‘Mr. Robot’: o que sabemos sobre a série

12 MAIO, 2016 -

Graças ao óptimo desempenho da 1ª temporada, que obteve excelentes críticas e uma excelente recepção por parte do público, a 2ª temporada foi naturalmente anunciada. Sandrine Holt e Michael Maize são novos nomes no elenco. A nova temporada estreia dia 13 de Julho.

O criador Sam Esmail vai dirigir os dez episódios da segunda temporada e por tudo isto, e muito mais, decidimos revisitar este trabalho do Jorge Lestre sobre a série Mr. Robot. Aqui fica:

“Modernity involves the emergence of a new and pervasive form of domination and stratification.”
Jean L. Cohen e Andrew Arato

Introdução

Elliot Alderson é um jovem hacker. Trabalha para a empresa de segurança digital AllSafe que, por sua vez, está encarregue de proteger corporações de grande calibre, entre as quais a dominante E Corp. Elliot é um indivíduo peculiar, refugia-se na morfina para conseguir encarar e aceitar minimamente a sociedade dos tempos que correm. Enquanto é um funcionário ativo durante o dia, durante a noite Elliot comporta-se como uma espécie de justiceiro, procurando expor aqueles que se escondem, os que abusam do poder, aqueles que resumidamente são a escória magnata da sociedade e cujas atrocidades não estão visíveis a olho nu. Nisto, o jovem é contactado por uma organização secreta hacktivista denominada fsociety, liderada pelo enigmático Mr. Robot. Este grupo pretende derrubar a E Corp, responsável por imensas crueldades que afetam o mundo, e a qual Elliot protege durante o seu horário de trabalho. Criada por Sam Esmail e interpretada pelo talentoso Rami Malek, Mr. Robot é uma série contemporânea com personagens profundas, narração na primeira pessoa e tonalidade negra. Com apenas uma temporada até ao momento, a série conseguiu estabelecer-se como o fenómeno televisivo de 2015, conquistando o coração de espectadores por todo o mundo e 2 Globos de Ouro. No resto do elenco encontra-se Christian Slater (interpretando o icónico Mr. Robot que deu origem ao título da série), Portia Doubleday, Martin Wallström, Carly Chaikin, BD Wong, entre outros. A pertinência da sua realização e argumento atual tornou-a num interessante exemplo de televisão, muito pela sua forte componente interventiva no meio social. Se pelo fascínio tecnológico e veracidade de conteúdo muitos vêm uma paixão nerd tornar-se uma forma de cultura e entretenimento, já outros apreciam o seu contexto social e a sua representação da psicologia humana. Há uma ideia interessante que acompanha o desenvolvimento desta série. Uma ideia contrastiva e ambígua que se atenua para destacar um tipo de entretenimento inteligente, onde a corrupção corporativa é combatida através de uma forma contemporânea de crime ligada à evolução tecnológica. Para entender bem estas noções e para se estar por dentro da temática é necessário situar Mr. Robot numa posição específica na cronologia.

Sociedade em Rede

No século XXI, a tecnologia sofreu um upgrade com o avanço da Internet. Este mecanismo permitiu que a humanidade se aproximasse de uma forma não presencial, que o mundo empresarial pudesse expandir o seu alcance e que a imprensa pudesse difundir ainda mais o seu trabalho. Em consequência, a sociedade torna-se dependente destes novos meios de comunicação, seja no contexto laboral, por puro lazer ou busca de informação. Desde que a rádio e a televisão entraram nas nossas vidas, alargando os horizontes do possível, criou-se uma maneira mais vasta de difundir informação, contribuindo para um certo crescimento intelectual da sociedade. Mas se, já no seu tempo, as opiniões críticas dividiam cépticos em relação aos seus benefícios é caso para afirmar que, com o desenvolvimento da Internet, estas questões tornam-se ainda mais importantes. A Internet tornou mais fácil a vida quotidiana do ser humano, fazer compras passou a ser possível online, transferir dinheiro por via eletrónica tornou-se um cliché, procurar formas de entretenimento pessoal transformou-se num hábito e a globalização da comunicação social expandiu para o que são agora as redes sociais. Para Manuel Castells:

“Sociedade em rede é, tal como a expressão indica, uma estrutura social construída em rede. Mas não qualquer tipo de rede, já que as redes sociais têm sido uma parte importante da vida social desde a origem da Humanidade. Estas redes sociais [de agora] caracterizam a organização social contemporânea e são redes de informação providenciadas por tecnologia microelectrónica.”

