Knausgaard, Kiarostami e um padre entram num bar

1 SETEMBRO, 2017 -

Quando algum conhecido me apanha ao acaso com um livro na mão, à espera no cais do metro ou numa esplanada qualquer, cresce em mim uma aflição considerável. Não consigo evitar sentir-me encurralado naquele momento em que, com um sorriso desinteressado, perguntam: então, o que é que andas a ler? A partir daí, o procedimento tem sido mais ou menos o mesmo em todos os casos, mas nunca menos excruciante. Comento por alto que se trata de um escritor norueguês que decidiu narrar em seis volumes a sua vida inteira. A pergunta que se segue no interrogatório é quase sempre a mesma: mas porquê é que estás a ler isso?

A verdade é que ainda não consegui encontrar uma resposta que me deixe satisfeito, nem consigo dissuadir o tal conhecido de que não é um impulso voyeurista o que me leva a ler mil e quinhentas páginas da vida corriqueira de uma outra pessoa. O livro em questão é o quarto volume de A Minha Luta, de Karl Ove Knausgaard, editado em Portugal pela Relógio d’Água. A obra densamente autobiográfica de Knausgaard tem um efeito dissonante, alimentado pela narração de atos mundanos, onde se entrelaçam os interesses da personagem com as suas relações interpessoais. Tem-me dado uma oportunidade para refletir sob um prisma humanista sobre questões que, partindo do meu próprio dia-a-dia nunca surgiriam, mas analisadas de modo extrínseco através do quotidiano de outra pessoa, sim. É quase um exercício pós-modernista ler a obra de Knausgaard. Mas claro, quando sou interpelado por um conhecido nos transportes públicos não me ocorre dizer isto, e acabo por ficar sempre aquém ao tentar transmitir a minha opinião sobre a importância de A Minha Luta na literatura do século XXI.

É evidente que Knausgaard é um herdeiro da boa Europa literária. Embora faça parte da primeira geração de escritores saídos das incubadoras da escrita criativa, soube aplicar as suas ferramentas para tecer um comentário sobre a sociedade ocidental desta era, como Dostoiévski e Proust fizeram antes dele. Mas não é essa a razão que me leva a lê-lo. Não são as suas observações vagamente filosóficas, passagens mais ou menos densas ao longo de A Minha Luta, que me fazem querer saber mais. Tampouco é a narrativa, onde em cem páginas pode nada ter acontecido à personagem principal. Nem o registo linguístico, comum e pouco inovador. Julgo que aquilo que o que me mantém interessado na história que Knausgaard tem para contar é o tema implícito no relato do quotidiano. A descrição minuciosa de acontecimentos contém, nas entrelinhas, uma meditação profunda sobre aquilo que é a Estética da existência, e isso tem-me deixado fascinado. Acompanhar o desalento crescente do narrador que se vai apercebendo que não haverá mais nada para além de aquilo, quer aquilo seja ser uma estrela internacional de rock ou viver uma vida simplória numa aldeia ao sul da Noruega. Karl Ove oscila ao longo de A Minha Luta entre uma confiança extrema para atingir o sublime e o desespero de saber que, como qualquer ser humano na face da terra, ele é apenas mais um, para sempre limitado à sua própria experiência pessoal. Aqui é que surge a magnífica pescadinha de rabo na boca: A substância da vida, que Karl Ove (personagem) narra com desalento, é aquilo que eleva a obra de Karl Ove (autor) a um patamar transcendental. A sensação de que a vida acaba por ficar um pouco aquém das nossas expetativas, resumindo-se a uma dança rotineira de onde apenas podemos extrair com confiança aquilo que captamos da nossa experiência pessoal, acaba por ser o carburante para uma arte absoluta, transversal a todas as áreas da expressão humana. Sei, contudo, que aquilo que sobressai em Knausgaard é um fenómeno que percorre todo o espetro da criação artística contemporânea. A absurdidade da vida e da morte é o passo em frente que a arte sublime deve dar quando confrontada com o vazio. Digamos que, ironicamente, o único modo de sobreviver ao abismo é aceitando a sua inevitabilidade, fazendo troça de aquilo que somos. No século XXI, a substância da obra é a alma do artista.

