NOS Alive: um segundo dia captado e amado pelo rock

8 JULHO, 2017 -

O segundo dia começa ainda com o sol, e uma amena temperatura de Julho, a banhar a arena central do palco Nos. É Tiago Bettencourt quem sobe ao palco, e interpreta ao piano “O Jogo”. Será um concerto com o calor humano que o músico português sabe convocar. Tiago Bettencourt revela-se feliz por ter sido convidado para abrir o Palco Nos do Alive, e percorre alguns dos êxitos da sua carreira, num set curto de apenas 45 minutos. Há espaço para ‘Laços’ e ‘A Carta’, dos Toranja; algumas canções acabadas de sair; e takes do álbum de 2014, como ‘Morena’, que o público canta de cor. O artista faz questão de introduzir as canções com uma breve explicação; as letras de Bettencourt são reflexões de grande beleza e alcance universal. Destaque para a estreia em absoluto de um novo single, a sair em Setembro, ali interpretado pela primeira vez – uma música que fala sobre dizer sim. Uma excelente maneira de se começar o dia, principalmente para aqueles que já estivessem familiarizados com a carreira de Bettencourt, um dos grandes compositores e letristas portugueses da sua geração. Enquanto ouvimos ‘Laços’, perguntamo-nos para quando um concerto de reunião dos Toranja. O país precisa de se recordar e celebrar o legado de uma banda cuja existência foi demasiado curta para o sumo que tinha.

Contratar as Savages para um festival é garantir um concerto óptimo. O quarteto post-punk impressionou o público do Palco Heineken com a sua pujança e intensidade sonora. As canções de “Adore Life”, que soam mais polidas em estúdio, levaram um tratamento visceral mais à medida do primeiro álbum, evoluindo desde o último concerto que deram em Portugal, no NOS Primavera Sound. A presença em palco de Jehnny Beth continua portentosa; a sua figura elegante serpenteando-se ao sabor de músicas de cozedura lenta como “Slowing Down the World” ou “Adore”, uma das melhores canções lançadas em 2016. Liberta-se dos seus sapatos de salto alto vermelhos para caminhar sobre as grades e sobre o público, numa demonstração incrível de poder, olhando os espectadores nos olhos enquanto brada hinos violentos como “Hit Me” ou “Husbands”. A guitarra distorcida e experimental de Gemma Thompson é ancorada pelo baixo sujo de Ayse Hassan (cujo som deveria estar mais alto) e pelos ritmos electrizantes da bateria de Fay Milton. Esta mistura explosiva resultou em moches e crowdsurfs por parte do público, e uma das maiores aclamações do festival até agora. Ainda não é desta que as Savages deixam de vir frequentemente a Portugal, país sobre o qual se desdobram em elogios. Somos “as melhores pessoas da Europa”, segundo Jehnny Beth. Vieram para ficar, e ainda bem que assim é.

Ante o Palco NOS já se formava um mar de gente vistoso quando os britânicos Courteeners subiram ao palco. Minutos antes entoavam-se cânticos por Manchester, a cidade natal da banda, e cantarolavam-se os refrões de algumas das músicas. Mas não induzamos em erro: falamos de poucas dezenas de pessoas, e não dos milhares que já ali se haviam aglomerado. A envergar orgulhosamente uma t-shirt com “Lisbon” estampada, Liam ia dirigia-se ao público, que assistia morno, algo alheio ao que se passava em cima do palco, esperando pelo concerto que provavelmente lá os levava, o último da noite naquele palco: Foo Fighters. A banda em si superou as expectativas, com uma energia incrível, a honrar o belíssimo legado que carrega a cidade de onde vêm, e com a voz de Liam Fray a liderar uma das mais talentosas bandas do Reino Unido. Já perto do final, Liam dedicou a “Not Nineteen Forever” a Cristiano Ronaldo: a canção serve de hino aos adeptos do Manchester United, grupo do qual a própria banda não se exclui. Um concerto que deixou a desejar mais energia da parte do público, em contraste com uma entrega desproporcional por parte dos Courteeners.

Chegava a vez de Warpaint, no palco Heineken. A fasquia estava elevadíssima: o concerto de Savages, que as antecederam, fora um dos melhores de todo o festival até ao momento. Destaque para o facto de duas bandas cem por cento constituídas por mulheres terem dominado o início da noite no palco Heineken, numa cena festivaleira que tantas vezes privilegia, de uma forma desproporcionada e pouco reactiva, o rácio de projectos musicais encabeçados pelo sexo masculino. As Warpaint estiveram à altura. Num concerto de estilo muito diferente do das Savages, mas com uma intensidade e dedicação semelhantes, deram uma hora de dream pop à plateia sedenta dos seus acordes misteriosos e dissonâncias vocais. Com particular destaque para os seus dois álbuns mais recentes, mas repescando dois pares de canções dos mais antigos e mais aclamados, as artistas de Los Angeles deslumbraram que as ouviu, com um concerto sóbrio a piscar o olho ao psicadélico. Que regressem o quanto antes; e que tragam as Savages consigo, porque foi um par de concertos muito especial, que marcará esta edição do festival.

