Mike El Nite: ‘O Justiceiro’ que já fazia falta

4 MAIO, 2016 -

Uma lufada de ar fresco no rap nacional, abriu-se o sarcófago do cheiro a mofo e naftalina de um género que raramente se reinventa neste país, fortemente padronizado pelo que se faz na América. “O Justiceiro é o álbum de estreia de Mike El Nite, uma viagem pelas memórias recônditas da televisão, dos videojogos, das vivências e adolescências. O seu sentido de humor arrojado, o boné brancnike e os óculos de ciclismo levam Mike El Nite a criar uma figura que não existia no meio nacional, marcando, deste modo, a diferença. O rapper subiu ao palco do Musicbox no sábado passado, acompanhado pelo seu produtor DWARF e o baterista Diogo Sousa. A apresentação de “O Justiceiro” contou ainda com a presença de ProfJam, Da Chick, L-Ali e Nofake. Não é a nossa praia, no entanto, aventuramo-nos pelos caminhos do rap e o primeiro longa-duração de Mike El Nite que não nos foi indiferente.

Os trabalhos anteriores do rapper de Telheiras já nos remetiam para imaginários pouco usuais e referidos no género. No seu segundo EP, “Vaporetto Titano”, já se notavam algumas referências que de alguma forma fazem de Mike El Nite um impulsionador do estilo trap em Portugal. Neste novo trabalho a evolução é significativa, nomeadamente, no que diz respeito à produção.

A música de Mike El Nite atravessa a geração primordial da nova tecnologia e do novo século, que vai desde o forte sentido de humor do rapper à crítica mordaz que faz à sociedade dos ecrãs. Acrescentado pelo excelente trabalho de produção de DWARF que ofereceu ritmos fortes e baixos musculados a cada música. Em palco funcionou ainda melhor com a presença de Diogo Sousa, o baterista mostrou-se altamente metódico, dando coração aos riffs lançados pelo produtor de “O Justiceiro”. 

Todo o imaginário do rapper transporta uma carga nostálgica, algo que é facilmente visível em faixas como “Horizontes” ou “Santa Maria”. A abertura do álbum leva-nos de volta a “Horizontes da Memória” programa televisivo apresentado pelo historiador José Hermano Saraiva na segunda metade da década de 90. A originalidade do rapper destaca-se em “Santa Maria, um mix do êxito Eu Sei Tu És” dos Santamaria, banda popular portuguesa que marcou uma geração, a tal que se revê em muitos versos ao longo do álbum.

Duas de hidrogénio, uma d’oxigénio”, a alusão à fórmula química dá o mote inicial a “Água Fria”, a música favorita de Mike El Nite neste álbum e que conta com a colaboração de ProfJam. Uma faixa longe dos truques e críticas básicas que são muito habituais no hip-hop. Ainda dentro de sonoridades mais pesadas, lentas e melancólicas, entra a malha “Drones que tem como convidado L-Ali. Uma faixa profunda, um abre olhos para uma sociedade vigiada e pouco vigilante, tudo isso nas entrelinhas de versos com fortes doses jocosas. Um pequeno destaque para L-Ali, o convidado desta faixa deposita um peso abismal em cada verso, com o seu registo lento e grave.

Xis, quadrado, triângulo, círculo”, ficou no ouvido e é para quem tem consolas a apanhar póo beat de “2Pleva-nos automaticamente para sonoridades 8-bit das consolas retro. Naquilo que pode ser uma analogia perfeita do que é o quotidiano e oconvívio em videojogo e um convite subtil para levar uma miúda lá a casa. O disco encerra com uma crítica destrutiva à justiça que não existe. “A Justa” acerta em todos os pontinhos fracos do funcionamento de um sistema judicial que “alguém vendou, alguém vendeu e depois alguém comprou”.

O Justiceiro” é um álbum para ouvir muitas vezes. Mike El Nite eleva-se e ocupa um lugar que há muito estava vago no meio do hip hop/rap nacional. Um estilo bem trabalhado pelo rapper e uma imagem consistente que contém mensagens fortes transmitidas de forma leviana. Nos tempos que correm a justiça “que nunca foi cega, pode muito bem colocar os óculos de ciclismo e fazer-se à estrada, ao som daquele que é certamente um dos melhores discos nacionais deste ano.

Podes fazer download gratuito de “O Justiceiro” na plataforma NOS Discos ou adquirir em formato físico.

Texto de João Horta

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