‘Knight of Cups’: um ensaio sobre a vida, onde todos se perdem

12 MARÇO, 2016 -

Knight of Cups é a mais recente obra do realizador Terrence Malick.

A culpa, a redenção, o perdão, a busca incessante e infrutífera por um qualquer sentido da vida misturada por uma constante falta de apelo pela mesma são as questões a que nem nós nem o filme acaba por responder. Todas estas interrogações são ainda assim vagamente salvas em raras redescobertas por parte da personagem principal através de um esgar de salvação ou de significado para a sua existência nas suas passageiras relações que mantém com as mulheres (as sublimes Cate Blanchet e Natalie Portman, entre outras) e estranhos com quem se cruza e onde se projecta. Uma projecção que nos faz lembrar por vezes a obra Zerkalo, ou ‘O Espelho’ de outro dos grandes realizadores, Andrei Tarkovsky.

Um realizador é por vezes um maestro e em Knight Of Cups isso mais do que nunca é demonstrado, mas de forma sui generis. Repudiando os maestros que com movimentos bruscos guiam de forma vigorosa as suas orquestras, ou até os que de gestos mais subtis o fazem, Terrence Malick dá o contexto e deixa a “música” fluir negando qualquer concepção a priori do que deverá resultar a cena em questão dando total liberdade aos seus intérpretes.

Será sempre curto qualquer realçar à prestação que Christian Bale merece. Um dos melhores actores da sua geração imerge aqui com o apoio do experimentalismo malickiano numa aventura em que poucos actores encaixariam tão bem (vêm-nos à cabeça os também adeptos de method acting Daniel Day Lewis, Leonardo Di Caprio ou Jake Gyllenhaal). Uma aventura que é abordar a rodagem de um filme sem qualquer guião, apenas com noções sobre a estrutura psicológica e sentimental da sua personagem e uma liberdade para se reinventar enquanto camaleão da interpretação que é. Estamos a falar de um dos actores que mais se presta a entrar nas personagens em que se torna.

As festas, as conversas de ocasião, a decadência e o falso glamour em forma de insurreição contra o produto típico formatado por Hollywood, a indústria do “fantástico” a que Malick se nega aqui a prestar mais uma vez vassalagem, antes pelo contrário.

A vida é aqui demonstrada no seu mais puro realismo como apenas um conjunto de ocasiões afectadas pelas nossas vivências pessoais e é esse o espaço que Terrence Malick dá ao actor. O de ser alguém não definido, de ser uma pessoa nova que viveria conforme o seu background psicológico a faria viver. Como nos é dito no filme: “Treat this world has he deserves. Theres’s no principles just circumstances”.

Knight of Cups são duas horas de uma viagem espiritual cuja crítica mais óbvia e porventura a que menos faz sentido no filme em questão é a falta de substância.

Não há guião para a vida nem há guião neste desafio ao espectador em jeito de critica ao convencionalismo narrativo hollywoodesco aqui negado nesta obra. É-nos dado sim interrogações fortemente baseadas na riqueza filosófica de Kierkegaard ou Heidegger, como é recorrente na obra de Terrence Malick e como volta a acontecer neste verdadeiro “ensaio sobre a vida”. Nenhum de nós ficará cá a tempo de chegar a uma peça final.

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