Enquanto a maioria das pessoas no NOS Alive estava à procura da menor das filas para se alimentar a preços exorbitantes, eis que surgem as irmãs Reis com a sua pujança distorcida no palco NOS Clubbing. O jantar pode esperar pois as Pega Monstro vão tocar. O concerto começou com um sound check peculiar das duas irmãs, seguido de um aplauso encorajador do pequeno grupo de pessoas que observava a actuação desde o seu início. O alinhamento mostrou músicas do novo álbum de Pega Monstro, Casa de Cima, lançado este ano. Temas como “Partir a Loiça Toda”, “Ó Miguel”, “Pouca Terra” ou “Odemira” ouviram-se com garra, de rompante, com uma energia característica, num espectáculo fluido, com transições rápidas e eficazes entre as várias músicas.  O final foi tímido, talvez algo afastado do público, de certa forma a espelhar a juventude desta banda, mas ficou a certeza de que toda a potência do grupo foi transmitida. O som não foi o melhor mas transpareceu a identidade de Pega Monstro: o rock lo-fi e encantadoramente barulhento que Júlia e Maria Reis conseguem criar.

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Crescia a antecipação pelo momento de Foo Fighters. Antes foi ainda tempo de o público receber os The Kills, no palco NOS, de forma carinhosa mas sem o calor humano de que são merecedores. Uma imensidão de público vestia já o Passeio Marítimo de Algés, enquanto Alison Mosshart e Jamie Hince incendiavam o palco com clássicos como “Black Balloon“, “Tape Song“, “URA Fever” e “Baby Says“, balançando com “Echo Home“, “Doing It To Death” e “Heart Of A Dog” do seu último trabalho, ‘Ash & Ice’. A sua performance rende-se à essência daquilo que são: puro rock ‘n roll do início ao fim. Uma vez mais, a entrega completa da banda viria a não mostrar-se mútua por parte do público, ainda frio e na expectativa de Foo Fighters.

Os Wild Beasts deram o seu concerto no Palco Heineken com a concorrência feroz dos The Kills no Palco NOS, mas as suas canções polidas e bem amadas do espólio indie fizeram o seu papel. A pose da banda, nomeadamente dos dois vocalistas Hayden Thorpe e Tom Fleming, cheios de classe, enche o palco. Infelizmente, as suas vozes lindíssimas perderam-se no meio da mixagem de som, assim como as batidas, que se queriam mais altas, nomeadamente nas canções mais electrónicas de Boy King, o mais recente álbum da banda. Por exemplo, “Ponytail” (“a song about fucking and feeling sad”) devia ter sido mais intensa, com os seus sons apocalípticos. A setlist bem equilibrada passou ainda pelos grandes singles da banda, espremidos ao longo do concerto que durou pouco mais de uma hora. “All the King’s Men”, com os berros carismáticos de Fleming, ou a sublime “Mecca”, foram alguns dos pontos altos. O público acompanhava as batidas constantes com palmas, num entusiasmo comedido de quem não conhecia bem as canções dos britânicos, mas que talvez tenha sido convertido pela beleza inerente às mesmas. Esta música intimista perde-se um pouco no ambiente frenético do NOS Alive, mas é sempre um prazer ver os Wild Beasts ao vivo.

Meia-noite no Passeio Marítimo de Algés: casa cheia, e os Foo Fighters tomam de assalto o palco principal. Dave Grohl entra em cena e já faz adivinhar o quão épica se avizinha a noite que público e banda terão pela frente. Entre os clássicos “All My Life“, “Learn To Fly“, “The Pretender” e tantos outros hinos que crescemos a ouvir, os Foi Fighters trazem também músicas novas. Dave Grohl incentiva o público a cantar consigo e o público consente. Um canto uníssono entre a banda e os milhares de fãs, cantado a pulmões cheios. Dave Grohl alerta que tinha passado demasiado tempo desde a última vez que a banda estivera em Portugal, e por isso mesmo aquela noite seria longa. O rock ‘n roll fez-se ouvir a alto e bom som. Dedica ainda “My Hero” a todos os fãs de Foo Fighters, num momento singular onde todas as vozes presentes em Algés se unem numa demonstração única de amor pela banda. A mescla de idades no público é algo de belíssimo; um amor comum pelo rock, sem divisões ou barreiras. O público presente no palco NOS ontem à noite assistiu a um concerto que, certamente, ficará para sempre guardado na memória e nos corações.

