NOS Alive 2017: o primeiro dia do festival que não é apenas um sonho

7 JULHO, 2017 -

Foi o primeiro de três dias de festa no Passeio Marítimo de Algés. 55.000 pessoas encheram e esgotaram o recinto, sedentas de ouvir os cabeças de cartaz The xx e The Weeknd, assim como as restantes bandas de renome que povoaram o cartaz deste dia 6 de Julho. A Comunidade Cultura e Arte não se conseguiu desdobrar por todos os concertos, e tivemos pena de não podermos assistir tempo suficiente a Ryan AdamsRoyal Blood ou aos portugueses You Can’t Win, Charlie Brown, pelo que nos abstemos de os comentar. Mas deixamos a nossa partilha e olhar sobre muitos dos universos sónicos trazidos pelas bandas que vieram visitar a nossa capital.

Os Rhye não são banda de festivais. A sua música sensual e tranquila não se adequa a estes ambientes buliçosos. Mesmo com um isolamento redobrado do palco Heineken, o som dos outros palcos tornava-se bastante evidente, para além de que o som da própria banda parecia estar demasiado baixo, não se evidenciando sequer a fabulosa andrógina voz de Milosh. Apesar de tudo, a banda manteve-se fiel a si mesma, obrigando o público a adaptar-se ao seu próprio ritmo envolvente. As canções do seu único álbum, Woman, de 2013, tiveram direito a algumas alterações que permitiram uma expansividade diferente por parte da banda, e que arrancaram do público aplausos merecidos. Passando pelas fantásticas “The Fall” ou “Last Dance”, houve ainda espaço para canções novas, que criaram alguma intimidade num espaço que não a inspira. Esperamos voltar a poder vê-los e ouvi-los num contexto diferente.

Teve um sabor agridoce assistir ao concerto de Alt-J ainda com o sol à vista. Talvez o som da banda e os efeitos de palco pedissem uma luminosidade mais escura, e uma colocação horária mais tardia. Foi a terceira vez dos Alt-J no NOS Alive, a segunda no palco principal. A banda, conhecida e amada pelo público mais jovem português, é caracterizada pelo seu art pop sério e sofisticado, ora calmo ora expansivo. É deslumbrante ser-se testemunha deste fenómeno de popularidade. As melodias dos Alt-J voltaram a usar o trunfo que é existirem, tão somente; e, alinhados em palco, e com muito poucas intervenções para lá das músicas, os três actuais elementos deste triângulo passearam-se por canções da sua carreira. O foco esteve no álbum de estreia, o (arriscamo-nos a dizer) mítico ‘An Awesome Wave‘. Mais de metade das canções foram dessa obra de 2012, incluindo as reconhecidas ‘Matilda‘, ‘Fitzpleasure‘ e ‘Breezeblocks‘, mas não descurando outras canções igualmente (ou mais) fortes como ‘Dissolve Me‘ e ‘Taro‘, exercícios de uma art pop única. Com um som potente, subwoofers que terão chegado ao Terreiro do Paço, os Alt-J foram eles próprios, sem se esforçarem por aí além.

Pouco depois, foi tempo de o palco Nos receber uma banda que, entre nós, não terá o mesmo grau de popularidade que entre a alta percentagem de público estrangeiro que povoa o Alive durante estes dias. Os Phoenix são indie pop fácil de entrar no ouvido, mas tocado de uma forma rica e extremamente apelativa. Com um alargado leque de abordagens ao género, ora aproximando-se da dança, ora piscando o olho ao rock psicadélico, ou ainda puxando à electrónica sintetizada, a banda francesa angariou a atenção e apreciação do muito público que marcou presença. Entre hits e canções mais desconhecidas, o público vibrou ao som de um leque diversificado de temas, provenientes dos vários álbuns da carreira do colectivo. O conjunto de seis músicos em palco, dando uso a um explosivo sistema de luzes, terão convencido até muitos daqueles que ainda não os conheciam. Thomas Mars, na voz, interpretou com emoção e intensidade. Muito mais que um concerto de aquecimento para os cabeças-de-cartaz, os Phoenix provaram que o seu posicionamento na tabela horária não foi despropositado.

Jessy Lanza levou o seu synthpop dançável ao palco NOS Clubbing. Para uma plateia relativamente preenchida, a canadiana tratou dos seus beats pré-programados e cantou por cima deles, na sua voz acriançada mas vivaça, agitando-se alegremente. As canções do seu mais recente ‘Oh No’ saíram-se especialmente bem, como “Vivica” ou a espectacular “It Means I Love You”, que, com a sua batida obstinada, pôs o público a dançar. Aquilo que poderia melhorar o espectáculo seria ouvir os sons a serem feitos no momento, para trazer alguma experimentação, mas as canções são tão infecciosas que o facto de o concerto soar igual ao álbum acaba por não ser negativo.

