Moullinex: “A criação de uma utopia é um ato político”

20 OUTUBRO, 2017 -

Uma Europa em crise, um massacre numa discoteca gay, o acid house e Thatcher. Dançar é dançar, mas também é mais do que isso, grita “Hypersex”, o novo disco de Moullinex

A partir de “Hypersex”, o novo disco-manifesto, obra total, de Moullinex, qualquer conversa com Luís Clara Gomes corria o risco de ser menos sobre música do que sobre o resto. E o resto é o mundo, a história, o contexto, assim faz sentido quando se vê, como ele, a música por camadas. “Não quero que a minha música seja snob, detesto isso. Mas gosto que haja camadas.”

Como chegaste a este título, “Hypersex”?

Sou engenheiro informático, não era preciso ser [risos] mas há um background para o hipertexto, um sistema criado para ligar ideias, e pensei que seria uma boa metáfora pensar num sistema para ligar pessoas. O sexo é um sistema biológico para ligar pessoas. Temos um disco colaborativo, a pista de dança é o meio em que ele acontece, de que forma é que isto pode estar numa palavra? Foi isso.

E de onde veio a vontade – ou necessidade? – de explorares este universo neste momento?

Foi uma resposta a várias coisas. Foi uma altura em que estava muita coisa a acontecer, com a Discotexas e com uma série de projetos em que estava a trabalhar, sempre com pessoas diferentes, e mesmo no meio desse caos estava a conseguir fazer música e isso deixava-me muito contente. Externamente, o que aconteceu foi uma espécie de wake up call. Havia muita coisa que queria dizer. Politicamente, socialmente. Senti uma espécie de dever de o fazer como alguém que faz vida de fazer música de dança. Por uma série de pessoas e de movimentos que me permitiram fazer o que faço hoje, senti o dever de marcar esta mensagem de que a música de dança vai para lá de as pessoas dançarem. Que há um contexto social, um contexto histórico em que as coisas aconteceram. Às vezes precisamos de um subterfúgio para nos ligarmos a outras pessoas. Saímos à noite, vamos a uma festa, o que for, e procuramos contacto entre pessoas, uma coisa já tão rara hoje que temos a nossa vida quase toda digital.

E que tem de facto na pista de dança um dos seus últimos redutos.

É um dos poucos espaços que ainda resiste a essa lógica, em que não nos importamos de estar em contacto físico com seres humanos. Isso é uma coisa bonita, que deve ser celebrada. Além de que neste contexto as pessoas aceitam melhor as diferenças. Podemos vir de sítios diferentes, opções diferentes e continuamos a saber dançar todos uns com os outros. E estava a haver uma crise de refugiados na Europa, tinha sido o massacre de Orlando… Tudo isto me fez querer ter uma posição marcada sobre uma coisa que sempre senti, sempre defendi. Não tenho bandeiras, mas se houve alguma que carreguei foi esta, porque irrita-me muito às vezes ser confrontado com esta ideia de que a música de dança não vai para lá das playlists de Spotify para ires correr. Este acessório de lifestyle fazia-me muita confusão. Se não fosse o disco em Nova Iorque e a revolução sexual que daí veio, se não fosse o acid house em resposta à Margaret Thatcher, se não fossem uma série de movimentos sociais que surgiram na pista de dança se calhar o mundo era bastante mais cinzento.

Este é o teu projeto mais colaborativo. Não só pelos músicos, também por todos os artistas que trabalharam a parte plástica. Foi o tema que te fez ir ainda mais longe nisso desta vez?

No último disco fiz demasiadas coisas sozinho. Cheguei ao fim satisfeito com o resultado mas saiu-me a ferros. No processo de fazer e de tocar o disco anterior fui guardando num saquinho as ideias das pessoas com quem gostaria de trabalhar e depois foi só chegar e dizer “tenho esta ideia”, e foi tudo muito rápido. Foi o álbum em que pensei menos, o álbum que planeei menos, saiu tudo muito naturalmente. E fiquei muito feliz com o resultado. Porque todos tinham coisas para dizer sobre este assunto e cheguei ao fim com um resultado coerente. É muito difícil às vezes fazer um disco colaborativo que não soe a um pastiche ou a uma manta de retalhos. Talvez daí esta necessidade de começar, entregar para participar e depois fechar também eu.

Qual foi o caminho a partir desse statement que dizes que sentiste que precisavas de fazer até às músicas?

