‘Mindhunter’ retrata a mente de assassinos em série quando a criminologia estava ainda às escuras

31 OUTUBRO, 2017 -

Mindhunter é uma das mais recentes apostas fortes da Netflix, produzida e realizada, em parte, por David Fincher e explora a mente de assassinos em série num período em que a criminologia estava ainda às escuras neste tema. O interesse de Fincher em criminosos violentos não é novo, bastando lembrar filmes como Se7en ou Zodiac, mas nesta sua aventura episódica procura antes perceber os desvios psicológicos que podem estar na base da prática destes crimes, sem focar numa mente em particular.

Podemos dividir a série em fase teórica e em fase prática, com as duas a misturarem-se ao longo de 10 episódios. Na parte teórica, temos a vontade dos agentes do FBI Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany) de criar um perfil consistente de assassinos americanos através de pesquisa, estudos e, sobretudo, de entrevistas. Do lado prático, encontramos esta mesma unidade a dar suporte a casos locais, procurando colocar em acção a categorização que constitui parte do trabalho teórico.

A primeira fase é, definitivamente, a proposta mais original e interessante de Mindhunter. No primeiro episódio, Ford afirma que a questão não é só perceber porque é que o assassino o fez, mas também porque é que o fez de determinada forma. Nesta base, segue-se uma espécie de estudo sociológico junto de criminosos violentos, como é o caso de Ed Kemper (aqui interpretado por Cameron Britton), o primeiro dos entrevistados. Os casos ilustrados são reais e o modo como são apresentados não suavizam nenhum facto, optando antes por dissecar situações extremas praticadas, habitualmente ligadas a crimes violentos, abusos sexuais e desvios comportamentais.

Existe uma evolução notória nas personagens, influenciada pela exposição às histórias e comportamentos que são narrados pelos entrevistados. A naturalidade com que Ed Kemper descreve o modo como matou a mãe, mutilou-a post mortem e arrancou-lhe a cabeça do corpo para fazer sexo com ela tem efeitos potencialmente traumatizantes e não procura em nenhuma altura facilitar o processamento da informação, seja para os agentes Ford e Tench, ou mesmo para quem assiste de fora. O objectivo é a criação de perfis, procurando catalogar este tipo de assassinos e encontrar terminologia que seja útil também para prevenir futuros actos semelhantes.

Esta mutação das personagens, a par da investigação que estas levam a cabo, acaba por ser um dos pontos mais interessantes de Mindhunter. Perto do fecho da temporada, o chefe da unidade, Shepard (Cotter Smith), afirma que gostava de conseguir distinguir os seus agentes dos criminosos quando ouve as gravações das entrevistas realizadas. É a verbalização de algo que percebemos ao longo de todos os outros episódios, onde também acompanhamos um pouco da vida pessoal de Ford e Tench, que progressivamente se deixam mais afectar, de diferentes formas, pela realidade que estão a explorar.

Acompanhamos a criação de termos como “assassino em série”, que começam a ser associados, por exemplo, a traumas de infância ou dificuldades com relacionamentos amorosos ou familiares. Nos episódios iniciais, quando uma plateia é confrontada com a imagem de Charles Manson, imediatamente justifica as acções deste pela sua natureza maníaca, apontando facilmente que “nasceu mau”. Os estudos realizados procuram, por outro lado, encontrar a razão pela qual qualquer assassino se “tornou mau”, descartando a ideia de que é algo inevitável e imprevisível.

A segunda fase, mais prática, é aquela que acaba por ir de encontro a outras propostas já existentes em abundância na TV. Quando os agentes do FBI oferecem consultoria em casos locais de assassínios, entram num campo que já está coberto por séries como CSI e inúmeros clones que daí nasceram. Há algo de original, ainda assim, pelo facto de ser uma narrativa situada nos anos 70, mas os sucessivos questionários a suspeitos, conversas com locais e procura de novas provas que permitam avançar na investigação foram já vistos vezes sem conta no passado.

Mindhunter é uma das mais ricas propostas que a Netflix oferecer neste final de ano, aproveitando a vontade que não se esgota de David Fincher de explorar assassinos complexos. A evolução de conceitos e de personagens agarram-nos desde o primeiro episódio e deixam muito em aberto quando terminamos o último. A segunda temporada está desde já confirmada pela plataforma de streaming, depositando assim uma confiança justificada num projecto que se destaca dos demais do género.

Crítica escrita por Sandro Cantante

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