Michael Palin: ‘Adoro viajar, estou interessado em conhecer o resto do mundo’

5 JULHO, 2017 -

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É um dos quatro Monty Python, o grupo de comediantes que revolucionou o humor no Reino Unido. Quando o grupo se desintegrou, Michael Palin reinventou-se como apresentador de documentários de viagens da BBC. O b.i. conversou com o lendário ator e escritor, cujo livro Himalaias (ed. Bizâncio) acaba de ser publicado em Portugal.

Quando percebeu que viajar podia ser mais do que um passatempo, que poderia tornar-se uma profissão?

Só o percebi quando a BBC me perguntou se estava interessado em apresentar uma volta do mundo em 80 dias, cem anos depois do livro [de Júlio Verne], sem recorrer a aviões. Por alguma razão disse que sim. Poderia ter dito que não, como outros – eu não fui a primeira escolha. Na altura andava a fazer comédia, “Um Peixe chamado Vanda”, com o John Cleese, e apresentar um documentário de viagens não era uma decisão óbvia. Mas parecia uma ideia muito fresca. Não requeria grandes conhecimentos de política internacional ou nada desse género, só era preciso uma pessoa que aproveitasse a grande diversão, por isso disse ‘Sim, eu aceito’. Assim que começámos a viagem, foi muito difícil perceber qual era o meu papel, mas, comecei a encontrar pessoas no caminho, nas ruas, no comboio ou onde fosse, e a falar com elas, e a descobrir o que estavam a pensar. Quando aquilo terminou e foi tudo montado, revelou-se um sucesso muito maior do que alguma vez tínhamos sonhado. Penso que tivemos 12,1 milhões de espectadores a ver o regresso a Inglaterra. Por isso pensei, ‘Adoro viajar, estou interessado em conhecer o resto do mundo’. Foi assim que começou. Depois fizemos o “North Pole to South Pole” e aí estava sempre a dizer: ‘Esta viagem vai ser a última’. Mas cada uma foi um grande sucesso, os livros que saíram foram bestsellers, por isso continuei e acabámos por fazer nove séries.

Há uma altura, nestas viagens longas, em que pensa que gostaria de estar em casa, sentado no seu sofá, a ver televisão?

Houve muitas alturas em que desejei estar em casa. Porque tenho saudades da família, da minha mulher, e sinto falta da simplicidade da vida em casa. Mas a maior parte das vezes estamos em andamento e cada dia vemos alguma coisa espetacular, diferente e maravilhosa. A viagem em si nunca me aborreceu. Tornava-se cansativo, por vezes passava um dia em que não me sentia muito bem, mas a excitação de visitar sempre por novos países e a conhecer pessoas novas era mais do que suficiente para me fazer querer continuar. Nunca me passou pela cabeça desistir, pensar ‘isto não vai resultar’. Sentia sempre ‘Uau, sou um filho da mãe cheio de sorte!’. [risos]

As coisas por vezes correm mal ou está tudo tão bem planeado que não há margem para erros?

Podem correr muito mal. Houve uma viagem de comboio que demorou mais 13 horas do que o previsto, a viagem para o Mali partiu muitas, muitas horas atrasada. Mas tentamos usar as coisas que correm mal a nosso favor, no fundo trata-se de sermos espontâneos, ligeiros, não termos uma agenda muito rígida sermos capazes de incorporar o que vamos vendo.

Prepara as viagens ou tem quem o faça por si?

Temos uma excelente equipa. Temos um pequeno escritório em Londres, com três pessoas, e os outros cinco vamos em viagem. O realizador visita os países para onde vamos viajar com uma pessoa que procura os locais certos para filmar. Em certos países é difícil trabalhar, porque se tem frequentemente problemas com os vistos ou não se consegue entrar a menos que se conheça as pessoas certas. Para fazer os Himalaias, tivemos de ir à embaixada chinesa por várias vezes, para lhes garantir que estávamos a fazer apenas uma coisa sobre as maravilhas do Tibete e que não algo de teor político. O mais importante de tudo são as pessoas que estão no terreno, a que chamamos fixers, e eles podem fazer ou arruinar uma viagem.

O que leva sempre consigo?

A principal coisa é um caderno. Mantenho sempre um diário das viagens. Isso é vital para mim porque faço muitas observações enquanto viajo e essas observações constituem a base dos livros. Para mim é de uma importância crucial fazer apontamentos e garantir que o livro não se perde. Por isso os meus cadernos são muito resistentes, são feitos em Glasgow. Também tenho um gravador, de microcassete. As outras são uma lanterna, papel higiénico e um mapa, porque adoro mapas. Prefiro ver as coisas num bom mapa do que num smartphone.

Qual foi a experiência mais emocionante que viveu nos Himalaias?

O momento mais emocionante foi, de longe, quando estávamos a vir de carro de Katmandu, no Nepal, ao largo dos Himalaias, a caminho do planalto tibetano. Havia uma colina na berma da estrada e o condutor disse ‘Vou parar aqui, há uma vista que não podem perder’.Parámos e o cameraman foi à procura de um enquadramento. Eu subi essa colina suave e vi toda a cordilheira dos Himalaias. Foi de cortar a respiração. Por um estranho efeito ótico, parecia que estava a ver aquelas montanhas a partir de cima. Isso foi o momento mais extraordinário, mas houve muitos. Andei num desfiladeiro na China com um precipício de três mil metros para o rio Yangtze lá em baixo, um caminho muito estreito. Foi assustador, mas também foi uma das caminhadas mais extraordinárias e aventureiras que já fiz.