Antes de ter uma ideia do que estava a dizer, estava a fazer músicas. Só assim é que consigo. Primeiro preciso de olhar assim para 40 ideias e perceber o que tenho, o que é isto, resposta a quê, numa espécie de psicanálise. Depois é que percebo que sou eu a agir naturalmente e que o que está a faltar são pessoas, mais pessoas. A “Like A Man”, por exemplo, tem um bocado de testosterona a mais. E está aqui porque imaginei sempre uma voz feminina. Testosterona e voz feminina tem que ser a Marta Ren, foi sempre nesta lógica. Primeiro as ideias, depois o tema, depois as pessoas e depois o verniz.

Esse “verniz” leva-me a pensar nesse lado muito plástico que também tem o “Hypersex”, a chamar outras formas de expressão artística para lá da música, até na apresentação, no MAAT, numa espécie de concerto-instalação. Dentro de uma exposição, com performances… É assim que queres continuar a trabalhar?

Tendo em conta que foi o disco que fiz com mais naturalidade e com cujo resultado me identifico mais, sim. Isto já estava presente, estou sempre a fazer colaborações e comecei aliás na música a fazer remisturas. Acho que se calhar é mesmo este o meu meio.

No meio.

É no meio. No meio do turbilhão [risos], precisamente. Acho que também só consigo crescer na presença de pessoas cujo trabalho admiro muito e que puxam para cima – ou mandam para baixo quando preciso.

Foi muito assim esse concerto no MAAT, em que quase não te víamos.

É um disco colaborativo, não fazia sentido ser de outra forma. Em palco temos o problema de como é que conseguimos juntar estes cantores todos, estes convidados. Na digressão não vai ser possível, então tive esta ideia de o Ghethoven, um performer que admiro muito, personificar, associado a esta ideia de drag show, de mão dada com o disco e a música de dança desde o início, todos estes cantores em personagens diferentes num performer drag.

Este disco caminha muito nesse universo. Com ele, com a Aurora Pinho, performer trans que entra no videoclipe realizado pelo João Pedro Vale e o Nuno Alexandre Ferreira.

Ela começou o tratamento de hormonas no dia em que fez o vídeo, estava mesmo em transição. No outro dia perguntaram-me por que é que as questões de género estão tão presentes quando a temática é a pista de dança… As questões de género sempre estiveram presentes na música de dança. Há uma busca por um hedonismo, uma utopia, que não há no dia a dia, não há na rotina. Procuramos estes espaços, criamo-los, porque às vezes não nos identificamos com a realidade que temos no dia a dia. Há pessoas que passam a semana toda a sonhar com o que vão vestir na sexta-feira, com quem vão ser.

Nesse lugar que continua a ser dos poucos em que todos podemos ser tudo.

É efémero, é uma manifestação, mas podemos ser. A busca de uma realidade alternativa, a criação de uma utopia é um ato político. E isto está associado a tudo – questões raciais, questões de género, questões sociais – porque se estamos numa busca ativa por um escape estamos, primeiro a revoltar-nos contra a realidade e, segundo, a criar algo novo, algo melhor. Isso para mim é a génese do disco.

Nesse sentido e voltando a Orlando, como olhas para a realidade agora que o disco está cá fora?

Não melhorou muito. A verdade é que o Trump foi eleito – e tive que responder, fiz uma música [”Build a Wall?”] no dia em que o Trump foi eleito e pu-la cá fora. Acho que não estamos a caminhar para um lugar melhor. Estamos a conquistar muitas coisas ao mesmo tempo que retrocedemos em tantas outras. Agora podemos todos beijar-nos uns aos outros em público, mas já não gostamos de o fazer porque as pessoas olham de lado. Straight ou não.

O vão para casa?

Exatamente isso. Ainda no outro dia li um artigo de um influenciador qualquer a queixar-se disso. Pessoas a beijarem-se numa discoteca. E esta ideia de Europa com que a minha geração cresceu está a desvanecer-se. Eu tenho esperança… Vamos tocar a Barcelona no sábado, não há pior altura para ir tocar a Barcelona.

Ou melhor [risos].

Para mim melhor, porque tenho um feeling que as pessoas que vão lá estar vão sentir aquilo que temos para dizer. Tem sido assim. Não deixei de ir tocar à Turquia quando estava a haver atentados, achei que a partir do momento em que tenho uma coisa que tem que ser dita, as piores alturas são as melhores para a dizer. E por isso, sim, continuo a olhar para a frente a pensar que podemos ter um futuro melhor do que aquele que temos agora.

Entrevista de Cláudia Sobra / Parceria jornal i

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