Morabeza, a Festa do Livro na cidade da Praia, em Cabo Verde

14 NOVEMBRO, 2017 -

Na última semana, aconteceu na cidade da Praia, capital de Cabo Verde, a festa do livro de nome Morabeza, estreante no país. A programação, completa e diversificada, contou com formações para profissionais, visitas a escolas, lançamentos de livros, mesas de debate, uma sessão de poesia e até uma feira do livro.

Esta última, além de obras de escritores cabo-verdianos, livros infantis, dicionários Inglês-Crioulo, entre outros, oferecia uma selecção interessante de escritores portugueses, tais como Saramago, Eça de Queiroz, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia e os também convidados do festival Afonso Cruz e Valter Hugo Mãe.

Já nas mesas de debate, cada uma apelidada de uma música cabo-verdiana, discutiram-se temas quer concretos, quer metafísicos, como o panorama da literatura infanto-juvenil cabo-verdiana, o cruzamento sublime entre música e literatura, a arte de saber contar histórias, os poetas que são escolhidos pela poesia (e não o inverso), as dificuldades práticas que enfrenta a literatura de um país insular e o dever moral que o autor tem ou não para com as suas personagens no traçar do seu destino.

Foi num destes lugares privilegiados de discussão que se pôde ouvir o Ministro da Cultura Abraão Vicente (tentar) explicar o que é então isto de Morabeza, esse saber receber puro e desinteressado tão cabo-verdiano, esse amparo genuíno apesar de carências ou obstáculos, esse acolhimento fatalmente indizível, só percepcionado ao aterrar ou atracar  numa qualquer das nove ilhas habitadas ao largo do Atlântico.

Também com o Ministro, ainda houve espaço para debater uma das questões mais controversas do festival, que motivou sussuros na sala e salvas de palmas que entrecortaram o seu discurso – a declaração do Crioulo cabo-verdiano enquanto uma das línguas oficiais de Cabo Verde, a par do Português. Se por um lado tal poderia afastar irremediavelmente Cabo Verde dos restantes PALOP, por outro seria um acto simbólico de valorização do património do país que espelharia a real importância do por-enquanto-dialecto em detrimento da Língua Portuguesa, pelo menos para uma porcentagem mais que significativa dos cabo-verdianos.

Por fim, foram anunciadas algumas novidades promissoras para o panorama literário do arquipélago, como uma Feira do Livro já em Fevereiro (que contará com a presença de Mia Couto, que desta vez infelizmente cancelou a sua presença) e o desejo vincado do Ministro em renovar este Morabeza em futuras edições.

Texto e fotografias por Beatriz Leal.

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