Vejamos o caso de Josh Tillman, o músico por trás da figura de Father John Misty. Josh Tillman lançou OITO álbuns, de pouco ou nenhum sucesso, antes de, numa epifania induzida por psicotrópicos, chegar à conclusão de que o seu futuro residia no alter-ego Father John Misty. Antes, diz o músico, fazia música para Dungeons & Dragons, vestia-se com camisa aos quadrados e usava barba de feiticeiro, correspondendo aos clichês esperados de um canta-autor. Contudo, no seu pseudónimo petulante, Tillman encontrou a oportunidade de se mostrar ao mundo como ele realmente é, arrogante e desagradável, mas profundamente frágil e humano. O breakthrough veio com o segundo álbum de Father John Misty, I love you honeybear, onde relata as peripécias da monogamia, refletindo sobre a relação com a sua mulher, a fotógrafa Emma Elizabeth Tillman. A genialidade deste álbum, no mesmo modo que em Knausgaard, vem da dissonância entre o que o artista diz e o tom em que o diz. Do pingue-pongue entre a realidade e a ficção. Aqui está a voz real de este homem, expondo as feridas abertas ao público, não como um poeta que não tem outro remédio senão a confissão como material artístico, mas como um criador que tem a certeza de ser na área cinzenta entre o verídico e a fantasia que se encontra o sublime.

Desfazer-se dos limites entre o criador e a criação é assumir os riscos autênticos do processo criativo, mesmo quando estamos a falar de figuras niilistas ou nada surpreendidas com o fenómeno que é existir. A fragmentação da narrativa, o enredo pouco definido e a constante sensação de mise em abyme que experienciei com Karl Ove Knausgaard e Father John Misty trouxeram-me à memória o filme Close-Up, do mestre iraniano Abbas Kiarostami, talvez a epítome pós-modernista de um filme consciente de ele próprio. Close-Up obriga o espectador a preencher os espaços vazios entre a realidade, o documentário e a ficção, mas nunca num modo condescendente, muito pelo contrário. O facto de as personagens estarem cientes de que fazem parte de um filme e de estarem a ser filmadas é em momento algum utilizado como um fim para o projeto criativo. Kiarostami vai buscar a Godard as figuras afogadas no realismo da sua existência, mas no caso do autor iraniano, nunca vemos as personagens a serem astutas por se saberem no filme, antes sim, mostram-se hesitantes e titubeantes, como na própria vida.

O neo-realismo, que tanto se esforçou por criar um ambiente de naturalidade, fazendo-nos esquecer que estávamos a assistir a um filme, perde perante esta nova manifestação artística. Os três exemplos que referi vão um passo à frente, e para fazer-nos esquecer de que estamos frente à uma peça criativa destroem a quarta parede, sem rodeios, e mostram a realidade mais imediata, mostram o escritor a escrever, o músico a compor, o realizador a filmar, e isto de alguma maneira cria no espetador a sensação de “certeza” da ficção. Onde tivemos durante muito tempo a ficção a fazer-se passar por realidade, temos a realidade a fazer-se passar por ficção.

É ousado o criador infiltrar-se na obra, mas de alguma maneira Knausgaard, Tillman e Kiarostami conseguem manter o autor morto ao longo das suas produções criativas. Não há rasto de intenções externas e as obras mantêm-se em pé por si sós, sem a necessidade de serem acompanhadas pela história do autor. Cristalizam-se por fim como um tipo de ficção desconfortavelmente próxima à realidade, e é nessa fina linha onde oscilam as expetativas da audiência que estes três mágicos se destacam.

Não deixa de ser irónico nestes casos que a mecânica da ficção, em vez de se ver comprometida pelo constante lembrete de estar a “ser criada”, seja melhorada por esta abordagem. A arte consciente dela própria, das suas inquietudes enquanto objeto criativo, quando bem fabricada, é esteticamente possível. Porém, toda esta racionalização e a procura de desígnios pode estragar aquilo que genuinamente dá prazer nas obras citadas: a contemplação da experiência humana, dos criadores enquanto criadores e enquanto personagens. Não sei, mas da próxima vez que me obrigarem a explicar Knausgaard no cais do metro, vou ficar-me pelo conceito de romancista contemporâneo.

Crónica de: Mariano Alejandro Ribeiro

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