Nos Alive 2017: o festival encerrou de maneira eufórica

10 JULHO, 2017 -

O terceiro e último dia da edição de 2017 do Nos Alive esteve marcado por uma dispersão de bandas para diferentes públicos. Se o dia anterior vira uma concentração mais marcada de um género musical – o rock, nas suas várias expressões e graus de popularidade – o sábado acaba por ficar marcado como o dia com mais heterogeneidade estilística do festival. Depeche Mode a apelar a um público mais maduro, os Kodaline e os Imagine Dragons a concentrarem muitas atenções entre o público mais jovem, Cage The Elephant num posicionamento ambíguo, e outras tantas a piscarem o olho aos ouvintes de música alternativa. A Comunidade Cultura e Arte não se conseguiu desdobrar pelos espectáculos nos dois palcos principais, pelo que a força do Palco Heineken no dia 8 acabou por apelar à nossa permanência nesse lado do recinto.

O palco coreto foca-se principalmente em dar a conhecer a um público menos atento projectos portugueses, sejam eles emergentes ou já bem estabelecidos. Mas, se assim é, não seria de supor que o tempo de antena dado a cada artista fosse superior a vinte minutos? Filipe Sambado, que lançou um dos melhores álbuns de 2016 – “Vida Salgada” – entrou em palco com os Acompanhantes de Luxo, sem banter nem nada, alegando que tinham pouco tempo e muitas música para cantar. Não estávamos era à espera que o “pouco tempo” significasse que o espectáculo acabaria com Sambado a alegar que tinha mais uma música para cantar – “Subo a montanha” – mas que já não podia. O artista, que à sua boa maneira se apresentou de saia com estilo meio andrógino, cantou-nos os clássicos “Estou Confuso“, “Tabaco“, “Vida Salgada” e “Aprender e Ensinar“, bem como dois novos temas de um álbum que esperamos que saia em breve. Foi muito bom, mas melhor teria sido se o tivessem deixado tocar até ao fim o set que tinha preparado.

No palco Heineken, o final de tarde era assinalado pela calorosa prestação de Benjamin Booker. O artista californiano traz o seu blues rock balanceado, com um som e aparência retro, e bonitas guitarras e baixo em cima do palco. As canções dividem-se entra as do primeiro álbum e as do segundo, editado há um mês atrás. Benjamin Booker, ora com guitarra ao peito ora apenas com o microfone na mão, passeia pelo palco e interpreta com uma voz rouca e característica temas que agradam ao ouvido com muita facilidade. Por duas vezes puxa do cigarro e fuma entre os versos. Para a hora que era, a plateia estava muito bem composta, tendo esvaziado logo de seguida, e provando que o público não estava ali a guardar lugar para as bandas seguintes – é sinal do balanço positivo que o artista pode levar de junto do público português. O concerto terminou com ‘Witness‘, single principal do mais recente álbum.

Não saberíamos bem como a música intimista e nuançada de Filho da Mãe se traduziria num espaço como o do NOS Alive, mas não perdeu nenhuma da sua força. O dedilhar de Rui Carvalho continua impressionante, sobreposto em camadas adicionadas sequencialmente, que criam uma espécie de transe no público. O seu concerto, que durou uns meros 15 minutos, tempo normal para o Palco Coreto, foi essencialmente constituído por improvisação, entregue com uma pose menos estóica por parte do Filho da Mãe do que aquela adoptada por si nos primórdios da sua carreira. Esse à-vontade contribuiu bastante para o sucesso da performance. Há ainda uma experimentação mais premente com a electrónica, subjugando as canções ao seu efeito psicadélico. O concerto termina com Rui a bater na sua guitarra, criando sons profundos, como se viessem do fundo do mar, e deixa-nos a vontade de experienciar mais e mais concertos seus.

Subiram ao Palco Heineken uma das bandas que ajudaram a definir a evolução do rock alternativo, à sua escala, principalmente no final dos anos 90 e início da primeira década de 2000 (embora continuem a fazer boa música até hoje, incluindo o álbum editado este ano, ‘Hot Thoughts’). Os Spoon, com a sua actual formação de cinco elementos, deram um concerto de aproximadamente uma hora, com espaço para momentos puramente instrumentais e de exploração do (aparente) improviso. Bastante bem recebidos pelo público português, percorreram alguns dos clássicos da sua longa carreira, com espaço ainda para três dos mais recentes temas, incluindo os singles ‘Hot Thoughts‘ e ‘Can I Sit Next to You‘. Deixaram um apelo à plateia: regressam a Portugal em Novembro, para dois concertos em nome próprio (Lisboa e Porto), e querem-nos ver lá. Adivinhando-se um concerto tão envolvente como este, valerá certamente a pena bisar o prolífico colectivo num único ano, aproveitando a sonoridade criativa que ainda têm para dar e vender.

