‘Muito Amadas’: a realidade social ignorada num país conservador

18 MARÇO, 2016 -

Estreou esta semana em Portugal o filme ‘Muito Amadas’, a mais recente longa-metragem do realizador marroquino Nabil Ayouch, distribuído pela Medeia Filmes e em exibição no Cinema Monumental, em Lisboa. À semelhança de ‘Les chevaux de Dieu’ e ‘Ali Zaoua, prince de la rue’, Much Loved carrega consigo um factor intrínseco de ambientação numa realidade local e cultural de Marrocos, país de origem do realizador que nos tenta, tal como nos seus filmes anteriores, transmitir um conteúdo num formato quase documental de uma realidade vivida neste país.

Não choca saber que o filme de Nabil Ayouch foi banido e por consequência banido de circulação em Marrocos, não sem antes haver ameaças contra o realizador e as protagonistas do mesmo. Falamos de um tema tabú, vivido off the record num país regido pelos chamados “códigos morais” que não compactuam com a forma de vida que o filme se presta a documentar. As três amigas que seguimos ao longo do filme ganham a vida prostituindo-se, vendendo o seu corpo.

Ao fim ao cabo o título ‘Much Loved’- em português ‘Muito Amadas’ –  refere-se sim aos diferentes e sucessivos “amores” (pagos) que existe de parte a parte entre as protagonistas e os seus clientes, nunca “muito” se refere ao grau de amor que recebem de qualquer um deles. Na realidade não são pagas para ser amadas, são pagas para amar. É esse o seu preço e o seu fado num país que as usa quando deseja e de seguida as nega nunca as aceitando a não ser à sua discrição de apetite momentâneo e puramente carnal.

É esse ambiente onde vive Noha, Randa e Soukaina. Mulheres como as outras cujas famílias são as primeiras a usarem-nas para o que precisam e a negar-lhes logo de seguida o afecto e amparo porque “os vizinhos falam”. Surge obviamente a pergunta “mas afinal quem é a tua filha?”, ela, a “prostituta”, ou os vizinhos? Em vão. A sociedade e os seus “códigos morais” (mais uma vez entre aspas) que permitem aceitar discricionariamente os benefícios de algo que no final se prestam a censurar.

Alguém as ama incondicionalmente. Said, o chauffer, surge no filme um pouco como a figura paternal e protectora que nenhuma delas tem. Ele está lá para elas invariavelmente, tal como elas se terão sempre umas às outras relembrando-nos que afinal sempre existem “valores morais” por aí.

Um filme crú que se presta a mostrar (é esse o poder do cinema) uma realidade que existe por mais negada que seja no país em questão. Um trabalho de campo de valor por parte do realizador que tentou conhecer (e dar a conhecer) a fundo esta forma de vida censurada transportando-a para uma narrativa dramática com momentos de humor que infelizmente se perde um pouco na sua parte final, sem perder qualquer beleza ou capacidade de crítica por isso.

 

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