Júlio Magalhães: ‘A comunicação social de Lisboa não quer saber do Porto’

5 JULHO, 2017 -

Já foi Juca Cuca, quando fez a primeira comunhão e usou calças pela primeira vez. Os amigos continuam a chamar-lhe Juca. Júlio Magalhães é jornalista desde os 16 anos. Dirigiu a informação da TVI depois de José Eduardo Moniz. É diretor do Porto Canal. Queixa-se de que enquanto estava na TVI conseguiu escrever cinco livros. Atualmente não tem tempo para nada. A ida para o Porto tirou-lhe tempo e visibilidade. É a primeira entrevista que dá desde que é diretor do Porto Canal.

Estava em Angola no 25 de Abril de 1974?

Tinha 12 anos. Vivia em Sá da Bandeira, hoje Lubango. Era uma zona do MPLA.

Como foi sair de lá?

Foi um processo duro. Vim eu e o meu irmão à frente. Fizemos uma viagem de Sá da Bandeira [Lubango] para Luanda, que eram 1100 quilómetros, nessa altura já foi alguma irresponsabilidade, porque já era um bocado perigoso. Os meus pais vieram-me trazer a mim e ao meu irmão. Meteram-nos no avião e fomos viver para o Porto. Meio ano depois, veio a minha mãe e a minha irmã, e um ano depois veio o meu pai. Nós viemos para uma casa de uma tia, que vivia no Porto, que era irmã da minha mãe. O meu pai ainda tentou aguentar um ano para levar algumas coisas, mas acabamos por ficar sem nada do que tínhamos em Angola.

Nunca regressou lá?

A Sá da Bandeira nunca mais. Fui a Luanda em 2007, mas Luanda não me diz nada, apesar de ter vivido o primeiro ano de vida lá, no prédio da Cuca [cerveja angolana]. Eu aliás em bebé era conhecido como o Juca da Cuca. Não tenho recordação nenhuma disso. No fim de um ano de vida fui viver para Sá da Bandeira.

E os seus pais regressaram lá? 

Nunca mais. Eu gostava de regressar a Sá da Bandeira. O meu pai já faleceu, a minha mãe nunca voltou. E basicamente aconteceu o que sucedeu a muita gente que teve que ir embora de lá. Nunca mais quiseram regressar. Não queriam ver as casas e os sítios onde tinham vivido e as pessoas que lá estavam em vez deles. A minha vida era entre Sá da Bandeira [Lubango] e Chibia, o sítio em que o meu pai tinha uma fazenda, e Moçâmedes [Nabibe], que era a praia mais próxima. Era onde passávamos o mês de março, a altura mais quente em que não havia aulas em Angola. Era como ir para o Algarve.

O que fazia o seu pai?

O meu pai era guarda-livros e a minha mãe era doméstica e fazia muitos bolos para fora. O meu pai trabalhava no Urbano Tavares de Sousa, a que eu não sei se esta ministra da Administração Interna é familiar. A minha mãe garante que era pai da ministra, mas não tenho a certeza.

Quando volta para cá a realidade é muito diferente? 

Completamente diferente. Em primeiro lugar, era muito frio. Eu usava cinco e seis camisolas umas em cima das outras. A minha mãe em Angola fazia camisolas e mandava para cá. Eu andava com essas camisolas todas umas por cima das outras, mais um quispo, tudo roupa que eu mal conhecia. Em Angola só tinha usado calças na comunhão, porque andava sempre de calções em África. No Porto, levantava-me para ir para a escola e era sempre de noite. Não havia ainda esta mudança de hora. E o Porto era uma cidade muito fechada. Nós vivíamos ao ar livre em África. Aqui vivíamos fechados em casa. Os meus amiguitos, o meu primo também já estava cá, estávamos sempre em casa. Eu só saía de casa às quintas que tinha treinos de basquete, entrei logo no minibasquete no Porto, e ao sábado de manhã. A cidade era muito cinzenta. Depois tínhamos que estudar, que era uma coisa que em África fazíamos pouco. E foi uma adaptação muito difícil. Os meus pais não estavam, e apesar de ter sido muito bem recebido na casa da minha tia, não os ter foi um choque tremendo. O que é que atenuou o choque? Foi os meus amigos terem ido todos embora, e alguns vieram para o Porto.

