“Mete lá a geringonça na cabeça!”

5 SETEMBRO, 2017 -

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É pena que um país que perdeu o seu maior campeão ciclista, Joaquim Agostinho, na sequência de um traumatismo craniano resultante de uma queda quando conduzia sem capacete, ainda esteja tão alheio aos riscos que os ciclistas correm ao andarem de bicicleta sem a proteção adequada

Ao ver na Sábado, há escassos dias, várias fotografias de dois candidatos à Câmara Municipal de Lisboa, Assunção Cristas, do PP e Ricardo Robles, do BE a andarem de bicicleta e a referirem (e muito bem) porque preferem este meio de locomoção, reparei que nenhum deles usava capacete.

Há quase 20 anos, quando estava na DGS, fui responsável por um grupo de trabalho que tentou criar legislação que tornasse obrigatório o uso de capacete na via pública. Infelizmente, o lobby dos próprios ciclistas e alguns outros impediram que essa lei, a única que nos falta relativamente à segurança, andasse para a frente.

Pode argumentar-se que é uma opção pessoal e que o Estado não tem de legislar sobre o assunto. Talvez… mas quando há um problema evitável e não se tomam as medidas adequadas, talvez o contribuinte, através do Estado que formamos, tenha uma palavra a dizer, já sem falar do sofrimento, dos handicaps e das mortes.

Quem está na berlinda, é líder de opinião, e se faz fotografar assim, poderia (e deveria, estou em crer) dar o exemplo. Também descobri fotografias do atual primeiro-ministro a andar de bicicleta sem capacete, quando de uma apresentação da Volta a Portugal em 2011.

Se dos adultos podemos esperar tudo e exclamar “que se matem, se quiserem!”, já não será o mesmo quanto às crianças.

Andar de bicicleta é uma atividade que promove o desenvolvimento psicomotor e a interação da criança com o meio envolvente. Em Portugal há um escasso número de ciclovias, o que se repercute no piso impróprio para a condução de bicicleta e na não separação do restante tráfego e dos peões, embora em Lisboa (exemplo que conheço melhor) o esforço tenha sido assinalável e de louvar – mas mais ciclovias e sistemas de uso de bicicletas (começado em Aveiro há muitos anos) vai levar a que mais crianças e adolescentes andem de bicicleta. Ainda bem, por todos os motivos!

Todavia, Portugal tem as piores taxas de morte por acidentes com bicicletas na União Europeia pela fraca tradição de cultura de segurança e, estranhamente, por uma atitude de desdém relativamente ao uso de capacetes – caso contrário, os vários dirigentes políticos não “pedalariam sem cabeça”.

Todos os dias, milhares de pessoas de todas as idades utilizam bicicletas, seja para percursos de lazer, seja para deslocações relacionadas com as suas atividades e com o trabalho. Todos os dias, também, dezenas de ciclistas sofrem traumatismos, lesões e ferimentos graves, muitos deles com necessidade de internamento hospitalar, causando sequelas e até mesmo a morte. Quando se tem um acidente de bicicleta, como o condutor está preocupado em segurar o guiador, a queda faz-se para o lado, sobre o osso parietal, o osso mais fraco da cabeça (um pequeno tabique, na parte lateral do crânio) e atrás do qual passa a a artéria meníngea média, uma das mais irrigadas. Já pensaram o que seria atirar com um computador contra a parede? Pois o cérebro é um computador, mas mais frágil e sem peças sobressalentes…

Estima-se em milhares o número de acidentes com bicicletas, com vários óbitos. Segundo um estudo, apenas uma em cada trezentas vítimas que deram entrada nos hospitais usava capacete. Embora as lesões dos tecidos moles e músculo-esquelético sejam as mais comuns, os traumatismos cranianos eram os responsáveis por maior número de mortes e incapacidades permanentes.

A Ciência prova que quatro quintos das lesões cranianas e cerebrais, e dois-terços das lesões da face são evitáveis através do uso adequado de capacetes aprovados segundo as normas europeias. Todavia, mesmo com consenso sobre as vantagens da utilização dos capacetes de bicicleta, o número de ciclistas que o usam, designadamente crianças, é reduzidíssimo.

As estatísticas (e a realidade) confirmam a necessidade de fomentar a compra e o uso do capacete, como parte de um bloco de medidas necessárias para enraizar uma cultura de segurança em Portugal. “Pedalar com cabeça” talvez seja mais rentável do que arriscar-se a escavacar o “computador central” em qualquer lancil do passeio ou numa pedra da estrada… ou mesmo no embate com um automóvel.

Os capacetes de bicicleta desempenham várias funções, graças à estrutura e à substância absorvente do interior: reduzem a desaceleração do crânio, aumentam a área sobre a qual a força de impacto atua, atenuando-o, e evitam o impacto direto entre o crânio e o objeto em que embate. Os adaptadores interiores per¬mitem utilizar o mesmo capacete durante muitos anos, apesar do crescimento da cabeça e, claro, as cores, o design e outros acessórios são também pormenores importantes porque podem transformar o capacete numa coisa mais apelativa.

O uso de capacete de bicicleta não evita os acidentes, mas pode prevenir as suas consequências mais trágicas. Muito pouco se tem feito neste campo, em Portugal. Pais, professores, políticos, legisladores e muitos outros portugueses têm andado demasiado distantes deste problema, entretidos a discutir se “pró menino” ou “prá menina”. O que custava aos líderes políticos, também líderes de opinião, dar o exemplo? No tempo em que, na Suécia, o aleitamento materno estava em declínio, a Rainha fazia-se fotografar a dar de mamar aos seus bebés. Nas telenovelas brasileiras os protagonistas mais amados veiculam mensagens de saúde… custa assim tanto?

Na minha opinião, deixar uma criança andar de bicicleta sem capacete é uma forma de mau trato por exposição desnecessária a um perigo que pode trazer consequências graves para a criança, incluindo a morte. Quanto aos adultos, o problema é deles, mas creio ser demasiado estúpido multiplicar por cinco a probabilidade de morrer ou de ficar com uma deficiência física e intelectual grave quando de uma atividade tão nobre, salutar e ecológica como andar de bicicleta… acho eu, mas se calhar estou enganado…

PS: joelheiras e sobretudo cotoveleiras também são bem-vindas. Na queda lateral o cotovelo e o joelho batem com estrondo, estilhaçando-se. São das articulações mais complexas… e fazem muita falta…

Crónica escrita pelo Pediatra Mário Cordeiro / Parceria jornal i

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