Lançamento do nº7 da Apócrifa, uma revista de jovens escritores

10 MAIO, 2017 -

Próximo dia 12 de Maio terá lugar na Rua das Gaivotas 6 o lançamento da revista Apócrifa – PLEC número 7. Tendo sido fundada em 2014, a Apócrifa tem publicado maioritariamente poesia de jovens escritores. O seu número antológico foi apoiado pela Casa Fernando Pessoa, pela Fundação Cupertino de Miranda, pela AEFCSH – UNL, pela FCSH-UNL, pelo Centro Nacional de Cultura, pelo Fundo de Fomento Cultural do Ministério da Cultura e pela Gráfica 99 – Gabinete de Artes Gráficas.

Muito embora a sua circulação ter sido feita por circuitos de distribuição alternativos, com mais de 1000 exemplares vendidos e cinco números esgotados, a Apócrifa – PLEC tem firmado um espaço próprio na poesia portuguesa contemporânea; na formulação de João Barrento no prefácio do número antológico:

‘A poesia «apócrifa», que veio abrir algumas brechas no edifício algo desconjuntado da nossa poesia de hoje, com «as abóbadas da língua estalando» (António Albata), um outro «silêncio [que] escorre pelas paredes» (Beatriz de Almeida Rodrigues), apresenta-se aqui como um exorcismo do corpo próprio, porque outro não há para exorcisar, em exercícios que buscam o equilíbrio instável que nasce dos seus modos novos de «forjar mais desta beleza» – por exemplo a da imagem nua, preferida à metáfora rebuscada – «contra a gravidade do mundo» (como lemos num poema de André Tavares Marçal). Ou, como escreve ainda a Beatriz: «És um corpo de poeira / és um corpo / és». E quando suspende o verso ao dizer «és» deixou para trás nome, corpo, atributos. Ficou nua, pura existência. Há muito deste desnudamento nestes poemas onde se ouve um Eu que é muitas vezes já Outro… E perguntamo-nos: estaremos perante uma outra forma de poesia «política», como aquela, de inspiração pop (com ecos no título «Jeanne Hébuterne é um nome lindo»), ou à la Marcuse (nos longos poemas do desencanto do mundo, com a sua densidade de imagens, de Vasco Macedo) que em tempos se apresentou num Cartucho, amarrotada, encenando assim a sua «grande recusa»? E acrescenta:

‘Mas talvez o mais interessante nos apócrifos com nome desta Antologia Apócrifa é que tudo isto se situa nos antípodas das tradições mais comuns de alguma poesia portuguesa (incluindo a contemporânea), que ou é cegamente subjectiva, presa de um «narcisismo primário», ou tende a empolar um eu contestatário, rebelde com causas, sim, mas que se esgota, ainda hoje, numa irreverência as mais das vezes sem consequências (porque traz a irreverência a primeiro plano, a qualquer preço?). Aqui, porém, o acto poético parece ter consequências – que mais não seja, a de voltar a mostrar como a palavra pode amplificar sentidos para lá do Eu, como o mundo ganha contornos de coisa vivida e pensada com o corpo – o meu, que outro poderia ser? (já Manuel de Freitas escrevia no seu primeiro livro: «um poema, mesmo que seja insuflável, / nunca salvou ninguém do seu corpo. / E é do corpo só que se trata»). E prossegue clarificando o seu argumento ‘O «real» – a que não se «regressa», porque ele sempre esteve aí, diante de quem escreve com o mal-estar no mundo, indiferente e afectado por ele, transformando o poema numa «casa para morrer» (aos vinte anos!) ou no último refúgio de «quem esfrega da alma um eterno sarro» –, esse «real» esconde-se ou irrompe por detrás de uma linguagem mais elaborada e cheia de figuras do que aquela a que nos habituaram as gerações anteriores, entre «o regresso ao real» de Magalhães, e os «poetas sem qualidades» de Manuel de Freitas’. Contudo, ‘sem nenhuma intenção de dar dois passos atrás ou de renegar uma contemporaneidade que tant bien que mal é a sua, e a que não pode nem quer fugir. Muito pelo contrário: enfrenta-a como pode, com recurso a mitos universais ou pessoais, num gesto de saudável recusa que não é radicalmente niilista (mas também não melancólico, o de uma acédia sem consequências que já dominou a poesia portuguesa há umas décadas),  sabendo, porém, que não há presente sem passados – sejam eles os dos mitos a reinterpretar ou a abater, ou os dos poetas a lembrar, a assimilar, a continuar, Cesariny ou Herberto, Adília ou Al Berto ou os do Orpheu…’.