Havia muita agitação no Porto naquela altura ou não dava conta disso? 

Dava. Ia aos comícios dos partidos todos. Havia muita agitação. Houve o caso do Palácio de Cristal, os assaltos às sedes. Eu não participava nessas coisas mas tentava assistir a tudo.

Muitos dos retornados, e até escreveu um livro sobre o regresso deles a Portugal, eram mais à direita. Tinha essa perceção?

Eram sim. Eu não era, mas o meu pai, sim. Ficou muito revoltado com o que se passou. Perdeu tudo. E durante toda a vida nunca perdoou isso. Foi sempre uma pessoa muito revoltada. Eu não tinha consciência política e fui viver para casa da minha prima, que era professora, e da minha tia, e a minha prima era do MES [Movimento de Esquerda Socialista]. Cheguei a ir a sessões de esclarecimento com ela. Lembro-me de ir ver uma peça sobre o assassinato da Catarina Eufémia. Fui tendo ali uma ligação aquilo que era a minha família, o meu pai, que era de direita e estava muito revoltado. E as minhas primas que eram claramente de esquerda.

Em 2008 publica um livro sobre retornados.

É o primeiro livro que sai em Portugal sobre retornados.

A sério?

Quando a editora me propôs escrever um livro, eu disse que não era escritor e que só escreveria algo que tivesse caráter jornalístico e contexto histórico. A editora pediu-me que romanceasse o livro. Combinei com eles que o livro ia abordar uma questão que eu tinha vivido e que conhecia pessoas que tinham passado por isso. Na investigação toda que eu fiz sobre os retornados não havia nenhum livro sobre retornados. Havia centenas sobre a guerra colonial, a descolonização, as diversas responsabilidades políticas, mas não havia um único sobre as pessoas que vieram de África. E foram mais de meio milhão. Por isso é que o livro vendeu muito, mais de 100 000 exemplares. O livro não tinha uma qualidade literária extraordinária. Não foi por minha causa nem por causa da qualidade do texto, foi pelo facto de ser a primeira vez se escreveu sobre as pessoas que vieram. A responsabilidade de não se ter escrito sobre essas pessoas cabe, não só ao poder político, mas sobretudo aos próprios retornados que com o trauma nunca mais quiseram falar do assunto. Em 2008, com 30 anos de distância, as pessoas começaram a querer falar sobre isso. Por isso consegui recolher muitos relatos, que até então nunca tinham sido tratados. As pessoas contaram-me as suas histórias. O que era ficcionado no livro? As histórias eram verdadeiras, o que é ficcionado é que eu meti as pessoas todas no mesmo avião. Era curioso que eu ia a sessões de autógrafos e apareciam-me pessoas a dizer: «Sabe qual é o meu azar? É que você veio a 17 de dezembro e eu vim a 20». Depois tive de explicar às pessoas que aquilo tinha sido ficcionado para ser no mesmo dia e no mesmo avião.

Aos 16 anos torna-se jornalista.

