‘Não havia um dia típico, porque nem Cuba nem o Herzog nos permitiam isso’

26 MARÇO, 2017 -

Podes tirar uma foto comigo, mas ninguém a pode tirar por ti... tem de ser uma selfie
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“Podes tirar uma foto comigo, mas ninguém a pode tirar por ti… tem de ser uma selfie”, disse Werner Herzog antes de se tirar esta fotografia que ilustra este artigo

No início de Março, durante 10 dias, Cuba hospedou os 55 cineastas internacionais que conquistaram a posição de alunos de Werner Herzog. Este evento foi organizado pela “Black Factory Cinema” e “EICTV” (International School of Cinema and Television in San Antonio de los Baños, Cuba) que selecionaram criteriosamente os seus participantes. Os jovens cineastas foram escolhidos pela “qualidade do trabalho anterior”, “autonomia técnica”, “motivação pessoal”, entre outros fatores. No meio de participantes oriundos de mais de 20 países, para nós destaca-se Flávio Ferreira, o português entre eles.

Ao longo do seu curto percurso, o português  de 24 anos realizou “Graça” (2014), uma curta ficção sobre solidão e viuvez e “Terras de Quem Sou” (2015), um documentário de 29 minutos produzido por “Filmes do Homem”. Foi também o primeiro assistente de realização de “O Guardador” (2015), uma curta-metragem de Rodrigo Areias.

No âmbito do Laboratório de Realização do primeiro ano de mestrado em Cinema na Universidade da Beira Interior (UBI), o jovem português de Torres Novas realizou “Pele de Cordeiro” (2016). A curta-metragem de 6 minutos foi filmada em plano-sequência (um único take sem interrupções de montagem) e aborda o tema da figura paternal e da autoridade. Foi com este filme que venceu a primeira edição da Bolsa “EDP Manoel de Oliveira”. Para além do prestígio associado ao nome do maior cineasta português, recebeu um prémio de 50.000 euros para investir em formação na área de cinema.

“Pele de Cordeiro” (2016), curta vencedora da primeira edição da Bolsa “EDP Manoel de Oliveira”

O primeiro investimento consistiu em dez dias em Cuba, com o realizador de “Aguirre, the Wrath of God” (1972), “Nosferatu the Vampyre” (1979), “Fitzcarraldo” (1982), e figura maior do documentário ensaístico. Nós sentamo-nos digitalmente com o Flávio para falar dos frutos colhidos durante experiência, perceber as suas origens cinéfilas e descobrir os planos para o futuro deste promissor jovem cineasta.

Porque escolheste enveredar pelo cinema?

Em verdade, o meu percurso académico foi sempre num rumo oposto a uma área artística (fiz Ciências e Tecnologias no Secundário e cheguei a iniciar um curso de Gestão em Lisboa) até que um dia decidi ir para Cinema… e fui. Refletindo agora, mais tarde, recordo-me do gosto por filmes e por escrita desde tenra idade, o que dá algum sentido a tal decisão repentina.

De que trabalho mais te orgulhas?

Possivelmente da curta documental que fiz agora em Cuba. Tendo como mentor o Werner Herzog, experimentei fazer algo num estilo completamente diferente do que fiz previamente, com algum receio de ter como resultado algo medíocre. Felizmente, a receção dos meus colegas e de mi Coronel (como ele queria que o chamássemos) foi muito positiva, o que foi fantástico. É sempre bom ter mais orgulho pela última coisa produzida. Isso transmite um sentimento de crescimento.

Se cresceste houve coisas que deixaste para trás, que não têm a qualidade do que fizeste agora. Qual é a tua relação com esses trabalhos?

Eu tento olhar pare eles como trabalhos que me permitiram chegar a este ponto. No geral, fiz o melhor que pude com o que sabia, adequado às circunstâncias da altura. Claro que agora acabaria por fazer muitas coisas diferentes mas, no final do dia, olho para a maioria com muito carinho, porque não são só filmes, são as pessoas que estiveram envolvidas na sua produção, as aventuras de rodagem, a generosidade de muita gente.

O que pensas ter aprendido ao tirar uma licenciatura de cinema na Covilhã e agora um mestrado?

Tudo o que aprendi sobre fazer Cinema começou lá. Antes de chegar à Covilhã nunca tinha pegado numa câmara, nunca tinha escrito um guião. As únicas noções que tinha eram ao nível de um espectador. Não só me marcaram os conhecimentos práticos e teóricos que ganhei na Covilhã, como me permitiram conhecer pessoas com a mesma paixão por Cinema, algo que se revelava quase impossível para alguém como eu, vivendo numa pequena aldeia, no interior de Portugal.

Existe um movimento online que se define pelo distanciamento das escolas de cinema. Uma das maiores publicações online sobre cinema chama-se No Film School e outra Film School Rejects. O próprio Herzog disse que preferia que as escolas de cinema se extinguissem. Como é que alguém agora a terminar um mestrado na UBI encara essa dicotomia?

No final do dia o que importa é o trabalho que fazes, independentemente de como chegaste lá. Durante o workshop o Herzog não quis saber quem tinha estado numa escola de Cinema ou não, o que importava era o filme que estava a desenvolver. O que fazes é uma consequência da tua dedicação e trabalho. A escola de cinema talvez te proporcione um ambiente e ferramentas para desenvolveres o teu cinema, mas ele vai sempre partir de ti. A escola não tem obrigação de te tornar um artista, em verdade, ninguém tem.

