Luísa Costa Gomes. Num tempo em que a literatura não importe, mais vale desaparecer

8 OUTUBRO, 2017 -

«A literatura não pode ser um catering, com indulgências ao gosto dos leitores», escreveu Luísa Costa Gomes em Ilusão (ou o que quiserem), e percebe-se como o seu percurso tem sido dos mais coerentes e significativos, permanecendo à margem das fantasias imbecis dos que chegam à literatura e querem é festa

Contista, romancista, dramaturga, guionista, cronista, tradutora, autora de librettos para ópera e o mais que o talento versátil permite, Luísa Costa Gomes (Lisboa, 1954) põe exigência em tudo quanto faz.

No estreito panorama da literatura actual, a autora de Olhos Verdes, a quem Óscar Lopes se referiu com acerto como «a nossa escritora mais versátil e mais finamente pós-moderna», tem sabido destacar-se por um diversificado e pessoalíssimo modo ficcional, dominado por um trabalho de escrita que articula, não raras vezes de forma paródica e provocatória, tradição literária e modernidade, e em cuja constituição entram, como tónicas, o cuidado construtivo, uma circunspecta vontade subversiva, a densidade filosófica, a tendência lúdica, um tom céptico, friamente irónico, um ágil registo estilístico, uma ironia reflexiva que por vezes se acerca dos registos da melancolia.

Com o romance Cláudio e Constantino (2014) – «novela rústica em paradoxos» lhe chamou a autora –, terá atingido Luísa Costa Gomes, licenciada em Filosofia pela Universidade de Lisboa, um ponto alto do seu percurso ficcional. Intelectualmente estimulante, este romance bem-humorado, vencedor da edição de 2015 do Grande Prémio de Literatura DST, centra-se nas aventuras de dois pequenos irmãos, à solta no mundo das ideias e dos conceitos, e progride em torno de dilemas lógicos, de alguns paradoxos clássicos da história da filosofia (o ovo de Colombo, o paradoxo da ficção, da democracia ou a velha questão do ovo e da galinha) e aporias que se sucedem numa escrita de rigor. O que Cláudio e Constantino revela também, para além de um talento literário que aqui se exibe na sua plenitude, é o gosto do risco e do desafio. Com os seus leitores, aliás, tem vindo a autora de Olhos Verdes (1994), romance sobre a influência dos media e o culto idolátrico da imagem, pelo qual recebeu o Prémio Máxima de Literatura, a desenvolver um jogo apostado em surpreender e em desconcertar.

A sua estreia literária ocorreu no limiar dos anos 80 com 13 Contos de Sobressalto  (1982), que constituiu um saudável abalo na ficção portuguesa, ainda muito presa aos protocolos do realismo social. Logo saudada pela crítica, esta colectânea surpreendia então pela capacidade renovadora – de temas, técnicas, estilos e estratégias discursivas, experimentadas a cada nova narrativa. Seguir-se-iam Arnheim & Désirée (1983) e O Gémeo Diferente (1984), lances de um itinerário inicialmente atraído pelas atmosferas do fantástico e do inquietante.

O seu primeiro romance, O Pequeno Mundo (1988), distinguido com o Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, logo dava sinais de querer escapar ao paradigma histórico então dominante, com enredo linear e escassa (ou nenhuma) inovação formal. O texto-advertência que lhe serve de limiar, recusando importante matéria nacional, não deixava lugar a dúvidas: «Leitor! Este livro não fala do 25 de Abril. Não se refere ao 11 de Março e está-se nas tintas para o 25 de Novembro. Pior, não menciona em lugar nenhum a guerra em África. Não reflecte sobre a nossa identidade cultural como povo, o nosso futuro como nação, o nosso lugar na comunidade europeia».

Com A Vida de Ramón (1991), o romance seguinte, que é a reconstituição ficcional da vida do filósofo e missionário maiorquino medieval Ramon Llull (século XIII) prossegue a autora de O Defunto Elegante (com Abel Barros Baptista, 1996) a via da diferenciação.

Após um hiato romanesco de dez anos, Luísa Costa Gomes regressou, em 2009, a este género literário com Ilusão (ou o que quiserem). E logo arrecadou mais um prémio: o Prémio Fernando Namora/Estoril Sol. Trata-se de uma obra com generosas doses de humor e provocação, em que as personagens principais, um actor de teatro semi-desempregado e uma professora de Português depressiva, vivem situações próximas do surreal e até do absurdo e em que se dilui a linha divisória entre realidade e ficção, numa sátira impiedosa ao triunfo do virtual e ao consumismo desenfreado.

Luísa Costa Gomes é também uma cultora assídua do conto, tendo publicado, em 2007, a última colectânea de narrativas breves, intitulada Setembro e outros contos, pela qual recebeu o Grande Prémio do Conto da Associação Portuguesa de Escritores

Ao teatro tem também dedicado a autora uma atenção persistente, área com uma forte preponderância na sua obra, pouco habitual na cena literária portuguesa contemporânea. As suas peças teatrais não deixam mal parados os altos créditos da ficcionista. Nomeiem-se Nunca Nada de Ninguém (1991), Clamor (1994, sobre textos do Padre António Vieira), O Céu de Sacadura (1998), O Último a Rir (escrito em 1995 e publicado no ano seguinte com o título Vingança de Antero ou Boda Deslumbrante em Duas Comédias).  A sua última peça, A Vida em Vénus (2008), integrou o Projecto PANOS, da Culturgest.

A exigência que se lhe reconhece reflectiu-se também no seu trabalho como directora da revista Ficções – revista de contos, uma publicação que acolheu autores já consagrados e abriu espaço a novos contistas portugueses e que certamente terá contribuindo para que este género, tantas vezes considerado menor, passasse a ter entre nós uma maior expressão editorial.

Isto e mais isto e mais isto (2000) é o título que reúne as crónicas de ironia e leveza aparentemente despreocupada que ao longo de dois anos a escritora escreveu nos jornais, primeiro para a revista de domingo do Público, depois para O Independente, entre 1998 e 1999.

Artigo escrito por Teresa Carvalho / Parceria jornal i

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