans faziam a festa noutro palco, Skepta trouxe todo o poderio do grime para o NOS Primavera Sound. De óculos redondos e chapéu, Joseph Adenuga veio apresentar o seu álbum mais recente, Konnichiwa, vencedor do prémio Mercury, mas houve também espaço para alguns êxitos do passado como “Ace Hood Flow”, de flow rápido e dominante, ou “No Security”. A actuação foi um turbilhão de batidas possantes e barras pesadas, a companhia perfeita para a noite amena que se desenrolava. Skepta conseguiu alternar fielmente entre os singles de Konnichiwa e as restantes músicas do álbum, havendo até tempo para “Skepta Interlude” da playlist More Life, o projecto mais recente de Drake e em que o artista britânico participa. Ficou claro para todos os presentes a identidade de Skepta e o movimento que o rapper representa. De longe ouviu-se Wiley, outro dos veteranos do grime e parceiro de Skepta na editora do próprio, Boy Better Know, a cantar no tema “Corn on the Curb”, possante e ameaçador, ao seu estilo. Para acabar, “Man” fechou o set de Skepta com um estrondo, o grito de um dos artistas mais importantes do actual movimento grime.

A actuação de King Gizzard and the Lizard Wizard começou atribulada devido aos problemas com o som, o que levou a que o frontman Stu Mackenzie se sentasse à espera que se resolvesse o problema. Mal o som começou a surgir, Stu levantou-se num salto para liderar a marcha, entrando a todo o fervor em “Rattlesnake”. A primeira parte do concerto foi composta por temas do álbum mais recente da banda, Flying Microtonal Banana, como “Nuclear Fusion”, que se fez ouvir com o seu baixo cativante e a melodia vocal que iguala a guitarra. Do universo microtonal, o grupo partiu para músicas do álbum “sem fim” que criaram, Nonagon Infinity. “Thank you for coming to see us so late at night!”, exclamou Stu antes de “Robot Stop” acelerar o público e impôr o ritmo impetuoso que se fez sentir ao longo de todo o espectáculo. As músicas escorrerem de uma para a outra de forma exímia e com a mestria instrumental que caracteriza o septeto. Depois de “Lord of Lightning” elevar os espíritos foi tempo de meditação com “The River”, um dos melhores temas do grupo, progressivo e melodioso, perfeito para acabar a actuação e um concerto cheio de estaleca que fechou este palco em grande e encerrou a noite com uma explosão de rock psicadélico como só este septeto australiano sabe.

Os Cymbals Eat Guitars não tiveram tarefa fácil nesta que foi a sua estreia em Portugal, actuando ao mesmo tempo de King Gizzard and the Lizard Wizard e Nicolas Jaar, mas lutaram por fazer valer a sua música. O quarteto americano, cujo nome deriva das palavras de Lou Reed numa entrevista, ainda que com fraca adesão ao seu concerto, abriu com dois grandes temas de “LOSE”, “Jackson” e “Warning”. Joseph D’agostino fez ecoar o seu rock gritado e anasalado por entre os contagiantes riffs da sua Jaguar, passando pelos vários álbuns do reportório e apresentando musicas do novo “Pretty Years”, como foi o caso do single “Have a Heart”. A proficiência com que tocaram e a pujança deste rock sujo deixou a desejar que voltassem, desta em concerto próprio e numa sala mais pequena, com gente capaz de os acompanhar na sua missão de manter o rock vivo e de boa saúde.

Fotografias de: Sara Camilo 

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