Pontualmente, como tem sido a marca de todos os concertos do festival, os três elementos dos The xx subiram ao Palco Nos debaixo de uma chuva de aplausos e gritos de fãs. Foi talvez o momento mais lotado da noite. Ao longo do dia, viam-se a circular pelo recinto t-shirts com o x que serve de símbolo à banda. À hora marcada, 22.40h, o concerto inicia da mesma maneira que a carreira dos The xx, ao som de ‘Intro’ do primeiro álbum. Ao longo de uma hora e dez minutos, Romy, Oliver e Jamie foram anfitriões de uma festa ao seu jeito: contida em dados momentos, como se dançassem sozinhos num quarto; explosiva noutros, com a interpretação de temas como ‘Dangerous’ e ‘On Hold’, do mais recente trabalho da banda, pondo toda a gente a agitar-se e de braços no ar; introspectiva e íntima, de maneira especial nas interpretações a solo de Romy, em ‘Performance’ e ‘Angels’, a encerrar o espectáculo (‘Brave For You’ também se destacou).

O carisma, a energia e a voz de Oliver potenciam um concerto comunicativo, pontuado de anotações para o público: são apaixonados pela cidade de Lisboa, dedicam uma canção a um membro da equipa técnica que teve de ir para o hospital, e revelam adorar os festivais de música por nos permitirem sermos quem somos, deixando os problemas de lado. Também a voz cheia de Romy, a sua melodiosa guitarra que dá identidade ao grupo, e o seu embaraço natural em palco são essenciais para o espectáculo; na noite em que dedicou ‘Angels’ à sua noiva aniversariante. Mas é Jamie XX, o homem que entra calado e sai mudo, quem mais nos impressiona. Jamie XX não é apenas mais um dj: com uma larga bancada de botões e mais botões, gira-discos para manipulação dos samples em directo, baterias electrónicas e tambores acústicos, teclados e sintetizadores do seu lado direito. Ele é um one-man show; não está quieto um momento do concerto, providencia toda a camada de fundo que suporta o som da banda, num contributo activo e, acima de tudo, criativo. Se a produção dos álbuns, em particular do último, não fosse suficiente, o concerto confirma-o: Jamie xx pode ganhar asas e dedicar-se a uma carreira sua, em nome próprio. Os The xx convenceram, mas um deles levantou voo.

O palco principal do primeiro dia de NOS Alive dificilmente poderia ter tido uma melhor despedida do que aquela protagonizada por The Weeknd. Uma actuação que começou com ‘Starboy’, e acabou com ‘The Hills’, ao passo que chamas e fumo saíam do palco, ajudando ao espectáculo. Os efeitos contribuíram para tornar o recinto de Algés numa enorme pista de dança criada pelo segundo cabeça de cartaz, e por um dos nomes mais aguardado do dia. Para os que duvidavam da sua capacidade para colocar ao vivo alguns dos seus êxitos – e foram praticamente todos tocados, inclusive ‘Wicked Games’ – terá saído com uma outra ideia. The Weeknd e a sua banda corresponderam às expectativas que o seu nome trazia, e isso chega (mas não sobra) para que não tivesse defraudado quem lá esteve só para o ver.

Meia hora depois de começar The Weeknd, o último concerto da noite no palco principal, foi a voz de Bonobo subir ao palco Heineken. Não vinha sozinho; o reconhecido DJ fez-se acompanhar de uma banda com quem interpretou temas de vários álbuns, de uma carreira com já quase duas décadas. A electrónica downtempo de Bonobo, montada ao vivo com a assistência de teclados, bateria, baixo, um trio de metais, guitarra e a voz de Szjerdene, acabou por praticamente encher a plateia, principalmente a partir do momento em que o concerto do cabeça-de-cartaz terminou a sua actuação no outro palco. O concerto começou lento, sempre tendo por base um conjunto de visuais apelativos. Animações sugestivas para uma viagem sónica, ao ritmo de sons de diferentes partes do mundo, num resultado próximo do nu-jazz que tanto conquista o corpo de quem dança. A secção intermédia do concerto, a caminho do final, é o momento mais imersivo, com o volume e a intensidade a aumentarem, e a plateia a render-se, balançando-se sem reservas. Terminado o espectáculo, ficava a pergunta: porque não termina a noite com o concerto de electrónica, como não raro acontece no alinhamento de tantos festivais? A organização queria aguentar muito do público mais jovem para a última das festas do dia 6 do Alive.

Cada vez mais nos convencemos de que o melhor horário para as bandas actuarem no NOS Alive é por volta das 3 da manhã. Por essa altura, já só fica quem realmente quer dançar; basta que as bandas forneçam uma batida dançável para o público lhes jurar amor eterno. No entanto, não antecipámos na devida medida a adoração do público do festival pelos Glass Animals. Cantavam as canções, faziam enormes ovações e dançavam sem fim, com uma descontracção notória. Por outro lado, a banda também se dedicou, com o vocalista a saltitar de um lado para o outro, a ir para junto do público e a cativar pelo seu carisma. Assim, os Glass Animals entretiveram o público com o seu indie dance inconsequente, que se destacou pelo detalhe que as melodias conferem às canções, que infelizmente foram vítimas de uma mistura de som que favoreceu mais o baixo e o ritmo. Apesar disso, este (des)equilíbrio sónico permitiu à banda atingir o seu objectivo máximo: pôr o povo a dançar. Venha o próximo dia do festival. O primeiro? It was not just a dream.

 

Reportagem de: Tiago Mendes, Bernardo Crastes, Sara Costa Dias, João Estróia

Fotografias de: Arlindo Camacho (Palco Nos), Hugo Macedo (Palco Heineken), Débora Jacinto (Palco Clubbing)

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