Sim, no Comércio do Porto. Já jogava basquete no Porto. E já em África ia para a praça esperar os jornais. Vinha o Província de Angola e os jornais que vinham da metrópole, eu tinha 10 anos, e comprava-os. Gostava de ler os jornais. Quando vim viver para o Porto, vim primeiro para a Rua da Cedofeita, em casa da minha tia, mas quando os meus país vieram fui viver para a Rua do Almada. A minha casa ficava a meio do JN e do Comércio do Porto. Portanto, eu às duas da manhã ia para a porta dos jornais, à espera que eles saíssem, para os comprar para ler. E tinha uma amiga jornalista no jornal. Como ia para a Praça da República, ao domingo à tarde, para comprar o Norte Desportivo, que saía depois do jogos do campeonato. Era viciado em jornais. Esta minha prima afastada que era jornalista no Comércio do Porto sabia da minha paixão pelos jornais, e um dia disse-me que era preciso um colaborador para a área do desporto, a fazer os jogos de basquete e andebol. Eu tirava as equipas, os golos, cestos e os pontos, e chegava ao jornal e fazia a ficha do jogo. Andei dois anos a fazer isso. Ao fim desse tempo, abriu uma vaga no desporto, aos 18 anos já era profissional: estudava, jogava basquete no Porto, namorava e trabalhava no jornal. Tive que comprar uma motoreta para conseguir estar a tempo em todo o lado. Os meus amigos todos tinham mota, e eu cheguei ao meu pai e disse-lhe: «Preciso de uma mota, que eu não consigo chegar a horas a todos os lados». E ele disse: «é para trabalhar?», e eu confirmei. Deu-me uma Sachs, que era a mota dos trolhas. Lembro-me de que ia para a faculdade e deixava a mota longe, toda a gente tinha DTs e Yamahas e eu tinha uma Sachs. Até que deitei a mota fora, e hoje tenho pena que é um clássico e valeria muito dinheiro.

E abandonou o basquete?

Houve uma altura que tinha de passar a profissional e, como já trabalhava, ou deixava os jornalismo e os estudos e jogava basquete, ou tinha que o abandonar. Como os meus pais não tinham posses, passámos por grandes dificuldades no início de vida. Tinha que trabalhar, e o meu irmão também. Abandonei o basquete e passei a ser treinador dos miúdos. Ainda joguei por divertimento, até que o jornal e o curso me começaram a absorver e eu deixei de jogar.

Qual é o seu curso? 

Tirei dois anos de História, três anos de Direito e dois anos de Comunicação Social e não acabei nunca nenhum, porque quando estava a acabar o curso, mudava de jornal ou para a rádio ou para a televisão e ficava sem tempo.

Do Comércio do Porto passa para onde?

Primeiro vou para o Europeu, o primeiro dos novos grandes jornais. Vou também fazer desporto. Ganhava 24 contos no Comércio do Porto e fui ganhar 120 contos no Europeu, que durou só um ano. Depois fui para a Rádio Nova, depois acumulei com o Liberal, foi aí que conheci o João Pacheco Miranda e a Judite Sousa, que trabalhavam no Liberal no Porto. E foi o João Pacheco Miranda que, a certa altura, diz-me: «não queres ir para a RTP fazer jogos de futebol ao domingo?». E eu fui. Ao fim de um ano estava afazer o Programa da Manhã na RTP. Deixei tudo o resto. O Manuel Luís Goucha começou o Programa da Manhã comigo.

Fazia de Cristina Ferreira, portanto?

(Risos) E de Sónia Araújo. Não, eu fazia a parte da informação e o Manuel Goucha o entretenimento. Estive dois anos no Programa da Manhã e fazia reportagens. Ganhava muito bem. Era pago à peça. Dois anos depois começo a apresentar o Jornal da Tarde, a partir do Porto. Resolvi estudar Comunicação Social. Quando estava no segundo ano do curso de jornalismo fui convidado para a TVI. Quando estava na TVI há muito tempo resolvi retomar o curso e fui convidado para coordenar. Morreu de vez o curso.

Agora se pudesse acabar, acabava qual?

O de Direito.

Em que altura da TVI foi convidado a entrar?