É de salientar, por fim, as declarações que João Barrento prestou ao Observador: ‘penso que, recentemente, há a redescoberta de uma certa fé na poesia aliada um olhar crítico e irreverente que muito me agrada e está acontecer com os poetas muito novos, na casa dos 20/30 anos. Entre eles destaco dois grupos: os criaturistas, Diogo Vaz Pinto, David Teles Pereira e Golgona Anghel ligados à revista Criatura que depois se transformou na editora Língua Morta. E os Apócrifos, um conjunto de poetas muito jovens ligados à revista Apócrifa, cuja primeira antologia vai sair em breve com prefácio meu’.

Esta leitura é corroborada pelo prefácio escrito no quinto número por Manuel Gusmão, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa:

‘Os poetas aqui reunidos parecem constituir alguns desenhos desse delta das tradições. Com isto quero começar por dizer que não há aqui abandono da modernidade, mas apenas uma continuidade mais vincada do que têm sido as coordenadas do lirismo internacionalmente generalizadas desde o romantismo, não entendido aqui como período histórico literário, mas no sentido transhistórico. Direi mais apenas que estes poetas não parecem fazer sua a atitude que alguns consideraram necessária de uma poesia sem qualidades. A continuidade das coordenadas do lirismo manifestam-se na forma de organizar as imagens, no recurso a figuras retóricas já experimentadas, na tessitura de figurações que não se esgotam nessas figuras.
Finalmente, nesta antologia de poemas encontramos aquilo que para alguns de nós é a indicação de que um poema é basicamente uma hipótese verbal inventada para nos dar a experimentar uma forma de mundo’.

Também o crítico António Carlos Cortez escreveu na edição de Abril do Jornal das Letras que o projecto literário da Apócrifa é ‘vivo e que, para lembrar o volume de crónicas de Drummond, traz consigo esse poder ultra-jovem que às coisas da cultura importa possuir’. Por outro lado, identifica uma ‘adesão que possamos naturalmente sentir (que) é genuína e questionante. Esta é, pois, uma revista que, nos seus cinco números de publicação, verdadeiramente nos provoca e genuinamente nos faz sentir que, no que à poesia portuguesa importa, há sinais de que esse terreno continua vivo. Constituindo-se, no plano mais geral da nossa empobrecida cultura portuguesa, como fértil perímetro de onde podem surgir possibilidades de sentido para um tempo, o nosso, e que estes jovens lêem com outras lentes’.

A par de uma secção de dispersos, encontrar-se- á neste novo número um conjunto de trabalhos que irão ser apresentados subordinados ao tema deste número, a saber, Dalila. Com design e ilustração de João Pedro Fonseca, esta edição conta com contributos de André Alves, Beatriz de Almeida Rodrigues, Emanuel Madalena, Inês Francisco Jacob, Marta Esteves, Nuno Mangas Viegas e Vasco Macedo. Ao lançamento em Lisboa acrescenta-se também um lançamento no Porto no próximo dia 18 de Maio, pelas 18h30, no Café Literário do Campo Alegre o lançamento da Apócrifa. O lançamento terá apresentação de Rui Manuel Amaral, leituras de Paula Ventura e Maria Celeste Pereira bem como de todos os autores presentes. As leituras serão acompanhadas por um live set de Voyager 2 – projecto de música eletrónica experimental da Alienação Records.

Lançamento da Apócrifa – PLEC nº7 em Lisboa:
Data: 12 de Maio, 2017
Local: Rua das Gaivotas 6
Evento no Facebook
Lançamento da Apócrifa – PLEC nº7 no Porto
Data: 18 de Maio, 2017
Local: Teatro Campo Alegre
Evento no Facebook

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