A explicação das relações pessoais no domínio informático acaba por não se limitar a um único fator. Se por um lado, através de redes sociais cibernéticas, o nosso leque de “amigos” aumenta porque temos uma ideia de que conhecemos o outro por algum encontro ocasional ou por breve memória dos traços físicos, isso não se torna uma afirmação de que conhecemos essa pessoa na sua totalidade, permitindo que a nossa informação pessoal seja partilhada com quem é alheio à nossa própria identidade e vice-versa. O conceito de “verdade” é também ambíguo no que toca à honestidade que é ilustrada nas publicações que são feitas nas mesmas. Esta evolução diga-se, brusca, no próprio conhecimento das redes sociais transpõe muitas vezes a má prática ou conduta de quem as utiliza. Não é uma falha tecnológica, mas sim uma lacuna moral no seu manuseamento. As conversas de café ou encontros entre amigos reduziram-se a frases textuais numa janela de chat informático. O ato de conhecer alguém pessoalmente foi substituído pela superficialidade de um simples “adicionar como amigo”; quem gostaria de mudar completamente de identidade tem agora a oportunidade certa para o fazer; quem possui problemas de integração social, tem uma aberta para criar uma persona completamente nova. As portas estão abertas a um infinito de opções.

O que começou por ser um meio rudimentar de nos darmos a conhecer na comunidade online – seja por uma tendência de moda que leva à adesão ou pela criação de uma necessidade inconsciente de combate ao anti-socialismo – tornou-se num mecanismo de partilha de informação pessoal. Da mesma forma que estes meios permitem o contacto com pessoas de todo o planeta, já as suas intenções derivam consoante a personalidade de cada um. É difícil definir até que ponto se torna benéfica esta forma de interação, muito porque ela acaba por não corresponder, de forma geral, à verdade do acontecimento, ao estímulo da presença, à importância do contacto com o outro. As relações humanas entram no domínio do virtual, onde não existem provas para avaliar a veracidade do que se vê ou lê, onde podemos disfarçar a nossa identidade, onde a intimidade passa de contacto físico a dado informático.

É aqui que Mr. Robot surge como uma representação impetuosa desta realidade informática, onde temos acesso às vidas pessoais de todos os que nos rodeiam, seja para observar o que andam a fazer, onde estão, com quem estão ou até mesmo na procura de um potencial parceiro: o chamado online dating. Num futuro aproximado ao que nos situamos agora, onde as redes sociais tornaramse veículos de entretenimento, de contacto, de conhecimento, de expansão de horizontes, um indivíduo descobre que elas podem ser utilizadas também como um meio de perseguição, de vício, ou até mesmo de violência. A mensagem social de Mr. Robot está afincadamente ligada a este desmascarar de quem se esconde por trás de um perfil online, deste universo irreal da vida que podemos fantasiar ao nosso gosto, deste carnaval de versões melhoradas de nós próprios. Inspirada na mensagem social de Fight Club, Mr. Robot bebe da sabedoria de David Fincher e adequa-a ao seu tempo, utilizando Elliot como um veículo de sensibilização para os malefícios do manuseamento da Internet.

Mas a representação das relações humanas não são o único foco de alcance do universo cibernético. Tanto as redes sociais, como os sites e outros recursos disponíveis na vasta comunidade cibernauta funcionam também como mecanismos que fomentam a difusão de artigos de informação, podem tornar-se num objeto propagandista de empresas e/ ou atuar como uma divulgação publicitária alargada do comércio. A crescente monopolização deste mundo não passa despercebida às grandes corporações, às entidades governamentais e à imprensa. A necessidade de controlo do que pode ser um objeto incontrolável tende a ser respondida com brevidade e, da mesma forma que o cidadão comum usufrui da nova tecnologia, também o governo a utiliza para o vigiar criando, inclusive, empresas ao combate da ilegalidade virtual.

