Marguerite Duras, a voz do silêncio

2 MARÇO, 2017 -

Marguerite Duras foi um poço de imaginação, de ideias, de criatividade. Desse poço bem profundo, repleto de obras e de contribuições, a francesa manifestou-se com relevo na literatura, no teatro e no cinema. As regulares adaptações que as suas criações receberam tornaram evidente o papel de relevo assumido por Duras na cultura e no inconsciente coletivo dos seus compatriotas. Tudo isto foi resultado de uma vida bem ativa e conturbada que a autora teve, experienciando muito, e traduzindo essas vivências para uma qualidade literária inegável. Dessa forma, e sendo brindada com um Óscar em 1959 (pela autoria de “Hiroshima Mon Amour“), as glórias foram poucas para mensurar todo o impacto que Marguerite Duras teve nas mais diversas formas de expressão artística.

Marguerite Donnadieu nasceu a 4 de abril de 1914 na então Indochina (agora Vietname), numa fase em que a região era uma colónia francesa. O seu nascimento no Saigão proveio de um incentivo feito pelo governo gaulês para residentes no país emigrarem para essa zona asiática, de forma a consolidar a sua presença na Indochina. No entanto, o seu pai viria a morrer pouco tempo depois de lá terem chegado. Assim, Duras cresceu ao lado da sua mãe, professora de profissão, e com os seus dois irmãos. As condições nas quais viviam eram parcas, tornando-se deterioradas após a progenitora sair penalizada de um investimento numa propriedade no Cambodja. Toda esta fase mais difícil da sua vida teria um papel importante na condução narrativa e sentimental da sua obra, incluindo alegadas agressões que sofreu da sua mãe e do seu irmão, e uma relação agitada na adolescência com um filho de um mercador indochinês, facto que talvez tenha tido algumas repercussões na narrativa de que é composto “Hiroshima, Mon Amour”.

Ilustração de Marta Rodrigues / CCA

Foi com a idade de 17 anos que Marguerite emigrou para França, país de origem dos seus pais, e onde estudou matemática, tendo abandonado esta em detrimento do estudo de ciências políticas e de direito. Pouco depois de completar os estudos, tornou-se militante no Partido Comunista Francês, do qual foi expulsa em 1955, e passou a trabalhar no departamento governamental relativo à colónia da Indochina. Em tempos de guerra, fez parte do Governo de Vichy (implementado após a invasão Nazi ao território francês) como alocadora de papel às editoras de então, contactando de perto com o sistema de censura aí existente. No entanto, e de forma latente, fazia parte da Resistência Francesa que se viria a opor às forças nazis nesta fase conturbada da realidade nacional. O seu primeiro marido, de nome Robert Antelme e também autor e membro da resistência, foi vítima de uma emboscada — da qual Duras conseguiu sair incólume — e acabou deportado para o campo de concentração de Buchenwald em 1944, sobrevivendo por pouco e contando com a ajuda da sua esposa para o ajudar a reestabelecer-se. Tendo dado à luz um filho deste, que havia de morrer precocemente, envolveu-se com Dionys Mascolo, pensador comunista, com quem teve um outro filho. Estes tempos de guerra seriam relatados num livro datado de 1985, cujo título é “La Douleur“, na qual expõe o impacto negativo do conflito e da própria guerra na identidade individual e social e onde acaba por distorcer os eventuais heróis e vilões.

A sua tendência para a escrita começou a ganhar forma pouco tempo antes, em 1943, publicando o seu primeiro romance, um no qual as tensões sentidas num seio familiar ganham especial ênfase. De título “Les Impudents“, a autora decidiu assinar com o apelido “Duras”, sendo este a vila no sudoeste francês na qual a casa do seu pai se situava. Este seria o primeiro de um vasto repertório de peças, filmes, entrevistas, ensaios, pequenos contos de ficção e romances que partiriam da imaginação e da criação de Marguerite. Quanto a estes, destacam-se “Le Ravissement de Lol V. Stein” (1964), “L’Homme Assis Dans le Couloir” (1980) e “L’Amant” (1984). O primeiro deles perpassa pelo olhar de uma mulher que se envolve em diversas peripécias amorosas e sexuais, mesmo que casada e com família formada. Frustrada por uma desilusão amorosa nos seus tempos de jovem, acaba por se envolver com o marido da amiga que mais a consolou em relação às suas contrariedades sentimentais. O segundo é caraterizado por uma violência garrida e destemida, que segue o percurso de uma relação passional que se intromete com os instintos mais primitivos e animalescos que a humanidade possui, tratando-se de uma das obras que firma Duras como uma das melhores na exploração da literatura erótica. Quanto ao último do trio, e sendo este de cariz autobiográfico, descreve a sua relação em jovem com o filho do mercador, neste caso chinês, de 27 anos. A rapariga, com 15, entrega-se à autonomia que o mundo exige de si mesma (também aqui a mãe é vista como possessiva e materialista) e à paixão nutrida por um mais rico e mais velho homem, acabando este vínculo por se ver rompido pelo desagrado do pai deste. Este romance viria a resultar num prémio Goncourt, galardão atribuído em França a um autor de grande virtude imaginativa no género da prosa.

