‘Lo chiamavano Jeeg Robot’: não estará o mundo cheio de heróis anónimos?

28 ABRIL, 2016 -

Cinema-verdade? Prefiro o cinema-mentira. A mentira é sempre mais interessante do que a verdade.

Federico Fellini

A marioneta presente no cartaz da 8½ Festa do Cinema Italiano, controlada pelo personagem principal do “Otto et mezzo”, somos nós, os espectadores. O bom cinema italiano é cheio de truques, o “cinema-mentira” como dizia Fellini, onde somos manipulados a trocar a nossa realidade e a do filme, no qual nos revemos e encontramos conforto, por existirem personagens que partilham os mesmos problemas que nós.

No passado dia 19 de Abril, foi exibido no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, o filme “Lo chiamavano Jeeg Robot”, que venceu 7 prémios nas categorias principais da Accademia del Cinema Italiano – Premi David di Donatello.

O filme já assumiu um estatuto de culto em Itália. Este leva o espectador a experimentar diferentes sentimentos. Começamos por ver um thriller, que faz várias pausas para a comédia, o que foi do agrado da sala, apesar de se ir aproximando lentamente do drama, que nunca abandona o protagonista. Esta é uma das fantasias, própria do “cinema-mentira”, que nos vai fazendo voar pelas suas personagens, de uma maneira muito entusiasmante.

O protagonista, Enzo, é um delinquente sem esperança na sociedade, viciado em iogurtes e filmes pornográficos, mora num bairro com desacatos constantes, na cidade de Roma. Numa situação in extremis, é obrigado a mergulhar num rio, onde entra em contacto com uma substância radioativa que o dota de super-poderes, ao nível da força física. Sem os efeitos especiais típicos dos americanos, o filme foca-se no lado humano das personagens, que se apaixonam, lutam para salvarem as suas vidas, vingam-se, perdem-se e, no final, o que sobra é a incapacidade de viver como se sonha. O vilão foi muito bem concebido. Este representa o desespero social de alguém que ambiciona fama e a popularidade a todo o custo.

Não estará o mundo cheio de heróis anónimos? Pessoas que se esforçam e vão salvando os outros com pequenos gestos.  A imagem que fica é uma excelente metáfora e mais uma prova da qualidade do cinema italiano, que merecia mais divulgação em Portugal. No final do filme, a sala não teve dúvidas e aplaudiu.

Texto de Pedro Fernandes

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