Não torci por Portugal neste Europeu

10 JULHO, 2016 -

Ponto prévio: não torci por Portugal neste Europeu. Não me declarei um aficionado patriota desde o início desta competição e não é a primeira ocasião na qual me declarei como passivo nestas lides das seleções (apesar do caso do Thomas Müller mas assumido como aparte). O Sporting Clube de Portugal confere-me a emoção necessária na paixão desportiva. Talvez por isso alegria pelo Rui Patrício, guardião das redes da minha paixão por quase uma década, extensível para os outros leões. Porém, sentimento de justiça pelos gladiadores espirituais do pequeno canto do sudoeste europeu, liderada por um Homem de fé e uma inabalável crença. Fim do ponto prévio.

Pessoa, Camões, Torga, Manoel, Paredes, Siza, Moniz, Saramago, Espanca, Junqueiro, Sophia, Queirós, Condestável, Infante, Salgueiro, Amália. No desporto, Rosa Mota, Fernanda Ribeiro, Carlos Lopes, Nélson Évora, Rui Costa, Fernando Pimenta, Naide Gomes. Disto é feito Portugal. Um país pouco caraterizado pelo que é fácil mas essencialmente identificado com ideais de luta, de sacrifício, de sonho. Uma ambição desmesurada mas nunca despojada da crença. Nove séculos de uma história em permanente relato. Uma fábula para os mais descrentes do que é aparentemente surreal. É possível. É alcançável. Eis uma prova de uma constante superação, de uma insigne concretização. Uma nação assente numa bendita projeção. Descobriram-se terras. Cumpriram-se obras. Preservou-se a dádiva da Natureza, a dádiva que concedeu um curto mas tão valioso território. Assinalável e memorável património. No entanto, nada acaba aqui. Existem bem mais guerras prestes a despoletar. Os valores que se aplacaram à identidade do português serão testados. Política exposta aos habituais dilemas da direção. Economia dependente daqueles que saem derrotados noutros terrenos. Cultura ainda a necessitar de um holofote crente e presente que faça ecoar a melodia lusa pelo mundo. Sociedade com o inerente desequilíbrio entre os seus constituintes. Indústria inovadora e condutora do bem que se concebe e que se celebra. Desporto acelera como mote para um rumo de conquistas. A plataforma ideal para que o português se veja como perto de divinal. Como anunciado nos Lusíadas, este sujeito aproxima-se dos deuses. Como apregoado na Mensagem, falta cumprir-se Portugal. A celebração do atleta de origem lusa aponta para o caminho que deve ser percorrido. A ironia do destino é que são os corredores, os saltadores e os jogadores do relvado que apontam para o destino. Perseverança. Abnegação. Confiança. Ambição. Audácia. Tempero de perspicácia. Nasce a obra. Nasce a valorosa criação. Nasce a esperança de um Portugal coerente e valente no racional e docemente irreverente no emocional.

Fotografia FPF

(artigo editado às 23:57)

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