‘Mother!’, alegorias, falsos ídolos e ousadia

25 SETEMBRO, 2017 -

Ponto prévio: Dificilmente haverá filme mais divisivo, surreal e rico em simbolismos a passar nas salas de cinema portuguesas este ano (sobretudo se Darren Aronofsky não lançar mais nenhum). As características já elencadas farão também com que haja um vasto leque de interpretações a fazer, além do aspecto (essencial) de que cada pessoa viverá o filme de forma diferente. sendo impossível absorver de igual forma uma obra com tanto objecto interpretativo. Cada pessoa é, logo à partida, influenciada na interpretação que faz pelas suas vivências e conhecimentos e é por isso que um filme é uma experiência tão pessoal, pois de cem pessoas que estejam numa sala, de lá sairão cem interpretações – o conceito de tábula rasa ganha, neste aspecto, especial importância. É precisamente aqui que se encontra a maior vitória de Aronofsky. A sua ousadia deve ser vista por si só como uma “pedra no charco” nos tempos que correm em que o conteúdo fácil e processado de lucro certo domina a indústria do Cinema (sobretudo o Made In America). mother! é outro tipo de filme. Trata-se de uma obra violenta, guerrilheira (e em guerra consigo mesma), com um cunho fortemente Buñuelesco no seu surrealismo tantas vezes cómico e capaz de nos fazer gargalhar em ocasiões de crescente constrangimento, revelando um traço da nossa personalidade que desconhecíamos (ou queríamos que não fosse conhecido por outros). mother! é um filme cruelmente cómico – com ênfase no “cruel” (e sádico).

Depois de Noah (filme de 2014), Aronofsky volta a tomar um caminho de conotações bíblicas, desta vez pegando na ideia de que Deus teria criado o Mundo por várias vezes, destruindo-o sempre que não concordava com o resultado final – como um pintor pega numa nova tela, ou um poeta numa folha em branco. É precisamente esse o papel de Javier Bardem, o de um poeta ao qual os créditos atribuem o nome Him – não por acaso. Tal como Deus, Bardem é aqui, portanto, também ele um criador, mas sob a pele de um poeta com bloqueio criativo e inseguro (como Deus nesta ideia de criações sucessivas – rascunhos de uma obra final). E “Him” (“Ele”) é também propositado. Apesar do conceito de que Deus não teria sexo, não podendo ser por isso considerado nem homem nem mulher, ao longo da História a sua imagem foi sempre conotada com a de alguém de sexo masculino. E “Him” tem tantas características de sexo masculino… Mas é aqui que entra Jennifer Lawrence, “mother” (que quando o filme começa, no entanto, não é mãe), uma espécie de outra metade de uma só pessoa (formando assim um ying e yang); o lado protector, cuidadoso e preocupado, a verdadeira fada do lar que trata de tudo e cuida das divisões da casa com a maior das dedicações, dando assim espaço para o marido criar, libertando-o para um trabalho intelectual, que o “exausta”, descreditando a mulher que passa o dia em tarefas “menores”, na sua visão.

Não haverá nada mais cruel que uma paixão louca não correspondida na plenitude. E é isso a que assistimos entre o casal. Ela, tremendamente mais nova que ele, é dedicada, carinhosa e apaixonada. Ele é frio, preocupado somente consigo. Haverá algo mais injusto ao outro que o ego masculino? Nunca satisfeito, nunca contente, sugador de tudo o que o alimentar. É também sobre este aspecto que se prende fortemente a temática do filme. Se por um lado temos a interpretação religiosa, do outro temos esta visão sobre os sexos e a presença masculina, austera e indiferente sobre a feminina.