No episódio sobre o Tibete entrevistou o Dalai Lama, mas a conversa não foi exatamente como eu esperava. Também foi surpreendido?

Apanhei-o num dia muito ocupado. Ele foi muito simpático e mostrou que sabia alguma coisa sobre mim e o meu programa. Sabia que eu era um ator cómico, por isso contámos muitas piadas um ao outro. Mais tarde falámos mais sobre política e o seu posicionamento. Acho que passámos um belo bocado juntos. Na televisão é tudo tão rápido que só pudemos usar quatro ou cinco minutos desta longa entrevista com o Dalai Lama, por isso aproveitei o resto para o livro. É um homem muito humilde, com uma grande modéstia. Achei-o uma das pessoas mais inspiradoras com quem já me encontrei.

Há algum protocolo para cumprimentar o Dalai Lama ou simplesmente deram um aperto de mãos?

Em primeiro lugar, há tantas pessoas que o querem ver que tem de se reservar o lugar. Esperámos por ele numa divisão e ele veio pontualmente, apertou a mão a cada um dos membros da equipa, o que foi simpático. Foi tudo muito informal.

Costuma receber protestos por causa dos comentários humorísticos que por vezes faz em relação a alguns lugares que visita?

Nem por isso. Na Colômbia fizemos um episódio sobre uma das piores áreas do tráfico de droga, em Bogotá, um sítio hardcore. E houve pessoas que ficaram indignadas por só termos andado por zonas perigosas. Na realidade fizemos muito mais do que isso na Colômbia – também mostrámos as plantações de café, por exemplo. Ficaram incomodadas não com o humor, mas com o facto de mostrarmos o lado negro da cidade. Já na Europa, houve pessoas da embaixada da Macedónia que se queixaram de o país só ter aparecido durante 45 segundos [risos]. Na verdade foi muito mais do que isso, foi cerca de três minutos, mas sentiram-se ofendidos. Em relação ao humor, as pessoas parecem gostar. Londres é uma cidade muito cosmopolita e estou sempre a ser abordado por pessoas de diferentes nacionalidades – da Etiópia, de França – que veem o programa e me dizem que gostam de o facto de eu sorrir. Acho que elogiam mais do que criticam.

Bebe inspiração noutros viajantes-escritores, como Paul Theroux, Kapuscinski ou Bruce Chatwin? Tem algum favorito?

Todos os que referiu são escritores excecionais. Mas tento não ser influenciado pelo que outros viram ou descreveram. Quero que as minhas reações tenham frescura e espontaneidade. Isso é muito importante nos meus livros e séries: é uma abordagem muito pessoal, e penso que é isso que faz com que funcionem. Mas, como toda a gente, quando viajo gosto de ter ecos de outras pessoas sobre os lugares que vi. Jan Morris é uma escritora maravilhosa. Entrevistei-a pelo seu 90.º aniversário, em Outubro. Outro escritor de que gosto é Colin Thubron, e Kapuscinski é interessante, tem um tom filosófico sobre a condição do outro que é muito poderoso. Mas também vejo muitos excelentes jornalistas hoje a escrever sobre a Síria. Gosto de ler boas descrições do que se está a passar no mundo. Mantenho os meus olhos e os meus ouvidos abertos.

Mantém uma contabilidade de quantos quilómetros já viajou?

Estão sempre a perguntar-me isso. Não sei em quanto já vai, porque não conto, mas deve rondar o meio milhão de milhas [800 mil quilómetros]. Tudo comprimido em 28 anos de vida. E só comecei a viajar a sério quando estava na casa dos 40 anos. Muitas pessoas mais novas acham que têm de ver o mundo antes de estarem presas a um trabalho ou à família para o resto da vida e eu digo-lhes: ‘Não se preocupem. Podem viajar quando forem mais velhos’. E por vezes é a melhor altura para viajar, porque estamos mais descontraídos, temos um melhor conhecimento do mundo, alguma sabedoria que nos acompanha. Tenho muita sorte por ter tido essa oportunidade numa fase mais adiantada da vida.

Já esteve em Portugal?

Estive em Portugal muitas vezes. Nunca fiz um livro ou série sobre a Europa Ocidental. Fiz as aventuras de Hemingway, em que passei por Espanha e Itália, mas nunca filmei em Portugal. Estive sempre em férias.

Ainda há algum sítio que lhe falte visitar?

Gostava de ir à Ilha de Páscoa, no Pacífico, para ver as estátuas. E de fazer o caminho-de-ferro Amur-Baikal, na Rússia. Adorava ver esse lago que contém 20% da água doce do planeta. Mas também gostava de voltar a alguns sítios onde já estive. Vê-se sempre coisas novas. O perigo é movimentar-me demasiado depressa e as coisas tornarem-se um borrão. Detesto isso.

Entrevista de José Cabrita Saraiva, publicada no nosso parceiro jornal Sol

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