Men Eater soltam os cães pela última vez

2 JUNHO, 2016 -

Iniciava-se o verão de 2007 e uma banda portuguesa que poucos conheciam abria o dia encabeçado pelos Metallica no Super Bock Super Rock. Essa banda, quer se queira ou não, marcou uma geração que esta sexta-feira se despede no Stairway Club em Cascais. Refiro-me exactamente aos Men Eater, banda portuguesa de culto que arriscou sonoridades pouco convencionais em Portugal. Uma banda que contribuiu para a acentuação da cultura underground e construiu uma legião de fãs considerável. Hoje, como fã e apreciador da banda, faço a minha despedida e devida homenagem aos Men Eater.

O cartão de apresentação foi, como não poderia deixar de ser, “Lisboa”, faixa icónica do primeiro álbum da banda. A partir daí os Men Eater tornaram-se na banda de referência nacional entre o meu grupo de amigos, marcou-nos e ainda hoje ouvimos, de certa forma, para alimentar a nostalgia.

Inicialmente a banda lançou-se com o EP homónimo, Sérgio dos Blacksunrise foi quem deu voz ao primeiro registo de estúdio da banda. A partir daí a banda viria ser liderada por Mike Ghost que com a saída de Sérgio assumiu também a posição de vocalista. A restante formação era composta por Carlos BB na bateria, Carlos Azeitona na segunda guitarra e João Jesus no baixo. Foram estes quatro que se lançaram para as aventuras que se seguiam, nomeadamente, os dois primeiros álbuns de estúdio: “Hellstone” e “Vendaval”.

Foi através de “Lisboa” que tomei contacto com os Men Eater e com o primeiro álbum “Hellstone”. A introdução deste disco através de “Revolver” rematava-nos logo para sonoridades pouco comuns no panorama musical mais pesado feito em Portugal. Marcado pelos compassos lentos e guitarras distorcidas, estávamos perante os primeiros que arriscaram sonoridades mais próximas do stoner e do sludge em solo nacional. No entanto, em malhas como “Black” ou “Drivedead” notam-se as influências de vertentes punk e hardcore, meios de onde advêm alguns dos membros de Men Eater. No meio do álbum está “Lisboa”, a única faixa em português e escrita por André Henriques dos Linda Martini. Os versos “Soltam os cães atrás de mim / Levo o peito cheio de ti” ficaram no ouvido e tornaram esta música numa espécie de hino obrigatório a ser tocado em todos os concertos da banda.

Men-Eater-9-615x344

Em 2009 seguiu-se “Vendaval” e a afirmação do quarteto como banda de referência no meio underground nacional. Embora com diferenças sonoras significativas em relação a “Hellstone”, o estilo e a sujidade das guitarras continuava a ser uma imagem de marca na sonoridade da banda. Deram a conhecer o álbum através de “First Season” que teve direito a videoclip. Logo após o lançamento de “Vendaval” dava-se a segunda cisão na banda, Carlos Azeitona e João Jesus abandonam. A tour europeia de apresentação do álbum, com os Sight & Sounds, segue com Gaza dos If Lucy Fell no baixo e Poli – irmão de Mike Ghost e vocalista dos Devil In Me – na guitarra.

Após a digressão europeia, os Men Eater retomam os concertos nacionais e Sega – baterista dos The Vicious Five – assume a guitarra, mantendo-se Gaza no baixo. É com estes dois elementos que Mike e BB seguem para estúdio e iniciam a produção de “Gold”, terceiro e último longa-duração da banda lisboeta.

“Gold” marca a etapa final dos Men Eater, neste álbum é claro que a banda envergou por caminhos mais experimentais, embora a identidade sonora não se tenha alterado. O som pesado que os caracteriza não se perdeu, as nuances de psicadelismo que acrescentaram assentaram perfeitamente. A fase experimental é mais notada na faixa “When Crimson Trips”, onde até há espaço para uma surpreendente linha de saxofone e em “4:44 AM” uma música que se deixa expandir e onde se chega a perder pelo meio de riffs sujos e lentos. Outro destaque está na produção que ficou encarregue a Chris Common dos These Arms Are Snakes.

Esta sexta-feira sobem ao palco, onde vão soltar os cães pela última vez, com a formação que originalmente produziu “Hellstone” e “Vendaval”. Chegou o tempo de se despedirem daqueles que os seguiram ao longo dos últimos dez anos. Foi uma viagem bonita, que terá, com certeza, um ponto final à altura. Este é o meu até sempre aos Men Eater.

Fotos de: Ruído Sonoro e laughter

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS