Martin Scorsese lamenta cinema moderno

12 DEZEMBRO, 2016 -

Numa conferência de imprensa em Nova Iorque, destinada a promover o seu mais recente filme “Silence“, Martin Scorsese expressou o seu desagrado com o estado atual do panorama do cinema. “Existe uma saturação no nosso mundo e praticamente nada tem um significado claro. Por exemplo, as imagens estão em todo o lado.” O cineasta também criticou a perda de mística do seu ofício. “O cinema costumava ser encarado como um espaço ou mesmo como conteúdos televisivos. Não tenho visto muito dos novos nestes dois ou três anos. Parei de ver cinema porque as imagens não significam nada.

O realizador de vários êxitos da sétima arte, tais como “Raging Bull ou “Goodfellas“, voltou a frisar a opacidade de tudo aquilo que o cinema atual transmite. “Estamos completamente saturados com imagens que nada significam.” Para além da imagem, Martin Scorsese explorou também a banalidade da palavra: “As palavras nada mais significam, elas estão todas distorcidas e reviradas. Onde está o significado delas? Onde está a verdade que estas asseguram? Temos de nos despir disto. Tudo volta à questão que tinha no “Mean Streets”: como se vive uma boa vida? Uma vida que é boa pressupõe compaixão e respeito pelo próximo, tanto num mundo atual ou naquele em que cresci.

Estas críticas expressas por Scorsese já não são de agora. Estas foram também assinaladas numa carta que enviou em 2014 à sua filha Francesca. Entre outras questões, o novaiorquino debate-se também com as esperanças que tem para o cinema.

“Querida Francesca,

Escrevo-te esta carta sobre o futuro. Vejo-o através das lentes do meu mundo. Através das lentes do cinema, que tem sido o centro desse mundo.

Durante últimos anos, eu percebi que a ideia de cinema com a qual cresci, que está lá nos filmes que te mostrei desde que eras criança, e que estavam a fazer furor quando comecei a produzir filmes, está a chegar ao fim. Eu não me estou a referir aos filmes que já foram feitos. Estou-me a referir sim aos que ainda estão por vir.

Não quero soar desesperado. Não estou a escrever estas palavras de forma derrotista. Pelo contrário, acho que o futuro é brilhante.

Nós sempre soubemos que os filmes eram um negócio e que a arte do cinema era possível porque se alinha com condições de negócio. Nenhum de nós que começou nos anos 60 e 70 tinha alguma ilusão neste tópico. Nós sabíamos que nós teríamos que dar tudo para proteger o que amávamos. Nós também sabíamos que talvez teríamos de passar por alguns períodos difíceis. Suponho que percebemos, em algum nível, que viríamos a lidar com um tempo no qual qualquer tipo de inconveniente ou elemento imprevisível no processo de realização cinematográfica seria minimizado, talvez até eliminado. O elemento mais imprevisível? Cinema. Isto para além as pessoas que o fazem.

Eu não quero repetir tudo o que foi dito e escrito por tantos antes de mim, sobre todas as mudanças no negócio. Acredita que estou empolgado pelas exceções da tendência geral na realização do cinema – Wes Anderson, Richard Linklater, David Fincher, Alexander Payne, os irmãos Coen, James Gray e Paul Thomas Anderson estão todos a conseguir fazer filmes. O Paul não só fez The Master em 70mm, como ainda o distribuiu desta forma em algumas cidades. Qualquer um que se importa com cinema deveria estar agradecido por isso.

Sinto-me de igual forma comovido pelos artistas que estão a conseguir realizar os seus filmes de forma contínua através do mundo, tanto na França como na Coreia do Sul, na Inglaterra, no Japão, em África. Está a ficar cada vez mais difícil fazê-lo a tempo inteiro mas eles estão a conseguir.

No entanto, não acho que sou pessimista quando digo que a arte do cinema e do seu negócio estão agora numa bifurcação. O entretenimento audiovisual e aquilo o que nós conhecemos como cinema – imagens que se movimentam e que são concebidas por indivíduos – aparentam estar a apontar para direções diferentes. No futuro, provavelmente verás cada vez menoso que nós reconhecemos como cinema ou telas multiplex e cada vez mais salas pequenas, online, e, suponho, em espaços e circunstâncias que não consigo prever.

Então como será o futuro tão brilhante? Porque, pela primeira vez na história da forma da arte, os filmes poderão ser realmente feitos por muito pouco dinheiro. Isso era inédito quando eu crescia. Os filmes de orçamentos extremamente baixos sempre foram a exceção à regra. Agora é o contrário. Consegues imagens bonitas com câmaras acessíveis. Podes gravar som, para além de editar, misturar e corrigir cores em casa. Tudo isto aconteceu.

Todavia, e com toda a atenção para a evolução da produção cinematográfica e para os avanços na tecnologia que lideraram essa revolução ao nível da realização, existe uma coisa importante a ser lembrada: as ferramentas não fazem o filme, tu é que fazes o filme. É libertador pegar numa câmara e começar a filmar e juntar tudo com o Final Cut Pro. Fazer um filme –aquilo que precisas de fazer – é algo diferente. Não há atalhos.

Se o John Cassavetes, meu amigo e mentor, estivesse vivo hoje, ele certamente estaria a usar todos os equipamentos disponíveis. Porém, ele estaria a dizer as mesmas coisas que ele sempre dizia – necessitas de ser absolutamente dedicado ao trabalho, precisas de dar tudo de ti, precisas de proteger o eixo que te levou a fazer o filme. Precisas de protegê-lo com a vida. No passado, porque fazer filmes era tão caro, nós tínhamos de nos proteger contra a exaustão e a falta de compromisso. No futuro, terás de te precaver perante outra coisa: a tentação de ir com a maré e permitir que o filme se perca e se vá embora.

Não é apenas uma questão de cinema. Não há atalhos para nada. Não estou a dizer que tudo deve ser difícil. Estou somente a afirmar que a voz que te acende é a tua voz – essa é a luz interior, como os Quakers dizem.

Isso és tu. É essa é a verdade.

Com todo o meu amor,

Papá.”

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