‘Lear’: a loucura e a maldade que se afundam em si mesmas

10 OUTUBRO, 2017 -

Não deixa de ser curioso o fascínio particular que se manifesta diante da oportunidade de assistirmos, ouvirmos ou lermos um clássico, de um qualquer cânone cultural. É explicável, contudo: uma tal obra carrega em si a responsabilidade de, por uma mistura de atributos e sorte, ter ajudado a pautar, em determinado momento, a consciência e o imaginário colectivo. Propondo novos valores ou ajudando a mantê-los vivos, surge como transversal à nossa história a partir de dado momento (desde há mais ou menos anos, com mais ou menos interregnos).

O Teatro Nacional D. Maria II parece vir a apostar, nos últimos tempos, nessa abordagem frontal aos clássicos, como fonte interpretativa da contemporaneidade. A permanência dos textos e da sua relevância, em plena era do descartável, é um sinal da reciclagem que tanto aprendemos a valorizar: reutilizamos, voltamos àquelas palavras, mas damos-lhes usos diferentes. Se As Bacantes foram objecto de uma adaptação livre de Marlene Monteiro Freitas – que apenas muito tangencialmente se ligava à obra à qual ia beber o título e o pretexto -, o Inferno de Dante foi interpretado a partir de uma dramaturgia mais convencional e seguindo o texto poético integral.

Lear, a produção dos Primeiros Sintomas com co-produção do TNDM II, encenada por Bruno Bravo, e em cena na sala Garret até ao próximo domingo 15 de Outubro, encontrar-se-á talvez no meio das duas abordagens. O início da nova temporada do teatro nacional vem confirmar este trilho pelos clássicos: a programação leva a cena, no primeiro trimestre, duas obras do mais importante dramaturgo inglês. Shakespeare, como uma referência anglo-saxónica que se torna universalmente relevante, é um desses autores que nos impõem respeito, e para os quais nos abalançamos com elevadas expectativas, de reciclagem de sentidos para a nossa vida. Talvez por isso, quando o pano abre, e uma luz azulada muito ténue ilumina determinadas secções do palco, nos sintamos à procura.

Lear é marcado por uma decisão que abre de imediato o leque de leituras: a personagem principal, o rei de idade avançada no limiar da loucura, é interpretada pela actriz Paula Só. Na sinopse do espectáculo, podemos ler: “Lear é o pai, a mãe, o rei, a rainha. O velho Ocidente e a velha Europa”. Ao longo de pouco mais de hora e meia de espectáculo, assistimos à instalação da decadência física e moral. Numa peça em que os poucos a quem ainda associamos uma certa ideia de bondade sucumbem como os restantes. Não admira que tenha sido um dos trabalhos mais incompreendidos de Shakespeare, no tempo da sua criação: a primeira impressão revela a exploração exaustiva de um caos interior que não leva a lado nenhum. É provável que as impressões seguintes sigam a mesma linha.

As poucas fugas cómicas, que aliviam a tensão sem deixar de estimular o intelecto, estão a cabo da personagem que era autorizada institucionalmente a poder ter um discurso subversivo na corte régia: o bobo. As suas deixas evidenciam ainda mais as contradições e fragilidades do poder de Lear: este, vítima da sua própria tempestuosidade e de uma série de más opções, vê-se envolvido numa espiral de dor e confusão alimentada pelas próprias filhas, personagens hipócritas, interesseiras, e igualmente perdidas. Assim como perdido fica o membro da corte que, cego a partir de determinado ponto, se deixa enganar pelo próprio filho que não revela a sua identidade.

O texto apresenta-se com a mesma densidade do original, mas ainda mais difícil de digerir. A cena é permeada por diálogos pré-gravados, pensamentos soltos, ou frases que não sabemos a que propósito surgem – uma opção que vem exacerbar ainda mais o carácter marcadamente psicológico do texto de Shakespeare que inspirou esta criação. Mas o resultado final, junto do espectador, será o mesmo: mergulhados na loucura de um panorama que não reconhecemos de imediato como o nosso, somos arrastados pelas vagas negras de um cenário que nunca chega realmente a iluminar-se. Ao sairmos da sala, sabemos que o que acabámos de ver não foi exactamente a realidade: mas também não era real o cavalo morto no chão, e nem por isso deixava de nos interpelar com a sua presença perturbadora. A corte escura e louca do rei Lear pode ser visitada até 15 de Outubro na sala Garret do TNDM II.

Fotografias de Filipe Ferreira / TNDM II

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