Em 1999, quando o José Eduardo Moniz entra. Ele foi buscar-me à RTP. Estive um mês sem dormir para decidir: a TVI era um buraco, estava falida. A RTP era um serviço público, fazia o Jornal da Uma, estava tranquilo e não me chateava. O José Eduardo contrata-me para ficar responsável pela TVI no Porto, mas como as instalações eram muito miseráveis, passaram um ano em obras. E eu vim para Lisboa apresentar o Jornal da Uma. Ao fim de um ano passei a fazê-los a partir do Porto. Ao fim de dois, passei a apresentar também os jornais de fim de semana. E passo dez anos a fazer piscinas do Porto para Lisboa.

A certa altura é convidado para substituir o José Eduardo Moniz à frente da TVI, como é que isso aconteceu? Como vê agora a esta distância a saída do Moniz e o fim do Jornal de Sexta da Manuela Moura Guedes?

Acho que foi um processo muito complicado. Muito mal gerido. As posições estavam muito extremadas. A redação muito dividida. E acho que não houve bom senso nem de um lado nem do outro. Porque, na verdade, o Moniz construiu a TVI. A estação era uma construção do Moniz e estávamos num período muito difícil e politicamente muito complicado. A TVI tinha-se tornado de facto a voz do povo e sobretudo um contrapoder, que era uma coisa que já era raro acontecer. A comunicação social na maior parte dos sítios tinha passado a ser parte do poder, mas a TVI não. E cumpria a sua missão. O que mudou na comunicação social é que os grandes grupos tomaram conta da comunicação social e sobretudo da televisão, que é a parte mais apelativa e poderosa. Os grupos económicos a partir do momento em que tomam conta e fazem daquilo um negócio, deixaram de dar margem às redações para serem contrapoder.

Sentia essas pressões antes de ser diretor? É que acho que o Moniz fazia um bocadinho de pára raios e muita coisa não caía na redação.

Sentíamos todos. A redação da TVI fazia de contrapoder. E o Moniz apoiava a redação. A certa altura ele estava de um lado e administração do outro. A administração queria negócio, e isso foi um choque brutal, amplificado pela interferência do poder político da altura que pressionava a estação.

Na altura zangou-se com o Moniz?

Não. Nunca me zanguei.

Mas não se zangou com a Manuela Moura Guedes?

Eu não. Ela é que se zangou connosco. O Moniz sai primeiro e a Manuela só sai depois. A situação já era um bocado insustentável para ela. Como a redação ficou muito dividida, a certa altura, o Moniz e a Manuela zangam-se com uma parte da redação. Como nós estávamos na direção eles acabam por zangar-se connosco. Não devo a minha carreira a ninguém. Foi mérito meu. Tive sorte e trabalho. Mas, na verdade, beneficiei imenso de ter trabalhado com o Moniz. Muito do meu percurso deve-se a ele. O período mais importante da minha carreira é com eles. Eu na altura fui para diretor, porque na divisão da redação, eu era o que estava longe e não estava metido nessas divisões. E estava no Porto, não estava no meio do furacão. Se estivesse em Lisboa não seria certamente a escolha. Quando fui era para ser transitório. Combinei com a administração que aceitava o lugar, mas até aparecer alguém. A verdade é que aquilo se prolongou por dois anos. O primeiro ano foi muito duro, mas o segundo ano foi magnífico, porque as pessoas perceberam que estávamos a passar um momento difícil, que as coisas estavam muito extremadas, e que se continuasse assim podia ser o fim da TVI. O mérito que tive foi conseguir falar com as pessoas das duas fações. Na altura tive muita pena que a Manuela e o Zé Eduardo se tivessem zangado connosco. Mas compreendi a mágoa deles. A TVI era uma construção deles e foi uma espécie de filho que lhes tiraram das mãos. E teve que ver com guerras políticas.

Sentia essas pressões quando era diretor?

Sentia.

Era pressionado por José Sócrates?

Não. Nunca falei com Sócrates quando era diretor. Mas sentia muita pressão.

A partir da administração?

