Marcel Duchamp, 100 anos de provocação

27 AGOSTO, 2017 -

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Houve quem a considerasse «indecente», quem lhe chamasse «Buda da casa de banho» e até… quem lhe urinasse em cima. Em 1917 Marcel Duchamp provocou um terramoto no mundo da arte com Fonte. Poderá um urinol, fora de contexto, ser considerado belo?

O poeta surrealista André Breton considerava-o «o homem mais inteligente e (para muitos) o mais incómodo desta primeira metade do século XX». Já a colecionadora Peggy Guggenheim, no seu livro de memórias, acentuava outros atributos: «O Marcel era um homem misterioso. Não pintava desde 1911, desde os tempos de Nu Descendo a Escada, que o tinha tornado famoso. Agora apenas jogava xadrez […]. O Marcel era um bonito normando e parecia um cruzado. Todas as mulheres em Paris queriam dormir com ele. O seu vício privado era ter amantes feias. […] A certa altura até casou com uma herdeira hedionda só para agradar a Picabia [seu amigo]».

Marcel Duchamp foi artista, intelectual, jogador de xadrez, mulherengo, mestre da ironia e provocador-mor. Tinha apenas 26 anos quando o seu Nu Descendo as Escadas, n.º2 causou sensação no Armory Show, a primeira grande exposição de arte moderna em Nova Iorque. A pintura fora admitida no ano anterior no Salão dos Independentes, em Paris, mas a direção arrependeu-se e acabou por pedir a Duchamp para a retirar, o que deixou o autor indignado e profundamente desgostoso. Considerou esse gesto uma «traição», até porque o Salão dos Independentes surgira precisamente para dar voz aos artistas que não correspondiam ao cânone oficial. E decidiu, a partir de então, fazer obras ainda mais radicais. Em 1913 montou uma roda de bicicleta num banco. Em 1914 produziu o seu primeiro ready-made (uma peça já existente que, ao ser apropriada pelo artista, se tornava uma obra de arte): uma estrutura metálica para secar garrafas.

E em 1917, instalado em Nova Iorque há dois anos, foi ainda mais longe. Depois de um almoço com dois amigos, dirigiu-se a uma loja de materiais de casa de banho e escolheu um urinol. Assinou-o e datou-o, colocou seis dólares num envelope para pagar a inscrição e a anuidade e enviou tudo para a Sociedade dos Artistas Independentes. Segundo os estatutos da Sociedade, todas as obras recebidas teriam de ser aceites e expostas. Mas a comissão de diretores (de que Duchamp também fazia parte, por isso assinara a obra com um pseudónimo), decidiu abrir uma exceção. Um dos membros, sem saber quem a enviara, considerou a obra «indecente». O crítico e colecionador Walter Arensberg, amigo de Duchamp e um dos comensais no almoço que antecedera a aquisição do urinol, contrapôs que a candidatura estava toda em ordem. «Isso quer dizer que se alguém nos mandasse estrume de cavalo colado à tela também tínhamos de o aceitar?», questionou o membro indignado.

A resposta às acusações de que a peça foi objeto apareceu numa revista chamada Blind Man [Homem Cego]: «A Fonte do Sr. Mutt não é mais imoral, isso é absurdo, do que uma banheira. É um equipamento que se vê nas montras das lojas de canalizações. Se o Sr. Mutt a fez ou não com as próprias mãos não tem qualquer importância. Ele escolheu-a. Pegou num artigo vulgar, colocou-o de modo que a utilidade desapareceu sob o novo título e ponto de vista – criou um novo pensamento para aquele objeto».

«Atirei-lhes o urinol à cara como um desafio»

Durante toda a exposição – em que as obras estavam democraticamente dispostas por ordem alfabética do apelido do autor (uma sugestão de Duchamp) – Fonte permaneceu escondida atrás de uma divisória. Depois desapareceu. Apenas conhecemos o original por uma imagem feita pelo fotógrafo e galerista Alfred Stieglitz. «A fotografia do urinol é realmente uma maravilha – toda a gente que a vê a acha bonita – e é verdade – é mesmo», escreveu o fotógrafo. «Tem um certo ar oriental – um cruzamento entre um Buda e uma mulher velada». Uma opinião partilhada por Arensberg: «Liberta da sua função, foi revelada uma forma encantadora». Louise Norton, chamou-lhe simplesmente ‘Buda da casa de banho’.

Duchamp recusava no entanto liminarmente esta abordagem. Nunca foi sua intenção que quem o visse considerasse aquele pedaço de loiça sanitária fosse considerado ‘bonito’. «Quando descobri os ready-mades, pensei em desencorajar a estética… Atirei-lhes o secador de garrafas e o urinol à cara como um desafio, e agora admiram-nos pela sua beleza estética», lamentava. Para o crítico Arthur Danto: «Os objetos ready-made eram aproveitados por Duchamp pela sua irrelevância estética, e assim ele demonstrou que, se eles fossem arte e não fossem belos, a beleza não constituiria um atributo da arte».

«Muita da arte moderna é suposto ser divertida»

Se Picasso foi um gigante que produziu uma obra esmagadora, Duchamp foi o agitador que provocou um terramoto no conceito do que podia ser considerado arte e alargou os horizontes para as gerações futuras. Mostrou que para ser artista não era preciso ter um talento formidável, ‘bastava’ ter boas ideias.

Em 2004, um painel de 500 especialistas britânicos (críticos, historiadores da arte, galeristas, responsáveis de museus, colecionadores, artistas) consideraram a Fonte a obra mais influente do século XX, à frente das Demoiselles d’Avignon, de Picasso, a pintura que anunciou o cubismo, e da Marilyn, de Andy Warhol, a epítome da arte pop.

Com a Fonte, Duchamp posicionou o artista como uma espécie de Rei Midas, que transforma em ouro tudo aquilo em que toca. Mesmo os objetos mais vulgares. «Estava a chamar a atenção das pessoas», declarou o artista mais tarde, «para o facto de a arte ser uma miragem». Por outro lado, não há como negar a carga irónica de apresentar um urinol como obra de arte. «Quando cheguei à América as pessoas levavam a arte moderna muito a sério porque achavam que nos levávamos muito a sério. Uma grande parte da arte moderna é suposto ser divertida».

Urinar no urinol

E hoje, as ideias de Duchamp já terão sido assimiladas? Em 2006, numa exposição no Centro Pompidou, um homem atacou Fonte com um pequeno martelo. A obra (uma de oito réplicas feitas com a colaboração de Duchamp existentes, já que o original desapareceu) ficou apenas lascada. O autor do ataque, Pierre Pinnoncelli, ficou detido e teve de pagar uma indemnização pelos danos provocados.

Já em 1993, o mesmo Pinoncelli fora responsável por um ato de vandalismo semelhante. Numa exposição em Nîmes, devolvera o urinol à sua função primitiva, urinando-lhe para cima.

Mas, ao contrário do que se possa pensar, Pinoncelli não tem qualquer ódio de estimação por Duchamp. Pelo contrário, enquanto artista considera-se herdeiro do normando e diz que as suas ações servem apenas para restituir a vitalidade e o conteúdo polémico à peça icónica de Duchamp.

Italo Calvino definiu um clássico como «um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer». Cem anos depois da sua aparição, a Fonte continua a suscitar um volume de teorias, discussões e interpretações como talvez nenhuma outra obra de arte. Será um clássico heterodoxo, mas ainda assim um clássico de pleno direito.

Artigo escrito por José Cabrita Saraiva, publicado no nosso parceiro jornal i

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