Era chegada a hora dos Fleet Foxes. Uma das mais importantes bandas do indie folk, e um nome que – não raro – aparece como cabeça de cartaz dos festivais em que marca presença; os Fleet Foxes foram anunciados para o Alive praticamente em simultâneo com o anúncio de que os bilhetes se encontram esgotados para esse dia, assim como os passes do festival. Talvez esse facto explique a recepção menos calorosa por parte do público, com a presença de menos ouvintes activos da banda. Não é que tenham havido poucos aplausos, ou que se vissem à volta poucas pessoas felizes – mas os Fleet Foxes mereciam mais; e mais teria sido pouco. Os Fleet Foxes lançaram um dos melhores álbuns do ano há menos de um mês atrás – ‘Crack-Up’ – e trouxeram-nos um alinhamento de uma hora e cinco minutos que inclui seis temas do novo trabalho. Interpretaram ainda dois pares de canções de cada um dos dois primeiros álbuns, qual deles o melhor, e qual delas a mais bonita (talvez ‘He Doesn’t Know Why’? Cada um terá a sua). Em comum a todas estas canções, as estruturas intrincadas e apelativas, as melodias majestosas e surpreendentes, e as letras profundas e verdadeiramente literárias. Tudo isto envolto num manto que cruza uma sonoridade folclórica e tradicional com uma veia progressiva, que sugere novos trilhos para uma banda que tem vindo a abrir-se ao experimentalismo. O facto de ter sido um dos grandes concertos desta edição do Alive não nos bastou – queríamos mais. Robin Pecknold ria-se, e Christian Wargo, ao seu lado, encolhia os ombros em sinal de incompreensão quando algumas pessoas mais entusiasmadas gritavam de contentamento entre as músicas. Não é todos os dias que podemos ouvir um génio contemporâneo a interpretar música à nossa frente: pedimos mais compreensão às raposas ligeiras; e que voltem, quanto antes, para um espectáculo em nome próprio.

Mal o espectáculo dos Fleet Foxes terminou, fomos empurrados e figuradamente esmagados pelas hordas sedentas de ouvir Cage The Elephant nas primeiras filas. Escapulimo-nos para uma das laterais, simultaneamente por respeito pelos fãs e por protecção da integridade física. Seguiu-se um concerto que provou que muito do público presente naquele dia do Alive esteve para os ver. Nas várias edições do Alive, ainda não tínhamos ouvido, no Palco Heineken, o público reagir tão efusivamente e alcançando tantos decibéis só com o som da sua voz. A banda reagiu à altura, e chegou-se a um estado de transe e euforia colectiva que parecia quase desproporcional à música que era interpretada. Os Cage The Elephant são verdadeiramente um fenómeno de popularidade, e num concerto de alta intensidade entregaram-se por completo, interpretando principalmente canções dos dois últimos álbuns. No final, Matt Shultz já quase não podia andar. Vimo-lo subir para as costas de um colega da banda, pelas escadas de acesso ao backstage, segundos antes de correrem uma última vez para o público, e desaparecerem de vez. A temperatura no Heineken subiu vários graus acima do normal.

Já de madrugada, os The Avalanches iam praticamente encerrar a noite. Caso semelhante ao dos Fleet Foxes, a banda foi anunciada já muito depois de se encontrarem esgotados os passes e os bilhetes diários. Será diminuta a percentagem do público português que se terá apercebido do mítico colectivo que fechou o último dia do festival. Tirando talvez o caso de DJ Shadow, não houve ninguém que, ao nível dos The Avalanches, tenha tido um papel tão importante na criação e exploração do género plunderphonics, que eleva o uso dos samples a um cúmulo (e a um cume) criativo. Depois de um álbum imensamente aclamado editado no ano 2000, a banda eclipsou-se até ao ano passado, quando regressou de surpresa com um novo álbum e uma tour mundial que ainda hoje decorre. É neste contexto que os The Avalanches chegaram, carregando um peso porventura maior do que eles próprios. Num concerto envolvente, estranho, e dançável, convocaram a voz de Michael Jackson quando era ainda miúdo nos Jackson 5, e projectaram Nina Simone a cantar ‘Don’t Let Me Be Misunderstood’. A partir daqui, desenvolviam o som de formas coloridas. Os dois álbuns tiveram espaço para se expressarem. Talvez a experiência não tenha sido tão emocionante como a escuta dos álbuns, em que os samples se identificam com mais clareza, e a mistura é um dos grandes trunfos. Não foi um espectáculo que tenha enchido completamente as medidas, não só porque o público se manteve morno mas também porque a banda não foi capaz de o aquecer; mas talvez o desafio fosse demasiado difícil, para uma banda cujo legado tenha talvez ascendido para níveis difíceis de se fazer jus.

O Nos Alive 2017 ficou pautado por ter sido a edição que mais rapidamente esgotou, o que, como vimos no caso de Fleet Foxes e The Avalanches (e outros terão havido, noutros dias), fez com que existisse uma certa desproporção de uns fãs de umas bandas para os fãs de outras, prejudicando um pouco a dinâmica e a força de alguns dos concertos. É difícil circular no recinto quando termina um concerto no palco principal, embora isso se tenha notado mais nuns momentos que noutros. Mas a verdade é que Nos Alive continua a ter um dos mais fortes cartazes do ano a nível musical – não só no contexto português, mas posicionando-se muito bem na lista dos vinte ou trinta melhores festivais de música internacionais. É um privilégio podermos assistir a tantos gigantes e pérolas escondidas num espaço de três dias, tão perto de nós. Temos expectativa para saber de que formas o festival se vai adaptar ao seu exponencial crescimento no decorrer das próximas edições.

 

Reportagem de: Tiago Mendes, Bernardo Crastes, Sara Costa Dias

Fotografias de: Hugo Macedo (Palco Heineken), José Fernandes (Sambado), Debóra Jacinto (Filho da Mãe), João Costa (última), Rita Carmo/Blitz (Spoon)

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