A partir de todo o lado. Mas paulatinamente fomos ganhando folga e autonomia com a administração. Trataram-me sempre lindamente, nunca tive razões de queixa. Mas percebi que a administração queria ter ali uma estação mais moderada. E sobretudo mais pacífica. Foi isso que me pediram. Não me vieram dizer que não podia entrevistar a, b ou c, mas queriam uma estação mais moderada. Aquela agressividade que a TVI tinha em relação ao poder político estava, provavelmente, a prejudicar os negócios, mas nunca nos pressionaram diretamente para fazer ou tirar notícias. No meu mandato o Sócrates não foi nenhuma vez à TVI. O poder político, e todos os partidos, queriam lá ter comentadores, mas isso é o normal.

Nessa altura já tinha o programa com o Marcelo Rebelo de Sousa?

Isso já vinha de antes. Ele já tinha estado na TVI. Foi para a RTP. E eu quando era diretor de informação fui buscá-lo à RTP. Já tinha feito comentário durante cinco anos com ele. Depois ele zangou-se com o Paes do Amaral e foi para a RTP. Quando estou como diretor de informação, vou buscá-lo à RTP. Eu e o Bernardo Bairrão, que era o administrador, fomos contratá-lo. O que foi um balão de oxigénio. Nós tínhamos perdido o Miguel Sousa Tavares para a SIC, e tínhamos fragilidades na informação. E o Marcelo volta e depois dá um grande balão de oxigénio. Não é mérito da direção, é capacidade do Marcelo.

Não se pode dizer o contrário? Que a popularidade do Marcelo se deve em muito ao seu acesso à televisão em prime time durante anos?

Foi mérito dele. Claro que lhe deram palco. Ele fazia mais audiências do que as novelas. Ao domingo, uma país inteiro parava para o ver. O mérito era todo dele.

Continua-lhe a ligar às quatro da manhã?

Não. Isso parou. Agora liga-me de longe a longe para saber se está tudo bem. Desde que é Presidente, jantámos uma vez quando ele foi ao Porto, e de vez em quando liga, mas é raro.

Não fala sobre aquela caixa (risos).

(Risos) Isso está no Youtube e portanto quando a TVI faz anos lá aparece a cena nas galas. Este episódio foi há 12 anos e ainda agora as pessoas na rua me falam disso. Foi este momento que aproximou muito o Marcelo das pessoas.

Mas na altura ele não deve ter gostado muito (risos).

Não. Nesse dia, quando acabou o jornal, o Zé Eduardo Moniz estava a ligar para a régie e eu julguei que tinha sido o meu último jornal. Aquilo tinha sido muito grave. Estive dez minutos a rir sem parar. As pessoas não viram, mas eu estive largos minutos de costas e o Marcelo a falar, eu não conseguia olhar para ele sem me rir. E o Moniz a ligar para a régie: “O que é que se passa, isso é grave. Tem que haver consequências”. E eu disse que assumia todas as consequências e saía. O Marcelo ficou todo atrapalhado porque achou que aquilo que ia ser muito prejudicial para a credibilidade e os comentários dele, mas a verdade é que aquilo se tornou um caso de enorme popularidade. E as pessoas sentiram que nós estávamos no comentário como em casa delas. Logo no dia seguinte tiveram que passar as imagens no jornal – de tal forma aquilo se tornou popular – e mostrar a famosa caixa que não tinha aparecido na véspera.

A caixa era o quê?

Era uma medalha que o professor Marcelo ia entregar ao Papa. O professor queria que fosse eu a mostrá-la. Ele ligou-me às cinco da manhã a dizer: «eu tenho uma medalha». O professor não gostava muito de cunhas, nem da faculdade nem de amigos, porque isso abria um precedente. Mas esta ele queria mostrar porque era uma medalha que a faculdade de Direito de Lisboa ia entregar ao Papa. Ele disse-me: «Há aqui um problema, tenho aqui uma medalha para mostrar, mas gostava que fosse você a fazer». Eu assenti. Só que quando ele chegou eu já estava a apresentar o jornal. E ele entrou em estúdio sem a caixa. Depois a meio do comentário começou a pedir a caixa, mas ninguém sabia onde é que ele tinha deixado. Levavam-lhe todas as caixas que encontravam: sapatos, vinhos. E ele a dizer que não era nada daquilo. Eu estava de costas para ele e via pessoas por baixo das secretárias à procura da caixa. E descontrolei-me completamente. Aquilo podia ter sido o fim da minha carreira à conta da medalha do Papa.