Como te sentiste ao ganhar a BOLSA Manoel de Oliveira e que portas achas que te abriu?

Senti-me verdadeiramente honrado, não só por terem escolhido o meu filme mas, acima de tudo, pelo realizador a quem a bolsa está associada. Acabar o Mestrado na UBI e fazer este workshop em Cuba foram as primeiras consequências diretas da bolsa. De seguida, irei fazer outro workshop, de dez dias com o Victor Erice em Ourense, Espanha.

Durante a duração deste workshop como descreverias um dia típico?

Não havia um dia típico, porque nem Cuba nem o Herzog nos permitiam isso, mas simplificando: nos primeiros dias visitámos possíveis locais de filmagens e conhecemos habitantes locais, depois cada um filmou ao seu ritmo. Estranhamente, no quinto dia mais de metade dos participantes mudou o filme que estava a fazer (eu inclusive, pois o mar de histórias e de pessoas fascinantes levaram-nos a melhor e, muitos de nós, converteram-se ao documentário). Nos últimos dias a maioria editou e, ao longo de quatro dias, visualizámos todos os filmes, à medida que os íamos acabando. O Werner foi aconselhando ao longo da fase conceptual e depois na fase de montagem. As filmagens eram intervaladas com masterclasses, QA’s ou simplesmente discussões privadas com ele.

1º frame exclusivo de “Norley y Norlen” (2017), curta realizada por Flávio Ferreira sob a alçada de Herzog, em Cuba.

O Werner Herzog tem uma ideia muito própria do que é o cinema e, especialmente, de como se faz cinema. Ele disse, por exemplo, que os storyboards são instrumentos de cobardes. Existe alguma coisa em particular que aprendeste na universidade que ele desconstruiu?

Aquilo que ele mais me transmitiu em relação a este assunto, é que nada é fixo ou definido. Praticamente tudo pode ser desafiado, cada abordagem deve-se adaptar a cada situação. Sim, ele tem uma maneira muito própria de fazer cinema, mas como apreciador de cinema revela-se alguém bastante aberto. Eu fiz um documentário inteiro com a câmara à mão, com jumpcuts e, basicamente, sem diálogos. Sabia que era uma abordagem diferente dos meus colegas do workshop, principalmente os que fizeram documentários, tal como eu, que na sua maioria seguiram um estilo mais “herzogiano” (sendo fantásticos nisso). Mas isso não o fez apreciar menos o meu filme, em verdade elogiou-o pela diferença. Isso foi algo que sempre tentei fazer, mesmo na UBI, manter-me fiel à visão que tinha, para o bem e para o mal, independentemente do quão desafiante fosse.

Estes dez dias mudaram a tua forma de fazer cinema?

Sim, acima de tudo por ter conhecido outros artistas vindos de um pouco por todo o mundo, de ter conhecido outras maneiras de trabalhar, outras abordagens e visões de cinema. Estas são ligações que espero que continuem para além dos dias em que estivemos em Cuba. E, claro, o país e os seus habitantes acabaram por me influenciar como pessoa e, consequentemente, a minha maneira de fazer cinema.

Há algum conselho que vais levar mais a peito?

Não parar, não perder demasiado tempo com coisas que não importam. Seguir sempre em frente e não ligar a pormenores que não importam a mais ninguém e, daqui a uns tempos, nem a nós vão importar. Assumir uma certa urgência em tudo o que fazemos. Não sei se isto foi necessariamente um conselho que ele deu nestas palavras, mas foi algo que ficou.

Qual foi a importância de o teres conhecido neste momento da tua vida e carreira no cinema?

Penso que terá sido uma altura crucial, por estar a acabar o mestrado, ainda experimentando com o meu cinema, mas já sentindo alguma segurança no que faço, e sendo assim influenciado por toda a experiência. Esta conjuntura revelou ser, talvez, a altura perfeita.

Ao longo dos dez dias que passaste em Cuba, tens alguma história com o Herzog que aches que vai ficar para sempre contigo?

Sim, houve uma noite durante uma festa em que ele partilhou comigo e com outros colegas do workshop algumas histórias pessoais e outras de rodagens (incluindo algumas envolvendo o Klaus Kinski) que eram verdadeiramente loucas. Não penso que sejam públicas, por isso não me cabe a mim divulgá-las.

Mas também algo tão simples como estar sentado num banco de jardim, a discutir cinema com o Herzog, numa pequena vila em Cuba… Toda a situação é algo surreal.

2º frame exclusivo de “Norley y Norlen” (2017)

O Sr. Herzog leva-se muito a sério?

Ele leva o cinema muito a sério, algo que fez questão de nos transmitir. Por exemplo, podíamos ter encarado os filmes do workshop como isso mesmo: filmes de workshop. Ele não nos permitiu tal coisa, apesar de não esperar uma obra-prima queria algo completo, com um nível mínimo de qualidade. Queria um filme e não um exercício. Quando falhávamos a esse nível ele não tinha problemas em informar-nos, mas sempre com uma certa classe.

Em que estás a trabalhar agora e quais são os projetos para o teu futuro?

Neste momento estou em pré-produção de uma curta de ficção, projeto final de Mestrado, que vamos filmar em Junho e também espero fazer a distribuição por festivais desta nova curta. Outros projetos ainda não completamente certos, em Espanha e em África que, acontecendo, são consequências diretas de ter frequentado o workshop.

O que levas desta experiência para o teu futuro?

Muitas coisas… incluindo a autorização do próprio Werner para usar a assinatura dele do diploma em falsificações que faça no futuro.

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