Michelangelo e os materiais que o esculpiram

17 FEVEREIRO, 2017 -

Michelangelo foi um dos mais incríveis artistas e um génio do Renascentismo, célebre pela sua contribuição generosa para a história da arte ocidental. Aquilo que nos leva a este grande artista não se fica só pela sua obra: fica, essencialmente, pela forma de como ele se expressou a si mesmo, dentro da sua obra.

Michelangelo Buonarroti nasceu em Caprese, Itália, no ano de 1475, estabelecendo-se em Roma e Florença, onde a maioria das suas obras foram desenvolvidas.

Inspirava-se na Antiguidade Clássica para criar as suas esculturas, mas foi na transição entre o Renascentismo e o Maneirismo que surgiu como artista. Tinha especial cuidado com a estética e com os ideais do Neoplatonismo, e guardava interesse profundo pela descoberta e representação da figura humana, em particular pelo nu masculino.

Apesar de ser afluente em diversas artes, como a pintura, a escultura e a arquitectura, recusava títulos como os de pintor, entre outros, e dizia-se escultor. Esculpia a pedra e, lentamente, a pedra também o esculpia a ele, com os leves traços da pessoa que era. Entre os materiais, como o cinzel, o martelo e a pedra, encontrava-se à vontade, desenvolvendo uma linguagem própria. 

Moisés (1515)

Esta paixão pela pedra, pelo mármore, surge num episódio triste da sua vida. Aos 6 anos de idade perde a mãe, pelo que, neste período, o pai contrata uma ama para cuidar dele e dos irmãos. Por pleno acaso, o pai e o marido da ama trabalhavam como cortadores de mármore. Michelangelo cresceu rodeado por um ambiente onde pôde desenvolver e experimentar diversas técnicas de escultura. Nada lhe era mais natural que a linguagem do cinzel e do martelo.

O seu pai nunca concordou com a decisão de o filho ser artista, mas foi nesta revolta que Michelangelo não questionou a sua paixão, mais do que consolidada, aprendendo rapidamente, até se tornar aprendiz no atelier de  pintura de Ghirlandaio.

Aprendeu as grandes técnicas de pintura e desenho neste atelier, mas sentia que a pintura era algo que o limitava. Procurava algo mais expressivo, visível, intemporal e monumental. Foi na escultura que encontrou esta paz e, mesmo tendo criado diversos trabalhos nas diferentes artes, foi à escultura a que dedicou o seu tempo.

Todos nós conhecemos as suas criações, uns melhor do que outros, e certamente já ouvimos falar dos frescos na Capela Sistina, ou das belas esculturas de “David” e “Pietà”. Mas o que realmente não sabemos é o quanto Michelangelo precisou de dar de si mesmo para que a sua obra lhe fosse superior, e quais os traços de carácter indispensáveis para que completasse tantas criações de arte com a aura que lhes conhecemos.

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The Creation of the Sun, Moon and Vegetation (1511)

Portanto, pode dizer-se que um artista não nasce só: tudo no seu crescimento contribui para determinados pontos particulares do seu trabalho, e as diferentes dimensões de si atingem e exploram determinados fins da sua produção artística.  Nesta perspectiva, tudo o que acontece social, emocional ou intelectualmente forma o artista e, posteriormente, a sua obra. 

Como pensamos e sentimos de inúmeras maneiras, vão surgindo também diferentes expressões de personalidade e, por isso, de arte. Michelangelo tem características sociais e intelectuais completamente diferentes das de, por exemplo, da Vinci, outro génio do Renascentismo. Estas diferenças de personalidade, de história e de bagagem emocional também se revelam nas suas criações.

Por esta razão, uma obra de arte não pode ser superior a outra, já que nos transmitem sensações, pensamentos e emoções diferentes. As criações de Michelangelo nunca perderam a sua genialidade: continuam a ser atemporais e são o expoente máximo do movimento artístico em que se expressa. 

Para que a sua obra fosse superior a si mesmo, Michelangelo teve de se dedicar verdadeiramente à sua paixão, mas também teve que limar alguns dos seus traços de personalidade, para que entrassem em sintonia com o seu propósito de vida. Teve de dar grande parte da sua vida em função da arte, da descoberta e da experimentação.

Toda a arte nas mãos de cada artista começa por ser abstracta, até que  um dia se torna linguagem concreta nas mãos do seu próprio artista. Para haver esta “concretude”, tem de haver persistência, habilidade, grande engenho e inteligência.

Michelangelo diz-se ser uma pessoa algo estranha, arrogante, que se afastava bastante das pessoas e da realidade que o rodeava, de modo a viver maioritariamente dentro de si e da sua arte. O seu perfeccionismo deixava-o horas, dias e meses a refazer e a repensar o que poderia não estar bem. Esta constante insatisfação por tudo fez com que se excedesse continuamente. Sempre teve uma postura firme e sólida em relação ao seu trabalho: nenhum pormenor da sua obra lhe era indiferente. Em tudo era rigoroso e exigente, o que, muitas vezes, era considerado equivocamente como insolência.

Angelo reggicandelabro

Angelo reggicandelabro (1495)

Um homem completamente imerso na sua arte, esquecendo-se até da sua existência humana. Chegava, por vezes, a ser apenas mãos, ligadas a um emocionado coração e a uma exigente cabeça. Esquecia-se de comer, dormir era para si perder tempo. Criar estava acima de tudo. Trabalhava sempre arduamente, porque, na verdade, encontrou a expressão de si mesmo no seu trabalho. Através da arte, conseguia mostrar as figuras que o inspiravam e, mais importante do que tudo, conseguia criar detalhes e emoções que não tinham sequer de existir na vida real.

Contudo, Michelangelo tinha perfeito controlo da realidade que o envolvia. Giovio descrevia-o, na biografia que realizou sobre o artista, como um homem rude, com falta de hábitos de higiene, absolutamente miserável. Era, por natureza, um homem só e incrivelmente melancólico. Para alguns, até bizarro. De tanto se concentrar em si para que se pudesse transportar directamente para os seus quadros e esculturas, o que lhe era exterior pouco ou nada lhe interessava. As pessoas que o rodeavam não lhe interessavam: o que sempre teve a sua atenção foram os mundos e realidades que conseguia erguer através da arte.

Michelangelo achava que o trabalho de um escultor passava por libertar a forma que naturalmente nascia com a pedra. Contava que as pedras tem uma escultura dentro de si. 453 anos após a sua morte, esta ideia continua a dar que pensar sobre as formas, as dimensões do ser.

Quando completamente imerso na arte, no mundo criador que do interior se alumia, o escultor deixa de ver a pedra e a pedra passa a esculpi-lo também. Nesta linha melancólica entre a obra e o artista, onde os limites são invisíveis (mas imagináveis), celebramos, hoje, a vida e a obra de Michelangelo, porque uma não existe sem a outra.

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