‘Myths 002’, um EP que se destaca mas que também se perde

1 FEVEREIRO, 2017 -

Ariel Pink é um dos mais proeminentes nomes do synth-pop da atualidade. Tal lugar de destaque foi conseguido através da forma como adota uma sonoridade muito dos 80’s e a torna sua, quer pelas exuberantes abordagens temáticas, quer pelas violentas alterações de ritmo e dissonâncias. Criando álbuns sob nome próprio desde 2002, foi em 2012, no aclamado Mature Themes, que pudemos ouvir a primeira colaboração entre Ariel Pink e Weyes Blood (Natalie Mering), que cedeu a sua voz no tema “Early Birds of Babylon”. Desde então Mering tem-se dedicado à sua própria carreira, com três álbuns e um EP lançados, destacando-se Front Row Seat to Earth, álbum que a tornou presença assídua nas listas de melhores álbuns de 2016.

Ora, Myths 002 vem então como seguimento do EP colaborativo entre Connan Mockasin e Devonté Hynes (aka Blood Orange), Myths 001, de 2015, enquanto parte do Marfa Myths Festival, editado pela Mexican Summer. Surge no início deste ano “Tears on Fire”, single e musica de abertura do EP, que, para além de se revelar a canção mais forte desta colaboração, é aquela que mais reflete a fusão estética dos mundos destes dois artistas, da extravagância e aleatoriedade de Pink, com o folk sintetizado de Mering: Com versos suaves embalados de guitarra acústica, o tema sofre uma reviravolta assombrosa no refrão, em que transparece a essência estranha a que Ariel habituou o seu público (através de temas como “Negativ Ed” ou “Little Wig”).

“Daddy, Please Give a Little Time to Me” marca contudo uma mudança de passo entre o primeiro e os dois últimos temas do EP, funcionando quase como interlúdio, não apenas pela sua curta duração, mas pela natureza frágil e repetitiva do sintetizador, da percussão e da colocação vocal “eclesiástica” adotada por Mering. Por sua vez, “Morning After” poderia estar no ultimo álbum a solo de Mering, ainda que a contribuição de Pink se sinta pela inquietação que a musica transmite liricamente “When I saw you I knew I was cursed/I’m the one who got bit first.”.

“On Another Day” é um dueto – que se descobre no fim da canção ser gravado ao vivo – e a composição deste EP que mais se distancia daquilo que se esperaria sonicamente de um processo colaborativo entre dois artistas. Encerra as festividades epicamente, como uma balada sombria mas terna num clássico filme de adolescentes e uma essência alusiva ao rock britânico novamente da década de 80.

Com três grandes temas que poderiam por si só funcionar como singles, este é um EP que se destaca, mas que perde na falta de articulação estilística entre os mesmos.

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