‘More Life’: A playlist de Drake entre os fãs e os artistas que apoia

24 MARÇO, 2017 -

O rapper canadiano Drake está na luz da ribalta há já pelo menos seis anos, desde o seu álbum de estreia Thank Me Later. O seu sucesso com as massas deve-se à capacidade que tem em fundir a música pop com o universo do hip-hop. Em termos de habilidade lírica, não é o mais estrondoso dos rappers actuais mas é um artista que se tem descoberto cada vez mais, aprofundando gradualmente a sua voz cantada e fundindo-a com as rimas egocêntricas, focadas no seu desalento e nas falsidades que surgem na sua vida.

As letras reflectem um homem de coração partido, que sofre, dotado de uma sensibilidade atípica no mundo do hip-hop. As batidas são atmosféricas, instrumentais ambiente que ditam uma certa emoção e integram elementos de outros géneros musicais como dancehall, pop e R&B. A produção característica e o som cada vez mais estabelecido de Drake é maioritariamente da responsabilidade de Noah “40” Shebib, o principal colaborador do rapper e o artista por trás do artista.

O ano passado Drake lançou Views, uma espécie de ode à sua cidade e a revelação do verdadeiro estado de espírito do artista. O álbum consiste num exigente conjunto de músicas que se repetem, perdem-se na sua semelhança e aborrecem na sua extensa e desnecessária duração de oitenta minutos. De forma geral é um projecto bem produzido, em que as batidas brilham mais do que as rimas de Drake, apesar de isso ser algo a que o artista já nos habituou. Passageiro é a palavra que melhor descreve Views, as músicas não deixam uma impressão duradoura. O único tema verdadeiramente prazeroso é “Hotline Bling” e saiu quase um ano antes do álbum, aparecendo como uma faixa bónus em Views.

Em 2017 chega-nos More Life, uma playlist. Esta designação faz sentido depois de ouvir o projecto: não é tão uniforme como um álbum, é mais uma colectânea de músicas com curadoria de Drake, definitivamente mais prazeroso que o seu projecto anterior. Neste caso, o formato playlist dá alguma legitimidade a (mais) um projecto extenso e com muito para digerir: não estando constrangido pelos limites normais de um álbum significa que há mais liberdade para agrupar músicas e juntar temas num conjunto em sintonia com a maneira como muita música é consumida nos dias que correm: pouca gente ouve álbuns, ouvem-se singles. Pouca gente se dá ao trabalho de explorar a carreira de um artista a fundo, preferem antes uma playlist com os melhores momentos.

Este tipo de abordagem também permite um projecto mais abrangente. Os convidados são muitos e há músicas que nem sequer contam com a participação de Drake. Em “Skepta Interlude” vemos Skepta a rasgar barras com o seu flow, acompanhado de um instrumental adequado ao género musical deste artista britânico e reforçando mais uma vez o empenho de Drake em mostrar ao mundo a música grime. Giggs, outro artista grime bem conhecido do público britânico, também deixa a sua marca em “No Long Talk” e em “KMT”. Em “4422” vemos Sampha com o seu bonito cantar acompanhar a produção “submersa” que caracteriza a música de Drake, num tema que não destoaria no seu novo projecto Process.

Nota-se também uma inclusão cada vez mais aparente de géneros musicais como dancehall e afrobeat na música de Drake. Depois de “One Dance” o ano passado, “Get It Together” pega num instrumental de Black Coffee, um proeminente produtor electrónico sul-africano, e com a cantora Jorja Smith ao leme cria um ambiente dançável e suave. “Passionfruit” é outro exemplo: tem uma grande batida a puxar para o R&B e a voz de Drake mistura-se com o ambiente que a rodeia, deslizando suavemente entre os vários elementos sonoros, bem disfarçada e complementada por este universo musical.

Este “piscar de olhos” à sonoridade dos trópicos está espalhado um pouco por todo o álbum. “Blem” também reflecte essa intenção de  Drake, usando a desculpa de estar sob o efeito de estupefacientes para ser honesto com a mulher que deseja. E finalmente, “Fake Love”, um dos triunfos desta playlist com uma batida claramente inspirada por “Hotline Bling”, junta os ritmos tropicais ao digital que reina no hip-hop actual, enquanto Drake fala firmemente sobre as falsas amizades e falsidades no geral, aliando a voz sofrida a um rap muito ao estilo do artista, meio cantado e meio declamado.

Mas o hip-hop americano continua a fazer parte da identidade de Drake: em “Portland” vemos o artista acompanhado pelo rapper Quavo (do grupo Migos) e Travis Scott. Os artistas discutem o seu sucesso acompanhados de uma batida trap e uma flauta cativante e viciante, que rapidamente se aloja na mente do ouvinte. “Ice Melts” conta com a bela participação de Young Thug muito ao seu estilo, misturando rap com canto, um tema alegre e jovial a lembrar “Broccoli” de D.R.A.M. com uma batida exageradamente esticada em certas alturas. “Free Smoke”, “Can’t Have Everything” e “Sacrifices” também reafirmam a mensagem trap, o estilo mais em vigor no hip-hop actual.

Drake volta a apostar num projecto extenso e de lenta digestão com músicas a mais. Mas a mudança de formato parece beneficiar o artista. A diferença está maioritariamente no nome mas talvez baste só isso: Views parece agora uma má memória, uma falta de inspiração esticada até ao seu limite. O próprio Drake admite isso em “Do Not Disturb”: “I was an angry yute when I was writin’ Views/ Saw a side of myself that I just never knew”. No final de “Can’t Have Everything” ouvimos a mãe de Drake visivelmente preocupada com o filho e com a sua atitude pessimista. Mas neste novo projecto parece ter encontrado a sua força outra vez e em More Life o rapper surge não só como intérprete mas como interlocutor entre os seus fãs e os vários artistas que apoia, estimulando a novidade e o aparecimento de música nova, de uma união entre géneros e pessoas. A playlist é simultaneamente um projecto de Drake e uma colectânea de sentimentos, emoções e músicas que o fazem sentir mais vivo e nos fazem sentir mais em sintonia com o gigante do pop.

Músicas preferidas: “Passionfruit”, “Skepta Interlude”, “Portland”, “Fake Love” e “Ice Melts”.

Músicas menos apelativas: “Madiba Riddim”, “Lose You”, “Since Way Back” e “Teenage Fever”.

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