“Sou mais escritora do que vivente, que uma pessoa que vive. Naquilo que vivi, sou mais escritora do que alguém que vive. É assim que eu me vejo.”

Outra obra autobiográfica é “Une barrage contre le Pacifique” (1950), antecessora da supracitada e que conheceu várias adaptações cinematográficas. O delta de Mekong, no Vietname, volta a ser o pano de fundo da narrativa e expõe a difícil vida logística e material da família, para além dos caminhos mais ou menos transparentes que a mãe tenta descortinar para superar essa débil situação. Outra que antecede as acima mencionadas é “Moderato Cantabile” (1958), que se centra na vida de uma mulher e nas relações que tem com o filho, com o professor de piano deste e com um conhecido da classe operária com quem costuma conversar diariamente, com tudo a mudar mal assiste um homem a assassinar com um revólver a sua amante. Com isto, acabou associada ao movimento literário do “Nouveau Roman”, numa constante tentativa de experimentação de obra para obra, de romance para romance por parte do autor, proporcionando visões diferentes de realidades mais ou menos distintas. No fundo, tentar confrontar as personagens com o mundo e não o oposto. Também neste confronto revela rasgos existencialistas, problematizando a condição e a posição do protagonista perante o ambiente no qual está inserido e o mundo como um todo.

No campo do cinema, e para além das várias adaptações que os seus filmes conheceram, Duras teve autonomia como argumentista no filme “Hiroshima Mon Amour”, dirigido pelo seu compatriota Alain Resnais e que associa o Japão pós-Guerra, fustigado pelos ataques nucleares, a um casal franco-japonês, meditando este sobre a capacidade de perdoar e o valor da memória. Como realizadora, e já no ano de 1975, dirigiu “India Song“, protagonizado por um embaixador francês na Índia e pela sua esposa, cuja vida extraconjugal se revela promíscua, sendo sucedido por “Son nom de Venise dans Calcutta désert” (1976), este que aborda o sofrimento dos indianos e as suas implicações para os europeus. O seu cinema, à imagem da literatura da sua autoria, insiste em experimentar na sua construção artística, desta feita procurando diversos tons sonoros e a sua mistura, empregando o voiceover na estruturação da narrativa e justapondo o texto falado com cenários mais ou menos relacionados. Todavia, e apesar destas experiências no contexto do cinema, foi desproporcional o sucesso granjeado, louvando-se a artista como escritora e não tanto como realizadora de cinema.

Ilustração de Marta Rodrigues / CCA

Não obstante um enorme fulcro criativo, Marguerite Duras lutou contra o alcoolismo durante grande parte da sua vida e viria a ser vítima de um cancro no pescoço, partindo em Paris no dia 3 de março de 1996, com 81 anos. Mesmo assim, e em 1983, viria a receber o Grand Prix du Théâtre de l’Académie Française. Seria o culminar de uma vida muito agitada e conturbada mas que conquistou a eternidade e a celebridade a partir dos seus livros e dos seus contributos para além do compaginável. Aquilo que a autora sentiu durante a sua vida conhece repercussão nas suas obras e nos seus esforços criativos. Toda a destruição, todo o amor e toda a desvinculação da sociedade ganha fulgor nas palavras sentidas e remetidas para todos aqueles que, mais ou menos abonados pela sorte, sentem na pele ou admiram os seus feitos. O desejo, a solidão, a desilusão, o desamor e o ímpeto fundem-se numa obra rica e diversa, capaz de gerar tanto apaixonados como desencantados. Para ela, tornar o mundo suportável é exorcizar as obsessões e os fantasmas que acompanham a existência, procurando-os identificar no epicentro de uma explosão e de um palco onde predomina a violência e a perturbação moral e física. Toda uma vida escrita em livro e capaz de saltar para um palco, para um ecrã e para a própria vida. Aquilo que se lê é nada mais nada menos do que a vida em bruto. É esse dom da vivida representação que acompanha Marguerite Duras e o génio da sua criação.

“Escrever é também não falar. É calar-se. É gritar sem fazer ruído.”

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