‘Memories Are Now’, de Jesca Hoop, é extravagante na simplicidade

15 FEVEREIRO, 2017 -

 

A estranheza e a maravilha coabitam, de mão dada, polvilhadas de ideias vibrantes e extravagantes. São fruto de um talento em bruto que se expressa sob diferentes formas a cada oportunidade. E parecem viver numa floresta.

Não é fácil descrever ‘Memories Are Now’, o quinto trabalho de estúdio a solo de Jesca Hoop, uma artista cuja carreira tem passado ao lado de muita gente. Há várias razões para este álbum não estar a passar tão despercebido à crítica e ao público. No ano passado, a vocalista e guitarrista de 41 anos lançou ‘Love Letter for Fire’, em colaboração com Sam Beam (conhecido pelo seu projecto Iron and Wine). Seguiu-se uma vasta digressão em solo americano e europeu, que trouxe visibilidade a Hoop. Além disso, este que agora é lançado é o primeiro álbum com o selo da conceituada editora indie Sub Pop, que parece estar a trazer um novo fôlego e reconhecimento à sua carreira.

A quem comparar Jesca Hoop? É difícil apresentar uma artista tão ecléctica. Se em ‘Cut Connection’ estamos diante de uma PJ Harvey, o desdobramento vocal recorda-nos Ibeyi, ou uma certa veia de Deradoorian. Mas a referência mais incontornável, pese embora, em termos de estrutura, que estejamos num campo longínquo, é Joanna Newsom – com uma apresentação bem mais simples, moderada, e eléctrica. Mas há uma mesma inocência aparente desarmada por letras conscientes, há a comum recolecção de um universo natural trazido até aos nossos ouvidos, sem recurso a pássaros de fundo (embora a terceira faixa me recorde o som de uma coruja). Há um fervilhar criativo a procurar formas de se expressar, a esbracejar e a experimentar.

O que ouvimos nestes quarenta minutos é uma montra graciosa e frenética de experiências confiantes, que se movimentam entre os campos do indie folk e do art pop, com espaço para outras misturas pelo meio. Muita da instrumentação é obra do colaborador Blake Mills, que, juntamente com Hoop, co-produziu o álbum; no seu currículo, Mills produziu artistas tão diversos quanto Sky Ferreira e John Legend. Também dessa multiplicidade de interesses resulta o cruzamento de géneros musicais, aqui muito explorado, numa produção polida. ‘Memories Are Now’ vai redefinindo a rota do princípio ao fim, passando por momentos cheios e caleidoscópicos (o final de ‘Cut Connection’) e desoladoramente vazios (a última, ‘The Coming’, é tão despida que chega a doer).

A voz de Hoop parece divertida e descomprometida em boa parte do álbum, como é bom exemplo a faixa ‘Animal Kingdom Chaotic’; mas também atinge instantes de reflexão muito comprometedores, que exigem confiança e entrega emocional. Entre os temas trazidos para cima da mesa, estão a relação da tecnologia com a nossa vida e uma espécie de futurismo pós-apocalíptico. Tudo isto é apresentado de uma forma simultaneamente graciosa e frenética, com cordas flutuantes e vozes desencontradas. A repetibilidade e circularidade de ‘The Lost Sky’ dão-lhe força, no discreto crescendo que acaba por não levantar voo para muito longe. ‘Pegasi’ é porventura a música mais bonita de todo o álbum, quer em termos da composição, quer da produção: destaca uma linha melódica que embala o ouvinte e o eleva acima de si próprio; somos foguetão delicadamente disparado ao ouvirmos a entoação da palavra supernova, em pleno refrão. Ora experimentem.

É o minimalismo explosivo que nos conquista em ‘Memories Are Now’. Resta esperar que a pegada artística de Jesca Hoop, íntima e impressionante, seja resgatada do lugar de culto a que tem estado relegada até agora. O brilho e força da execução destas canções assim o exigem.

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