Os contornos surrealistas ganham ainda mais fôlego com a chegada de Ed Harris e Michelle Pfeifer à casa (o Éden, paraíso do casal?) e consigo, a aura Polanski ganha contornos Cronenberg no último acto. Ele é um médico que decide procurar o seu poeta preferido antes de morrer e ela a sua mulher. Bardem não questiona Jennifer sobre se podem ficar hospedados na sua casa, ignorando por completo a vontade individual da sua mulher, como se a sua satisfação com a visita de fãs, para lhe afagarem o ego, fosse por si só uma óbvia razão para não existir uma opinião contrária à sua, revelando tanto egoísmo cego e uma visão tão concentrada no “eu” que chega a ser ridículo (no sentido cómico) a forma como a personagem de Jennifer é tratada por todos os que com ela se cruzam. Os novos inquilinos não fogem a essa regra. Ed Harris fuma constantemente pela casa apesar dos apelos de Jennifer Lawrence em contrário, já Michelle Pfeifer insiste em entrar no escritório do poeta apesar de Jennifer o evitar a todo o custo. A sua personagem é calcada, pisada e ignorada em todo o seu ser numa torrente de situações que no final só nos dará para rir. O martírio a que Jennifer é colocada é ofegante e para essa sensação muito contribui a câmara do director de fotografia Matthew Libatique, usada aqui de forma ostensivamente intrusiva e claustrofóbica pela proximidade ao rosto dos actores.

Pelo meio, antes do descalabro, ainda mais simbolismos, como um sapo com o qual Jennifer se cruza, associado à fertilidade e à figura feminina e protecção do lar. Em vão. Uma zanga entre os irmãos Gleeson e o lançamento do poema de Bardem são os impulsionadores para uma recta final indescritível, por bons e maus sentidos. O poema, recebido pelas gentes como a palavra do Senhor (à porta de Bardem juntam-se dezenas e dezenas de pessoas à espera de o ouvir falar, como se de um profeta se tratasse – falso profeta e falso ídolo numa sequência de idolatria doente, pecaminosa e insana), irá catapultar uma série de eventos destrutivos, mas focados, sempre objectivos e longe de gratuitidade, na obra de Aronofsky. A natureza humana mais animalesca e primitiva e até um cenário de guerra serão alguns dos componentes que nos aparecerão pela frente numa última meia hora verdadeiramente louca e que nos rouba a respiração.

Um sacrifício (eucaristia?) levará ao fecho de um ciclo pelas chamas (“this world is going up in flames”, já diria Charles Bradley…) onde sempre estivemos durante o filme, numa casa que é também ela um Mundo e palco de tanto que se passa fora dela nos dias de hoje (referência ao actual estado do Mundo?) e com a qual se cria uma relação de simbiose orgânica. A casa como corpo e o corpo como casa (que parece ter um coração seu – “my heart is yours” de quem trata dessa casa com tanto amor e carinho?), mas sempre um corpo, como em Black Swan como espaço a mutações. Essas chamas despoletarão a loucura racional que há numa vingança e o filme terminará da forma que começou. O ciclo repete-se, a tela volta a ficar em branco e o diamante em bruto pode ser novamente lapidado – diamante que foi carvão resultante das chamas, da Ressurreição e também do recomeço. Aronofsky porventura mostra aqui toda a sua modéstia, também mantendo-se ele próprio insatisfeito, mesmo após o produto acabado. Todo o formato do filme é também uma metáfora enorme à criação na qual se inclui obviamente o seu realizador (criador).

mother! está longe de ser perfeito, e os pontos negativos estão logo no seu nascimento. Porventura Aronofsky quis demasiado que a sua obra fosse impactante e reaccionária, não sabendo dosear a agressividade na mensagem para alcançar o pretendido. Será o debate que o pós-visionamento irá criar nas nossas mentes e uma ânsia por descoberta de tudo aquilo a que acabámos de assistir na sala que compensarão as falhas de um final exagerado e, porque não dizê-lo, feio. De qualquer das formas é impossível ver mother! e a cabeça não ficar a tilintar de tanto conteúdo, e essa é, sem dúvida, a maior vitória deste filme, e a maior vitória de Aronofsky.

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