‘La loi du marché’: um retrato actual do mundo laboral

9 MAIO, 2016 -

O filme La loi du marché, ou em português A Lei do Mercado, conta-nos a história de um homem, como tantos outros, que procura emprego para poder sustentar a família. Será, certamente, um filme que passará ao lado de outros que, por virtudes associadas às suas divulgações, ganham outro realce na imprensa e no público. Não é uma história com heróis ou anti-heróis, com bons ou vilões, mas sim um retrato fiel do desemprego em idades críticas, em que ainda se é demasiado novo para se reformar e velho demais para arranjar emprego, uma máxima que é dita de boca em boca, por terras lusas, há já várias décadas. Daí que a temática do filme não seja nova, mas mais vale tarde do que nunca. E o assunto que retrata o filme é premente e sempre actual.

Thierry, nome do protagonista da história, está disposto a aceitar quase tudo para poder sustentar a sua família: um emprego com menor remuneração, descer na posição social que o anterior emprego lhe conferia, ouvir todo o tipo de críticas, desde as menos às mais destrutivas. Thierry, como nas palavras inspiradoras de Sérgio Godinho na sua música “O Velho Samurai”, é um estrangeiro na sua própria pátria que, no entanto, «entre o desdém e a lisonja sempre soube o que é que vale». E nem um «ai» ou grito são ouvidos, como nem uma lágrima é vista ao longo de todo o filme. Nem mesmo no funeral da sua colega de trabalho que se suicidou na superfície comercial onde ambos trabalhavam, depois de ter sido despedida por ter acumulado vales de desconto, ilegalmente.

Quem detecta situações ilegais que se passam com empregados que roubam à própria empresa, como de clientes que o fazem, é uma equipa de vigilantes, da qual faz parte Thierry.

Se é certo que roubar é um crime, menos certos são os motivos que podem justificar ou, pelo menos, atenuar tal acto. Há empregos, como este de vigiar colegas e clientes, que nos levam até dilemas éticos com mais facilidade do que outros. Os patrões, por assim dizer, tiveram que arranjar extensões de si mesmos, contratando pessoal que irá controlar outro pessoal, sob as suas indicações. E, assim, de acordo com os interesses da empresa, este pessoal contratado, consegue por via das provas, ter justificação para despedir os empregados.

O filme é um retrato seco e cru da realidade laboral, em que não há nem dramatismo, nem sentimentalismo. Mas, apenas homens e hierarquias, sujeitos, todos eles, à pressão de poderem perder o seu emprego, se não respeitarem “A Lei do Mercado”. Uma lei completamente cega que não integra os problemas, porque não quer saber, por exemplo, por que razão as pessoas roubam, muitas vezes, bens essenciais.

Tudo o resto são processos sofisticados de se destruírem vidas humanas e famílias, em nome dos números que agradam a quem chefia a empresa.

Como diria a poeta Sophia de Mello Breyner Andresen, no seu poema «Pranto pelo dia de hoje», que será, provavelmente, a melhor review que se pode fazer a este filme:

«Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas»

Texto de João Esteves

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