‘Macbeth’: A mais enigmática peça de William Shakespeare

5 JUNHO, 2017 -

Macbeth, obra de William Shakespeare, está em exibição no Teatro Nacional São João, no Porto. Entre o dia 1 e 22 de Junho, a cidade terá oportunidade de ver aquela que é considerada a mais enigmática tragédia do dramaturgo inglês.

Esta peça conta a história do general Macbeth que encontra três bruxas que lhe comunicam três profecias. Uma dessas profecias diz que ele será coroado rei da Escócia, despertando nele a ambição pelo lugar.

Entretanto, Macbeth informa sua esposa, Lady Macbeth, do seu encontro com elas. Perante isto, ela elabora um plano para assassinar Duncan, o actual rei.

Num primeiro momento, Macbeth questiona o regicídio planeado pela esposa, mas esta, ao pôr em causa a sua masculinidade, persuade-o a cometer o crime. Macbeth assassina Duncan e torna-se rei da Escócia. Lady Macbeth, encontrando os guardas de Duncan adormecidos, coloca-lhes punhais com sangue de forma a torná-los o bode expiatório do crime cometido pelo seu marido.

Contudo, Macduff, Lord de Fife, descobre o cadáver e desconfia de Macbeth, a partir do momento em que este mata os guardas de Duncan, de forma a que eles, já conscientes, não se pudessem defender das suspeitas que sobre eles recairiam.

Macbeth, perturbado com a situação, resolve consultar as bruxas. Estas fazem mais três profecias, sendo que duas delas são: por um lado, ter “cuidado com Macduff” e, por outro, que “ninguém gerado no ventre de uma mulher fará mal a Macbeth“.

Macbeth, ao ser alertado do perigo que constituía Macduff, resolve invadir o seu castelo. Macduff responde com outro ataque e a história termina com um confronto entre os dois, no qual é revelado que Macduff não foi gerado pelo ventre de sua mãe, mas rasgado do útero antes do tempo (nascido através de cesariana). A última profecia das bruxas é cumprida e Macbeth é morto por Macduff.

Em traços gerais, este é o enredo, mas, tratando-se de uma obra muito complexa, vai muito além da sua própria história, tendo suscitado, ao longo dos séculos, diferentes análises das mais diversas áreas das artes e do conhecimento.

Entre os variadíssimos modos de abordagem, podemos encontrar em Macbeth, desde uma reflexão em torno da ambição humana até um estudo pormenorizado das identidades masculina e feminina.

A peça começa por remeter-nos a uma indefinição de valores, para um equívoco entre o bem e o mal, entre o belo e o feio, entre o masculino e o feminino. Ao colocar em questão esta oposição de valores (razão da tragédia do casal Macbeth e do nosso interesse por ele), a peça ganha contornos altamente enigmáticos, mas simultaneamente profícuos, do ponto de vista da reflexão humana.

Digamos que, ao centrarmo-nos no casal protagonista, encontraremos uma representação de valores, de ordem cultural e biológica, que definem ambos os sexos tal qual como os conhecemos actualmente. Ser homem é o mesmo que ser violento, cruel e poderoso, enquanto ser mulher é sinónimo de castração, vulnerabilidade e fraqueza. Por mais errado e hipócrita que isso tenha sido no passado, por mais oculto e disfarçado que o seja no presente. Mas é com estes valores subjacentes que a peça é construída. E, porventura, a vida.

Outra ideia que perpassa a peça é a relação dos Homens com a ambição. Uma espécie de lei de vasos comunicantes preside à forma como o casal Macbeth lidará com este sentimento: no momento em que ele, Macbeth, se sente menos confiante e mais hesitante quanto ao futuro, é quando Lady Macbeth toma o controlo da situação e projecta o plano e persuade o marido para o mesmo; porém, à medida que a história se desenrola, verifica-se que, na ocasião em que os anseios são satisfeitos, Lady Macbeth se entrega ao remorso e perde a frieza, tornando-se mais humana e, por isso, mais fraca.

Para esta inesperada tristeza de Lady Macbeth, Freud, uma das grandes personalidades que se debruçaram sobre a obra, afirmou que ela constituía um desses exemplos dos que cedem ao atingir o êxito, após lutarem unicamente por ele com todas as suas forças.

Fotografias de João Tuna /TNSJ

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