Manoel de Oliveira: 1 ano depois ainda vamos morando nas suas casas

1 ABRIL, 2016 -

No ano passado, por esta altura, recebíamos a notícia de que um dos realizadores mais emblemáticos, ou se calhar o mais emblemático, da nossa praça havia falecido. Manoel Cândido Pinto de Oliveira viveu 106 anos e dedicou 88 anos ao cinema.

Aquando da sua morte, e por vontade própria do realizador, o filme Visita ou Memórias e Confissões só foi exibido após o seu falecimento. 33 anos depois de ter sido filmado, tinha então o cineasta 73 anos, foi exibido, primeiramente na sua cidade, no Porto, mais concretamente no Teatro Rivoli, para uma sala esgota por 1500 pessoas.

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( frame do filme Visita ou Memórias e Confissões, onde podemos ver a esposa do realizador, Maria Isabel, a quem o cineasta dedica o filme, “a realidade sem subterfúgios” )

Com pouco mais de uma hora e com diálogos escritos por Agustina Bessa-Luís, o filme é dedicado à mulher, Maria Isabel, “a realidade sem subterfúgios”, pessoa com quem Manoel de Oliveira viveu 75 anos da sua vida.

Nos seus filmes, Manoel de Oliveira recorria frequentemente ao elemento casa. Fê-lo também em Benilde, em O Passado e o Presente, em Francisca, em Os Canibais, em A Divina Comédia, em Vale Abraão, e em Visita ou Memórias e Confissões é retratada a sua casa, onde viveu 40 anos dos seus 106 anos. Em cada obra cinematográfica, há uma propriedade, há paredes e há salas. Todo um espaço físico que o realizador procurou explorar na grande tela, porque ver o exterior e o interior de uma casa é conhecer quem vive nela.

Portanto, um filme sobre a sua própria casa é algo de muito íntimo, como se filmasse o seu próprio espírito, o seu próprio corpo, através das paredes entre as quais viveu. Visita ou Memórias e Confissões é isso mesmo. É uma visita a si mesmo.

Melhor do que qualquer interpretação sobre o Visita ou Memórias e Confissões, que pudémos ver no ano passado, no Porto, são as palavras do próprio mestre. Deixamos-te assim este pequeno excerto do livro Conversas com Manoel de Oliveira, Antoine de Baecque e Jacques Parsi, escrito em Abril de 1994 após uma entrevista de 22 horas:

“Há uma grande diferença entre arquitectura e o cinema. A arquitectura não mexe, e o cinema, por vezes, mexe demasiado. Eis uma diferença: uma é fixa, o outro é dinâmico.

Penso em Jean-Luc Godard que ouvi um dia, ou então li algures, que dizia: “O cinema não é uma arte. O cinema não é a vida. Mas situa-se precisamente entre as duas”. Achei isto muito curioso porque o que ele diz situa-se justamente na linha das minhas reflexões sobre o cinema, do meu conhecimento, da minha viagem cinematográfica. Para mim, o que Godard disse a propósito do cinema pode, da mesma maneira, aplicar-se às casas. Não é, na verdade, uma arte, também não é só a vida, mas a vida está lá dentro. Estão, pois, entre uma coisa e outra. As casas recebem tão bem a vida como as artes (a pintura, a decoração, etc.). Há, por outro lado, na organização de uma casa, diferentes salas, desde as mais secretas, às mais íntimas, até às mais públicas ou sociais. Um filme, por sua vez, é um pouco assim, compartimentado pela planificação das cenas e das sequências.

Uma casa é uma relação íntima, pessoal onde se encontram as raízes. A casa que filmei em “Visita ou Memória e Confissões “ foi feita por mim. Dirigi-me a um arquitecto amigo, José Porto, que tinha estudado em França no tempo dos grandes arquitectos, Le Corbusier, Perret. Tinha uma formação muito boa. É ele que na mesma época, assina os cenários de Aniki-Bobó. Ele imaginou excelentes soluções para a colocação da câmara…quanto à casa, segui de perto o desenvolvimento do traçado, que foi recomeçado três vezes.

A minha casa é o lado imaterial. É uma maneira de fixar o espírito. Temos a sensação que isso ficará para sempre. Mas os filmes desaparecem. Tudo desaparece. Esta ideia é terrível. Tudo acaba. A matéria não tem importância… então, tudo se vai…A arte é uma coisa mundana; nela, não há santidade. É tudo vaidade. A vaidade acompanha sempre o Homem. Por vezes, estimula-o. A vaidade do bem é uma qualidade porque nos estimula para as coisas boas.

Claude escreveu no “Soulier de satin”, é a sombra-dupla que fala: “… o que existiu uma vez faz parte para sempre dos arquivos indestrutíveis”.

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