Quando é que surge o convite para dirigir o Porto Canal?

Quando o Futebol Clube do Porto, que não tinha um canal de televisão, decide comprar um canal generalista. Aceitei ir para o Porto porque o projeto não era fazer um canal de clube, mas fazer uma televisão generalista com um clube.

Mas tal como os grandes grupos económicos condicionam, também tem algumas linhas azuis, neste caso?

Há em todo o lado. Na TVI também tinha. Há clubes que se queixam que o Porto Canal não fala deles, mesmo aqui no norte. O Futebol Clube do Porto é dono do Porto Canal, não vai pagar um canal para projetar a marca de outros. Eu na TVI não podia projetar a SIC. Nós não convidávamos ninguém das outras estações, nem eles convidavam pessoas da TVI. As semelhanças são as mesmas. Nós vamos dando, apesar de tudo, informação de outros clubes, mas o núcleo do canal é o Futebol Clube do Porto e isso está balizado.

Havia um conflito aceso entre o Futebol Clube do Porto e o Rui Rio, isso afetava?

Tem consequências. Dávamos todas as notícias sobre a câmara, mas era óbvio que tínhamos balizas em relação ao Rui Rio. Era um opositor e tinha um litígio com com o clube e isso era sentido. Dávamos, como disse, todas as notícias da câmara, mesmo aquelas que envolviam o presidente, nunca houve interferência nessa matéria do clube mas, por exemplo, nunca entrevistámos o Rui Rio. E no Futebol Clube do Porto nunca me disseram para não entrevistar o Rui Rio, mas quando estamos numa empresa temos a noção de que há coisas que não se deve fazer. É senso comum. Mas o Rui Rio não se pode queixar das nossas notícias.

A televisão é do Futebol Clube do Porto, reúne com Pinto da Costa? 

Não. Ele nunca se meteu no Porto Canal. Eu tenho um administrador que é o Adelino Caldeira, com quem tenho reuniões semanais, mais o diretor do Porto Media e o Manuel Tavares. Tenho reuniões semanais com eles. E a única vez que falo com o Pinto da Costa, é quando ele às vezes aparece, quando estamos a reunir, para nos cumprimentar. Mas nunca o presidente do Futebol Clube do Porto me pediu fosse o que fosse para o Porto Canal.

Há uma grande diferença entre o Porto Canal e o canal do Benfica e do Sporting?

O Porto Canal faz serviço público. As pessoas ainda não conhecem. Há 20 canais de televisão de Lisboa, se contarmos os de cabo da TVI , SIC, RTP, e há um único canal de televisão generalista no Porto que tem conteúdos que mais ninguém tem. Temos programas de investigação científica, de história, cinema, entrevista, de entretenimento. Os políticos vão lá todos: fizemos oito horas de emissão do 10 de junho, fizemos dois dias de emissão contínua sobre a visita do Papa a Fátima, tudo conteúdos que os canais de clubes não fazem. Os candidatos presidenciais foram todos ao Porto Canal. Temos jornais informativos. Portanto, temos um canal generalista, em que há conteúdos balizados do FC Porto. Não é um canal de clube, é um canal com um clube. Damos uma grande visibilidade ao norte que mais nenhum canal de televisão dá. A CP escolheu o Porto Canal para serem a grelha de televisão dos Alfas. A SIC Notícias e a TVI 24 transformaram-se em canais de desporto, o Porto Canal é a estação de televisão que menos futebol tem. Os canais de informação transformaram-se em canais de futebol. No Porto Canal é diferente, há espaço para o FC Porto, mas há uma aposta em fazer uma televisão generalista, com serviço público, e de qualidade, que oferecesse à região, ao norte e ao país um bom canal. Nós não temos é projeção nos media. Só para dizer, esta é a primeira entrevista que estou a dar desde que vim para o Porto Canal, tirando uma revista ao outra.