Os Local Natives começaram fortes e assim se mantiveram ao longo de toda a performance. O espectáculo foi um mix ecléctico de músicas dos 3 full lengths da banda norte-americana, com especial detalhe para o último, lançado o ano passado, “Sunlit Youth”: mais dançável que os seus antecessores – coisa que também marcou os últimos álbuns das duas bandas que os antecederam no palco Heineken. Logo ao segundo tema, “Wide Eyes“, Rice aventurou-se numa passeata pela plateia de microfone em punho, para fazer as delícias do público, e tentar manter o nível que havia sido imposto pela magnífica performance de Savages, horas antes.
Seguiram-se uma mão cheia de temas como “You & I“, “Who Knows Who Cares“, e “Dark Days“, esta última em que Ryan Hahn cantou a parte de Catherine Marks – o que não foi estranho a ninguém dado o som dos Local Natives se caracterizar pelas harmonizações vocais dos seus integrantes. Antes de “Fountain of Youth“, Rice abriu-se ao público sobre o significado da canção, que glorifica as crianças enquanto futuro, e como isso é importante neste clima político austero em que tantos países – particularmente o seu – se encontram. “Sun Hands” terminou o set, mais uma vez com o vocalista a dirigir-se ao público, desta feita para fazer crowdsurf. Foi um bom concerto.

Depois da adrenalina típica de uma actuação liderada por Dave Grohl, chegou a altura de ir para a “discoteca” pela mão de Parov Stelar. O DJ austríaco fez-se acompanhar de quatro músicos e uma cantora para mostrar o seu electro swing, estilo musical do qual é pioneiro e um género distinto para quem o ouve e entusiasmante para quem o dança. Lá atrás ouvia-se a longa actuação de Foo Fighters mas aqui o groove é outro. A maneira como o 3 sopros encarnam a alma dos roaring 20’s e se misturam com a batida digital é verdadeiramente incrível, que o digam as centenas de pessoas que encheram o palco Heineken durante a actuação do grupo. Durante uma hora fomos transportados para um ambiente jazzy, de classe e calibre, com uma energia voraz e sem um momento parado. Até para uma versão acústica da conhecida “Clint Eastwood” dos Gorillaz houve tempo, com uma melodia de sopro a encarnar a voz de Damon Albarn espelhando o encanto típico do swing. “We’re not done yet!”, exclama a vocalista antes de iniciar “Grandpa’s Groove”. “All Night Long” levou o público ao rubro e terminou uma actuação fantástica. Três anos depois de fazer do velho a nova moda em Portugal, Parov Stelar voltou ao NOS Alive para nos relembrar  que é possível inovar sem esquecer os melhores ritmos do passado.

A fechar a noite, um artista que merecia muito mais atenção do que aquela que lhe foi dedicada, tanto pelo público como pela organização. Floating Points, projecto do neurocientista Sam Shepherd, é um dos mais interessantes e promissores artistas de electrónica que actualmente estão a fazer música. Tendo lançado o seu primeiro e único álbum de estúdio em 2015, ‘Elaenia’, com bom (e ainda assim insuficiente) reconhecimento da crítica especializada, o artista veio a Portugal pela terceira vez no espaço de um ano. Se das primeiras duas, no Nos Primavera Sound e no Lux, trouxe respectivamente um set live com banda e um DJ set em que interpretou músicas de outrém, desta feita veio ao palco Heineken do Alive fazer um set live a solo. Foi o próprio Sam quem montou o equipamento, à vista do público, antes da sua actuação. Um emaranhado de cabos coloridos, que conectou a sítios específicos da série de pequenos aparelhos que trazia consigo. Quando os ligou, seguiu-se uma hora de pura magia, que passou a voar. A probabilidade, indicada pela qualidade extrema do seu trabalho, indica que haverá um dia em que muitos terão tido pena de não terem escolhido assistir a Floating Points. Não é que muitos tenham dado conta da alteração de calendário do artista, inicialmente anunciado para dia 8 mas relocado para dia 7 sem aviso ou explicação. Não é que tenham sido grandes as multidões que acorreram ao Heineken às três da manhã para assistir ao emaranhado sónico, experimental e minimalista, de Sam Shepard. Os ecrãs laterais filmavam a plateia, com efeitos de gosto discutível a interromperem o concerto com brincadeiras que revelavam que, quem ainda ali estava, estava para gastar os últimos cartuchos com uma motivação dispersa e pouco atenta. Foi um término perfeito de um dia forte do Nos Alive. A experiência da música de Floating Points é tão pessoal e interior que somos obrigados a confessar-nos incapazes de a descrevermos devidamente; esperemos que regresse rápido, com o seu génio intacto.

 

Reportagem de: Tiago Mendes, Joana de Sousa, Bernardo Crastes, Miguel Santos, Sara Costa Dias

Fotografias de: Hugo Macedo (Palco Nos e Heineken), Arlindo Cama (Palco Nos), José Fernandes (Palco Clubbing)

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