‘Nocturnal Animals’, o elegante e sedutor conto de Tom Ford

14 NOVEMBRO, 2016 -

Com honras de Sessão de Encerramento do LEFFest ’16, Nocturnal Animals, de Tom Ford, surge sete anos após A Single Man. Baseado na obra literária Tony And Susan e filmado através do elegante olhar do estilista, em Nocturnal Animals é notada toda a elegância que lhe era a priori presumida, neste que é um verdadeiro “filme de gala”.

A sequência de créditos iniciais é provida de extremo despudor. Mulheres de “grandes dimensões” balançam em slow-motion no ecrã, completamente nuas numa espécie de espectáculo burlesco capaz de reacções mistas. Ao percebermos tratar-se de uma exposição numa galeria de arte, Tom Ford coloca-nos na pele de visitantes desta exposição onde também nós julgámos aquelas mulheres, objecto de escárnio e admiração para grande parte dos visitantes que vêem nas mesmas a sua “inquestionável” imperfeição de formas. A certa altura, Susan (Amy Adams), a directora da galeria de arte, olhando para uma colaboradora que de forma visível recorreu em demasia a cirurgias estéticas diz-lhe algo como “às vezes também faz bem não mudar demasiado”.

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No entanto, por vezes também faz bem mudar e Tom Ford fê-lo com toda a elegância de uma passerelle. De A Single Man pouco resta e o estilista/realizador reforça de forma clara a sua capacidade como cineasta pela forma hábil como nos coloca em três diferentes planos ao longo da obra: o presente, o passado e uma visão ficcionada. Esta última é criada pelo ex-marido de Susan, Edward (Jake Gyllenhaal), um escritor que passados dezanove anos volta a entrar em contacto enviando-lhe um manuscrito da sua última obra “Nocturnal Animals”, algo que ele lhe costumava chamar.

Em todos estes planos que nos são apresentados em paralelo há uma riqueza de elementos e de narrativa enorme que nos começam a ser dados a explorar a partir do momento em que Susan coloca os seus óculos grossos e começa a ler o livro. A personagem de Gyllenhaal no seu próprio livro possui a mesma fraqueza que lhe foi apontada por Susan para acabarem com a relação há quase duas décadas atrás. No livro, Tony Hastings (Jake) conduz por uma estrada do Texas até ser interceptado por um grupo de homens liderado por Ray (Aaron Taylor-Johnson) que o atacam juntamente com a sua família. Tony é obrigado a viver com as consequências de não ter conseguido evitar o ataque e a ter de sair da sua “zona de conforto” e a contornar a sua fraqueza com a ajuda do detective Bobby Andes (o fantástico Michael Shannon).

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De forma exímia Ford retira-nos facilmente desta quase dimensão paralela onde imergimos juntamente com a leitura de Susan. O confronto entre a sua actual situação com o seu actual marido, Hutton (Armie Hammer), que a trai e com o qual vive uma vida de fachada tentando esconder a sua debilitada situação financeira, e a anterior relação com Edward, nos tempos de juventude onde a necessidade de estabilidade e de procura de uma carreira obrigaram ambos a decisões difíceis (sobretudo para Susan). Há uma notória e constante mensagem ao longo do filme de Tom Ford contra uma sociedade de “fachada“, de ostentação que só liga ao aspecto exterior renegando o romantismo considerando-o de “fraqueza” e sensibilidade excessiva. “Acredita, o nosso mundo é muito menos doloroso que o mundo real“, diz a certa altura uma das personagens após admitir o seu casamento de fachada com um marido que é homossexual.

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Com actuações soberbas por parte de um cast de primeira água, Nocturnal Animals é um conto sobre vingança, raiva e ódio, construído à volta de uma melancolia romantizada sobre o passado contrapondo as escolhas com as suas consequências. Um thriller de visual ousado que por vezes lembra em elegância e savoir faire Blue Velvet de David Lynch (que curiosamente teve direito a uma exibição de comemoração dos seus trinta anos durante este LEFFest).

Um filme que mescla na perfeição uma aura de tensão e sensualidade, onde o desconforto e a sexualidade andam de mão dada. O olho clínico para o detalhe estético de Tom Ford facilmente se sobrepõe à trama durante o filme, mas é a igual atenção e percepção pela fealdade interior que marca de forma indelével a capacidade do realizador em tornar o que poderia ser uma simples obra numa obra de arte de sofisticado glamour.

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