Porquê?

Porque [a comunicação social de Lisboa] não quer saber do Porto para nada. Enquanto não houver regionalização o país não tem solução, porque isso repete-se para todas as outras regiões de Portugal sem ser Lisboa. A capital concentra tudo e o resto do país não existe. As regiõe, se não tiverem uma rádio, um jornal e uma televisão nunca mais vão existir.

É uma grande diferença gerir o orçamento da TVI e do Porto Canal?

Uma grande diferença. Nós fazemos o milagre de fazer 24 horas de produção diária com 50 pessoas. Todos os conteúdos do Porto Canal são de produção interna. Os profissionais do Porto Canal sabem fazer tudo: produzem, montam, são jornalistas. Têm uma versatilidade que não encontrei em mais lugar nenhum. Os orçamentos são para seguir à risca. O Futebol Clube do Porto dá ao seu canal um orçamento que é cumprido à risca. É bastante diferente do que gerir a TVI. Eu na TVI escrevi cinco livros, desde que estou no Porto Canal não consegui escrever mais nenhum. Somos menos e temos muito mais trabalho.

Não acha que houve uma alteração no mercado televisivo com a entrada da CMTV?

Houve. O Correio da Manhã já era um caso único em Portugal. E a CMTV obviamente tirou muito público a todos. Até penso que lidera as audiências em relação ao cabo. A CMTV tem grandes profissionais, aproveita a experiência que tem do jornal e faz economias de escala no país todo. É provavelmente o canal que melhor cobre o país. Mas de qualquer maneira tanto o jornal como a CMTV são produtos únicos. Não há nenhum outro canal que queira seguir aquele modelo.

Não acha que em algumas situações, como a transmissão daquele vídeo de uma estudante dentro de uma camioneta, ultrapassam o próprio código jornalístico?

É o estilo deles. Não estou de acordo com algumas opções. Não as faria. Mas é um estilo. E o público é que tem de julgar. Aquilo existe na Europa toda. Os tabloides do Reino Unido são muito piores. Às vezes estão sempre na linha vermelha. Mas é um caminho que eles quiseram seguir.

A ética e deontologia jornalística não têm outros critérios para além da aceitação do público?

Eu acho que isso é aferido pelo o público. Mas reconheço que é um estilo que mais ninguém quer seguir, porque tem um preço a pagar do ponto de vista da marca. O futuro vai ser ter uma marca, aquilo é um estilo de jornalismo que baixa muito a marca. Eles não estão muito preocupados com a marca mas com as audiências. Ninguém deve por em causa uma linha editorial. Eles são livres de a traçar e o público de a ver. A comunicação social é livre, há regras legais e o público deve escolher o que quer. Fora disso há a lei.

Como viu o caso da reportagem da Judite Sousa em Pedrógão Grande?

Devo confessar que me chocou. Foi um excesso em termos televisivos, mas o contexto também era muito difícil. A Judite Sousa é uma profissional de mão cheia. Teve um azar na vida tremendo. Ninguém quererá. Mas acho que aquilo foi fruto do excesso de entrega. Naquele momento trágico em Pedrógão, ela avaliou que aquilo era uma imagem muito forte que resumia a situação. Se gostei? Não. Mas acho que não pode ser posta em causa a carreira de uma grande jornalista por causa de um excesso. Há uma concorrência desenfreada nas estações de televisão, que nos tira muitas vezes tempo para pensar.

Entrevista de Nuno Ramos de Almeida, publicada no nosso parceiro jornal Sol
Fotografia de Diana Tinoco

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