Jovens acreditam cada vez menos em Deus

14 JULHO, 2017 -

São cada vez menos os que se dizem crentes, mas há os que falam em espiritualidade. Os millennials viraram as costas à religião. Mais informação parece ser a explicação.

Já não bastava a fama de narcisistas, mimalhos, meninos dos papás e preguiçosos, ainda tinham de ser infames e descrentes. Como é que as gerações anteriores hão de suportar viver com a que atravessa agora a juventude e o início da idade adulta se, na verdade, tantos paradigmas mudaram? Todas as quintas-feiras o i analisa esta geração, objeto de mitos e preconceitos pelos mais velhos mas intrigante para os analistas. A rubrica Geração i procura conhecer melhor aqueles que nasceram entre as décadas de 80 e 90, não só os seus hábitos como também os contextos em que surgem.

A religião é a frente de análise desta semana. Os jovens desta geração cresceram, como todos, a fazer muitas perguntas. Mas tornou-se mais fácil o acesso a uma imensa quantidade de respostas. Francisco, de 25 anos e estudante de Teologia em Itália, explica que esta geração é, em todo mundo, mais afastada das fronteiras religiosas por vários motivos. A informação é um deles. “Há que ter em conta que somos a geração da mobilidade, da interculturalidade. Saímos da nossa aldeia e vamos partilhar a nossa cultura, as nossas crenças e ouvir as dos outros. O que levanta muito a questão do ‘porquê?’ ou ‘o que me faz crer que a minha crença é a correta?’”, diz. “Este contacto, também mediado pela internet, faz de nós uma espécie de surfistas sofisticados com acesso a informação que já não é tabu. Os novos jovens religiosos não se centram nos mitos, são informados, educados e fazem perguntas”, completa o jovem português.

Em 2015, investigadores de San Diego analisaram dados de 11,2 milhões de entrevistados de quatro investigações nacionais em torno de adolescentes com idades entre os 13 anos e os 18 anos, dados recolhidos entre 1966 e 2014. De todas as gerações de adolescentes, a dos millennnials foi a que mais se mostrou separada do mundo religioso e das conceções divinas. Os millennials, na altura adolescentes, mostravam menos probabilidades de dizer que a religião era importante nas suas vidas, aprovavam menos organizações religiosas e relatavam ser menos espirituais e passar menos tempo rezar ou a meditar.

Se a igreja católica enfrenta hoje uma diminuição de praticantes, o problema pode também estar aqui. Um estudo de 2013, realizado pelo grupo Barna – uma empresa de influência cristã – revelou que “65% dos jovens adultos criados por católicos dizem ser menos religiosamente ativos hoje do que quando tinham 15 anos”. A tendência é global e afeta todas as religiões, mas na Europa o desafio é essencialmente do Vaticano, já que “25% dos millennials que foram criados em contextos católicos não se identificam com a religião”. Os millennials que vão à missa são cada vez menos e afirmam não ver a religião como algo importante nas suas vidas.

O declínio no interesse dos millennials no que toca à religião afetou três dos países mais católicos da Europa: França, Malta e Itália. Os religiosamente não afiliados, ou seja, os que não se identificam com nenhuma religião, são chamados de “nones”e formam o grupo mais populoso do mundo, segundo a “National Geographic”. Este grupo está a crescer e é já considerado o segundo maior grupo religioso da América do Norte e da maior parte da Europa.

Nos Estados Unidos, os “nones” representam quase uma quarta parte da população. Na última década, ultrapassaram os católicos, os protestantes principais e todos os seguidores das crenças não-cristãs. Isto surge em todo o mundo, porque quando perguntados sobre seus sentimentos quanto à religião “mais e mais pessoas respondem com um ‘meh’”, lê-se na publicação internacional.

Porém Gabe Bullard, no seu artigo da “National Geographic”, afirma que as tendências mostram que isto não será para sempre, já que em África a dimensão da religião tem crescido de forma exponencial. “A falta de filiação religiosa tem profundos efeitos sobre a forma como as pessoas pensam sobre a morte, como ensinam os filhos e até mesmo como eles votam, assim como Morgan Freeman explica na série que lançou em 2016, História de Deus”, escreve o autor.

Havia previsões de que a religião iria desaparecer do mapa à medida que o mundo se modernizasse, mas investigações recentes sugerem que o fenómeno está a ser surpreendentemente rápido. Segundo Bullard, “França terá uma população secular maioritária em breve. Assim, como os Países Baixos e a Nova Zelândia. O Reino Unido e a Austrália perderão rapidamente as maiorias cristãs. A religião está a tornar-se cada vez menos importante, como nunca foi antes, até mesmo para as pessoas que vivem em países onde a fé afetou tudo, desde governantes até fronteiras até a arquitetura”. O facto de na África subsaariana se passar precisamente o contrário, com um crescimento ético, gera um fenómeno curioso. A religiosidade está a crescer tão rapidamente que, esta zona do globo onde a população continua a aumenta fará com que os “nones” da população global diminuam nos próximos 25 anos.

Portugal pouco crente

Um inquérito realizado pela consultora Win Gallup International juntamente com a Marktest, cujos resultados foram divulgados este ano, mostram que os países da Europa são os menos religiosos do mundo. Portugal, de acordo com o inquérito, tem uma percentagem de 59% de pessoas religiosas, tornando-se num dos países menos religiosos, juntamente com a França com 45%, Irlanda com 40%, Espanha com 37%, Alemanha com 34% e o Reino Unido com 27%. Entre os países mais religiosos do mundo encontram-se Tailândia, Nigéria, onde mais de 90% da população tem alguma fé.

Francisco, millennial estudante de Teologia em Itália, diz que é uma tendência cada vez mais real a do afastamento dos jovens portugueses com a Igreja. “É evidente que, no contexto da nossa sociedade, os jovens se afastaram da dimensão religiosa. Dos jovens que foram criados em contextos católicos, por exemplo, os que se mantiveram ligados à Igreja são poucos. Vejo três principais razões: o conflito de gerações; a mobilidade, os meios de comunicação e a sociedade científica e ainda a crise da figura paterna e da autoridade”, explica.

Para o jovem teólogo que já passou por experiências religiosas como viver num mosteiro, o conflito de gerações dá-se também dentro das estruturas da Igreja, já que se fazem perguntas e não se contentam com fáceis respostas. “Há coisas que não fazem sentido para os jovens desta geração fazerem parte”, diz Francisco, sublinhando que esta geração tem um “grande problema com noções e conceitos de autoridade, o que naturalmente dificulta respeitar autoridades litúrgicas, autoridade como a de uma instituição”. Como vê o futuro da Igreja? ”Vai passar pelo futuro da sociedade: vai ter de existir diálogo entre gerações, não só os mais novos têm de aprender. Os mais velhos têm de ouvir os jovens, deixá-los participar, isto seja na sociedade civil e política ou na Igreja. Todas as questões têm uma resposta da sabedoria antiga mas também da nova realidade, temos e devemos juntar as duas se queremos um mundo melhor”, conclui.

Artigo escrito por Ana B. Carvalho, publicado no nosso parceiro jornal i

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