‘La La Land’, um musical dos anos 50 adaptado ao nosso tempo

28 JANEIRO, 2017 -

Os anos 50 são, ainda hoje, recordados com carinho pelos norte-americanos. A década que sucedeu à II Guerra Mundial trouxe consigo o que as duas anteriores nos tinham privado: crescimento, crença, motivos para sorrir. Não obstante uma perigosa ameaça atómica (não esquecer que se encetou, nesta fase, a “Guerra Fria”), os Estados Unidos da América transpiravam confiança, espelhada nos seus cidadãos, cujo novo estilo de vida, o american way of life, era invejado um pouco por todo o mundo.

Simultaneamente, vivam-se os derradeiros anos da “era de ouro” de Hollywood, período no qual o cinema se erigiu como “monumento” e arte maior, por mérito próprio. Estrelas de dimensão histórica como James Dean, Marlon Brando e Marilyn Monroe alcançaram o apogeu, enquanto um género, em específico, conquistou proeminência: o musical – e não surpreende. Na época, era precisamente o género que mais cativava os espectadores, capitalizando a sensação, marcada em todos eles, de que o “sonho” devia comandar a vida de todo e qualquer humano, de que, na “terra da oportunidades”, tudo seria possível. Obras como Serenata à Chuva (Singin’ in the Rain,de 1952), em que uma mera actriz de teatro se torna um fenómeno global graças à passagem do cinema mudo para o sonoro e “Gigi” (1958), onde um milionário se apaixona por uma jovem rapariga, cujo escalão social impediria, em condições normais, qualquer envolvimento, foram capazes de encriptar esta ideia, permitindo aos musicais dominarem as salas de cinema.

Nos dias que correm, porém, essa magia parece ter desaparecido – ou, pelo menos, adormecido. O número de musicais decaiu a pique nos últimos tempos, seguindo a tendência de uma população mais incrédula, realista, considerarão alguns, que afasta, por completo, qualquer similaridade entre os eventos na tela e no tempo real. Assim, não há como negar a importância do zeitgeist para o sucesso dos musicais dos anos 50 e 60, ou seja, atualmente enfrentariam problemas para replicar tal êxito. Também por isso, La La Land, o mais recente trabalho de Damien Chazelle, merece reconhecimento redobrado: o de tentar, numa inglória batalha contra a corrente, manter intacta a recordação de um tempo passado num ambiente novo. O facto de o conseguir é, por si só, sinal de “missão cumprida” e uma enorme lufada de ar fresco para um género que, convenhamos, nunca mais recuperará a predominância de outrora.

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Seguindo a profícua tradição do boy meets girl (numa tradução literal, rapaz conhece rapariga), esmiuçada em qualquer musical que se preze (além dos previamente mencionados, também West Side Story (1961), Les Parapluies de Cherbourg (1964) e Guys and Dolls (1955), entre tantos outros, seguem essa temática), La La Land consegue conservar a ideia fresca durante a sua duração. Passado maioritariamente em Los Angeles, o filme narra a história dos apaixonados Sebastian (interpretado por Ryan Gosling) e Mia (Emma Stone), ao longo de um ano. Ele, um pianista de jazz cujas fortes convicções, tradicionalistas, o impedem de almejar sucesso e um emprego estável; ela, aspirante a actriz que, apesar das constantes tentativas, fracassa em conquistar um papel. Juntos, apoiam-se, superam adversidades e, corrigindo defeitos (Mia fará florescer em Sebastian o objetivo de integrar uma banda séria, enquanto este a convence a apostar em escrever as suas próprias peças), criam as condições necessárias à felicidade – o “sonho” tornado realidade.

Porém, este sonho é meramente ilusório e frágil. Como em A Star is Born (1954), a fama e o sucesso, embora pretensões claras, terão efeitos nefastos em cada um deles: Mia não se consegue “lançar” no grande ecrã, ao passo que Sebastian tem cada vez menos tempos disponível para partilhar com a sua amada. Estará aqui, de resto, o grande ponto de rutura com os musicais de tempos passados: a “magia” está presente, como em poucos outros filmes saídos recentemente, mas ensombrada por inquietações e traços de uma sociedade incerta e desmistificada.