Haver difusão de informação não é sinónimo de que esta seja de qualidade, bem como se tornou um exemplo de supremacia em relação aos restantes meios de comunicação com o avançar do tempo. Segundo o Dr. Daniel Proença de Carvalho, “a abundância de informação e de conhecimentos para a generalidade dos cidadãos, na prática do confronto pacífico de ideias, e na democratização da cultura, constituem aquisições incomensuráveis para os valores permanentes da liberdade, da dignidade dos cidadãos, da melhoria do Estado e do progresso económico e social.” Se, por um lado, esta descrição consolida as vantagens da utilização consciente dos meios de comunicação por parte de todos, por outro não justifica as intenções dos seus utilizadores. Enquanto a rádio e a televisão não promovem um contacto direto entre ouvinte e/ ou espectador com a entidade que se observa, já a Internet tornou este contacto mais próximo com o que se visualiza. As empresas aumentam o seu prestígio e alcance, a imprensa impulsiona o sensacionalismo e a sociedade vai observando com atenção todos estes avanços, levando à criação de uma “sociedade em rede”.

Se o progresso económico está intimamente ligado à evolução dos meios de comunicação, então também permite que o crime encontre uma nova forma de expansão. O capitalismo, o poder, o controlo, o voyeurismo online, a falsificação de dados e/ou informação, a pirataria informática, a corrupção, etc., tornam-se inquilinos destas redes. A difusão de informação e a quantidade de utilizadores de Internet crescem cada vez mais, evoluindo e conferindo ao termo “crime” uma característica particular de desenvolvimento progressivo.

Crime cibernético

Se no domínio social a Internet e, mais especificamente, as redes sociais, contribuíram para um facilitismo de contacto entre indivíduos da espécie humana, então, em consequência, na dimensão capitalista, o resultado consiste num crescimento abrupto na expansão do negócio das empresas e do comércio. Com isto, o risco de fraude e exposição aumenta e a partilha de dados pessoais torna-se menos segura.

Ao ser um hacker brilhante com um enorme sentido de justiça, Elliot combate o que considera ser uma forma de crime que a sociedade vulgar não capta ou não se apercebe, violando a privacidade de todos os que o rodeiam e potenciais alvos, para expor as verdades escondidas. A definição de hacker está intimamente ligada ao conceito de ciberpirata ou pirata informático: indivíduo que acede ilegalmente a sistemas computacionais de outros. Por norma, os piratas informáticos limitam-se a seguir o seu próprio ego, na medida em que escolhem um alvo específico e, através da transgressão do direito à privacidade, procuram obter algum resultado para proveito próprio. Considerando a evolução do conceito de hacker, há uma ramificação no contexto moral a que se atribui o termo, criando uma linha que delimita as condutas dos que são tecnologicamente mais sabedores. De acordo com Tim Jordan e Paul Taylor, nem todos os que operam no ramo do hackeamento podem ser considerados criminosos. A ética força a uma separação de conceitos: o de hacking e o de hacktivism. Esta distinção entre ambos está ligada pelas intenções e motivações de quem se esconde atrás de um computador. Os autores defendem que este movimento segue três correntes divergentes: o hacking, a sociedade de informação e a resistência do protesto social moderno que, juntos, determinam que ohacktivismo consiste num movimento popular de ação política das atividades de grupos [de pessoas] no ciberespaço. É uma combinação de protesto político através do hacking computacional. Os hacktivistas operam dentro do ciberespaço, lutando contra o que é tecnologicamente possível nas vidas virtuais, utilizando poderes que vão para além do ciberespaço para moldar a vida offline. Movimentos de protesto social e popular são parte integral das sociedades do século XXI. O hacktivismo é o ativismo por meio eletrónico.”

