Lazy Eye Society: porque não deixar vir ao mundo o que o mundo quer de nós?

24 SETEMBRO, 2017 -

Os Lazy Eye Society têm berço em Coimbra e, provavelmente, pela lição de sonho e tradição, vão cumprindo uma espécie de destino que a aura conimbricense lhes propõe como capital da irreverência no processo de criação de arte. Chamemos-lhe fado, chamemos-lhe inspiração, é aqui que a banda se constrói através de uma nuance de influências que flutua entre o rock alternativo, com travos contínuos de hard rock, um certo grunge, pitadas relevantes de uma singularidade acústica e um tanto ou quanto de algo mais que o som por si. Pela ideia do que transmitem, LES rematam de forma vincada um certo intervencionismo social, quase reivindicativo, de uma forma de ser, ver, ouvir, sentir na sociedade e nas pessoas que a formam. Questionando-se: porque não deixar vir ao Mundo o que o Mundo quer de nós?

Abordando o que realmente importa: os LES lançam agora o seu primogénito, e homónimo “Lazy Eye Society”. Um EP em que se listam seis faixas, entre elas o single “Holygirl” que conta já com um video sugestivo e cru no YouTube. Faixa a faixa, o EP dos LES analisa-se pela convergência de notórias influências de Alice in Chains a Soundgarden, passando por Faith No More, entre outras correntes.

“Holygirl” surge como a transgressão distorcida de uma história comum desde o início dos dias. Amor, desilusão, autocomiseração – até aqui poderia ser um romance oitocentista… se não fosse, porém, algo maior: é uma epopeia em crescendo, embrenhada numa fina teia quase hardcore que cativa de forma arrepiante pela sensibilidade dos solos de guitarra e pelo trabalho matemático de um baixo que se eleva por galáxias distantes. É um trunfo que se joga, num jogo que agora começa. Vitória antecipada?

Valesse por knock-out a vitória do som sobre a apatia e estaríamos satisfeitos só pela primeira faixa. Porém, que caminho sinuoso é este? É o que indaga a segunda faixa, “If There Is a Road”. Abrindo com um som inerente à sua melancolia impulsiva, é um pulsar que surge como indicador dramático de uma suscetibilidade à mágoa de se estar só entre os demais. Situando-se por princípio de influência nos arquétipos harmoniosos embora desconcertantes de um grunge perdido no tempo, é uma faixa que fica a remoer na mente por gosto.

“Mad River” aborda o curso natural de algo que flui do peito de forma tão pura como um rio. Amor – chamemos-lhe – é algo que nos consola e afaga, como uma criança no terno conforto de um berço; mas também é algo que nos acorda e desperta, com todo o alarme e paz desavinda. Primando por um som melodioso e condescendente a início, abre as comportas a um tumulto consentido como quem abre os braços, sabendo que os poderá fechar de seguida com algo mais quente por perto. Bebe do saudosismo como temática e deixa uma brecha no final: que importa onde desagua o rio, se a foz poderá ser o recomeço de algo melhor?

A quarta faixa é “Gone”: em toques de balada, opta por um negrume que aclareia como quem acorda do pesadelo da ausência e da indiferença. A faixa mais pesarosa do registo deixaria Layne Staley orgulhoso pela influência que deixou em legado às vindouras gerações, esteja ele onde estiver.

Após se escutar o EP até aqui, poderia concluir-se que um dramatismo poético qualquer se abate sobre a criação artística que brota dos LES. Porém, repense-se: tocando no Homem e na sua capacidade solitária de reinvenção, “Crossing the Line” impulsiona enquanto motiva, sendo essa a sua característica mais vincada enquanto som predominantemente hard rock: “You have got to hold on/And don’t fall down/Don’t let anyone/Be your breakdown”.

Por último, em “Rise Again” dizem-se as últimas palavras num discurso conciso e recheado de alguma ira. A sonoridade desta derradeira luta pela lei do som passa rente à subliminar referência feita no título desta review. É a isto que estamos destinados -nós, alvos certeiros deste álbum – sermos algo mais que o suposto, crescendo pela força do choque da vida. Não podendo ignorá-la, nem ao seu elemento-surpresa. Restar-nos-á viver de acordo com a nossa consciência (re)nascendo todas as vezes que forem necessárias até descortinarmos o nosso caminho.

Por fortuita coincidência, somos contemporâneos aos LES. E, ouvindo-os, pode concluir-se: este EP é prova certa da influência que os guia mas não é um fundamento cego do som que emitem; a originalidade profética de alguns momentos deixa antever algo bom no horizonte do rock português; é de louvar o trabalho na produção e edição, visto que foi realizado e masterizado de forma totalmente independente. Apesar das somente seis faixas, algo marca a posição dos LES no panorama musical nacional que agora também será o seu. Será possível vê-los no Salão Brazil (Coimbra), a 27 de Setembro (quarta-feira). Até quarta, fiquemo-nos pelo Spotify e todas as outras plataformas de streaming.

Artigo escrito por Diogo Ramos Pires

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