Como em Whiplash, longa-metragem prévia de Damien Chazelle, não há, em La La Land, espaço para dúvidas: o centro das atenções é rapidamente demarcado. A personagem de Miles Teller, secundado pelo fantástico J.K. Simmons (também presente neste filme, ainda que em funções muito reduzidas), domina o primeiro título, do mesmo modo que Ryan Gosling e Emma Stone o fazem, no segundo. Capazes de reproduzir uma excelente química, conseguem transformar todo esse tempo em algo imprescindível para o desenrolar da acção.

Contudo, sendo um musical, naturalmente a qualidade desta componente deve sobressair e a nova película de Chazelle não falha a esse nível. Do tema de abertura (“Another Day of Sun”) às músicas originais nomeadas ao Óscar (“The Fools Who Dream” e “City of Stars”), La La Land prima por um requinte irrepreensível, sendo que nem as melodias nem as coreografias são excessivas, mas agradáveis e pertinentes. Por outro lado, a presença do músico John Legend merece ser realçada. Embora não possua o arcaboiço para ser um Frank Sinatra (Guys and Dolls, novamente, onde actua com Marlon Brando) ou um Bing Crosby, assume um papel interessante, nomeadamente ao diversificar a toada habitual (algo em que vários filmes deste género pecam).

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Numa obra onde praticamente todos os envolvidos desempenharam funções meritórias, o argumentista e realizador Damien Chazelle deve, por legítimo direito, receber as principais ovações. Aos 32 anos, na sua terceira longa-metragem, alcança algo que muitos homónimos não conseguem em carreiras completas: uma excelente receção do filme, tanto por parte da crítica especializada, como por parte do público. Sim, podemos admitir que com Whiplash atingiu efeitos similares, mas a grandiosidade de La La Land não tem par. Os diálogos são inteligentes, variando entre os registos cómicos e dramáticos, mas sempre com eficiência assinalável; a realização, sublime e madura, surpreenderá alguns; as actuações, não sendo perfeitas, têm selo de qualidade, ao ponto dos dois actores principais terem sido nomeados aos prémios da Academia (já depois das vitórias nos Globos de Ouro, de ambos) e a montagem, que ficou novamente a cargo de Tom Cross, responsável em Whiplash, que tantas críticas positivas recebeu, não sucumbe às expectativas, criando uma experiência verdadeiramente cinematográfica.

Tendo-se recentemente tornado no filme, na história, com maior número de nomeações aos Óscares (a par de Titanic e All About Eve, com 14), apenas um cataclismo impedirá La La Land de dominar a 89ª edição destes. Além das excelentes indicações deixadas pelos Globos de Ouro (conquistou os 7 prémios para que estava nomeado), o facto da Academia favorecer, tradicionalmente, o género musical (ainda recentemente Chicago venceu o Óscar de Melhor Filme, numa das decisões mais contestadas deste século) abre excelentes perspectivas à mais recente criação de Chazelle.

Em suma, como já mencionado, La La Land procura, de todos os modos possíveis, encapsular a “era dourada” dos musicais, os anos 50, com as referências, brilhantes mas subtis, a clássicos do género (os supra mencionados Singin’ in the Rain e Les Parapluies de Cherbourg, sendo que a vivacidade de cores, em certo momento, remete para West Side Story, enquanto a constante menção de Paris nos aproxima de An American in Paris) e também a outras películas que, não tendo por base a música, marcaram aquele período, como Casablanca (de 1942) e, principalmente, Rebel Without a Cause (1955). Contudo, ciente de que o público de hoje é diferente daquele que afluiu, em massa, aos cinemas nessas décadas, Chazelle adaptou, a estes, a sua mais recente obra, transformando La La Land: Melodia de Amor num filme tipicamente dos anos 50, sim, mas filtrado para o século XXI.

Texto de António Hess

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