Aqui, o herói de Mr. Robot destaca-se com a conduta moralista que passa precisamente por este ativismo protestatório, por esta moldagem artificial da vida offline. Se, por um lado, a sua demanda pessoal e sentido de justiça o desgastam psicologicamente, por outro há uma grande necessidade de fazer o que é correto, de expor o que não se sabe, de trazer à superfície aqueles que se escondem. Ainda que guiada por motivos pessoais, a jornada de Elliot no combate à corrupção corporativa da E Corp e outros é notória. A série tem uma particularidade interessante na forma como distingue o Bem do Mal, o herói do vilão, o correto do errado.

A representação do Bem nunca é feita de forma linear nos episódios, muito porque o próprio protagonista não encaixa nos padrões normais associados com heroísmo. Elliot tem falhas morais complexas, fragilidades que desde o início dá a conhecer ao público, assentando numa ideologia de herói contemporâneo. Para o ator Rami Malek: “Há momentos de altruísmo mas também existem momentos de pura autocomplacência e, se ele reconhece isso ou não, é algo que irá perceber no futuro. Talvez isto irá mostrar uma faceta mais destrutiva de Elliot ou de alguém por quem nos podemos inspirar e imitar até certo ponto. Mas penso que o que é tão cativante acerca dele é que ele é muito humano. Nesta tentativa de ser super-humano é que nos apercebemos das suas imperfeições e da sua credibilidade. É um indivíduo complicado.”

No entanto, para contrapor este conceito de herói moralmente defeituoso, temos as figuras de Tyrell Wellick e da E Corp, que surgem numa representação vincada de todas as associações com o Mal, dito, moderno. Abusos de poder, corrupção, fraude fiscal são algumas das características que definem as formas de crime mais evidentes das grandes corporações. Para Elliot torna-se evidente que a E Corp é uma abreviatura de Evil Corp, e Tyrell, Vice-Presidente do Departamento Tecnológico da mesma, torna-se uma peça fulcral neste entendimento de que para alcançar fins, não se olha a meios. Da mesma forma que a personagem de Edward Norton em Fight Club tinha um alter-ego irreverente e rebelde com o nome de Tyler Durden (Brad Pitt), em Mr. Robot, Tyrell completa Elliot, num registo mais negro e profundo dos limites da loucura. Se Elliot é, por si só, um indivíduo com problemas de auto-estima e isolamento social, já Tyrell tem as suas convicções bem estabelecidas, uma autoestima elevada e objetivos definidos que aumentam a sua necessidade de ascensão. Ascensão essa que mistura os domínios do pessoal e profissional, espelhando as atitudes e comportamentos que vai tendo ao longo dos episódios.

Portanto, a personificação do Mal, do errado, do injusto, do vilão, do moralmente débil e condenável é representada pelo abuso de poder desta personagem e, inclusive, do local onde trabalha. Se, por meios sociais, isto não é percetível, cabe a Elliot expor e evidenciar estes colossos de ideais ambiciosos, de morais putrefactas, de intenções maliciosas. Há também uma justaposição de conceitos entre legal e ilegal através do elemento ficcional da série: o hacker. que é visto aos olhos da lei como criminoso, torna-se o herói precisamente por fazer aquilo que não é correto ou justo, mas que oferece ao público o entretenimento que ele exige e passa a mensagem de que a rebeldia é um meio de intervenção que leva a quebrar as regras que nos são impostas. Tyrell, ao contrário de Elliot, é um importante membro de uma empresa bem-sucedida, um empresário da arte de bem falar e das boas maneiras, um tirano que esconde as suas verdadeiras intenções de todos através de um sorriso, de um jeito simpático de conviver. Um que aparenta ser o rosto do correto, do moral, do justo e que vai revelando gradualmente a sua faceta verdadeira.

Considerações Finais

Mr. Robot revelou-se um exercício de televisão contemporâneo que resultou num fenómeno interessante de abordagem sociopolítica. Tornou-se um veículo de ambiguidade criminal, onde os malefícios da globalização e da revolução tecnológica se destacam, permitindo que a série adquirisse um caráter mais sólido e mais sombrio. A componente ética vem a realçar um combate evidente do crime corporativo, através da ilegalidade da pirataria informática. Em suma, a época em que se insere, muito aproximada à nossa própria realidade, enriqueceu a temática, tornando-a no acontecimento televisivo de 2015.

Texto de Jorge Lestre

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