José Saramago arrecadou o Nobel da Literatura há 18 anos

8 OUTUBRO, 2016 -

8 de outubro de 1998. Portugal havia somente sido galardoado com um Prémio Nobel na área da medicina, com Egas Moniz em 1949 a receber por virtude das controversas mas inovadoras lobotomias cerebrais. No entanto, o dia 8 de outubro de 1998 distinguiria a literatura portuguesa. Um legado cultivado desde cedo por nomes como Luís de Camões, Fernão Lopes e Bocage, passando por Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Miguel Torga ou Sophia de Mello Breyner. Um legado consolidado pelo Nobel atribuído ao escritor nascido na vila da Azinhaga, Golegã no dia 16 de novembro de 1922, e de seu nome José de Sousa Saramago.

A fundamentação da Academia Sueca, instituição encarregue da atribuição do Prémio Nobel da Literatura, era clara: alguém que, com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade fugidia. Foi esta premissa na qual assentou toda a obra de Saramago. Uma fantasia fértil mas sem nunca prescindir daquilo em que acreditava. Montando e moldando um estilo particularmente seu, causou polémica e fez estalar as mais firmes instituições perante a sua rígida imponência.

Foi em setembro de 1997 que os indícios da atribuição do Nobel da Literatura ao escritor luso começaram a vir à tona. A agência publicitária sueca Jerry Bergström AB, sediada em Estocolmo, organizou uma visita a Saramago até a esta capital europeia, incluindo nesta um seminário na principal cadeia de livrarias do país, sendo esta a Hedengrens. Para além disso, também um discurso na Universidade dessa cidade e inúmeras entrevistas dadas a órgãos de comunicação social do país deixaram a pairar no ar um plausível galardão. No entanto, e apesar da Academia Sueca negar a influência deste périplo de Saramago por Estocolmo, não deixou de se tratar de um feliz paralelismo que levou Saramago ao mais alto prémio da contribuição humana através da escrita.

De serralheiro a jornalista, passando por missões de tradutor e de editor, Saramago somente deixou a capital portuguesa em tempos de descontentamento perante a conjuntura que dominava o país nos anos 90, acompanhado pela jornalista e escritora espanhola Pilar del Rio. Vítima de uma leucemia crónica, o autor português partiu a 18 de junho de 2010 aos 87 anos de idade. Não obstante a diversidade profissional, a escrita ganhou sempre especial destaque, especialmente após os tempos da ditadura que assolou a nação lusa. Comunista assumido, incutiu versatilidade às frases e vocábulos que usou e desprezou as regras da pontuação, ajustando-as ao discurso e à sua fluidez. No seu pecúlio literário, deixou crónicas, poemas, contos infantis, peças dramáticas e romances, género pelo qual se notabilizaria.

Tudo começou com “Terra do Pecado” (1947), projeto no qual já indiciava algumas linhas controversas do seu pensamento e da sua convicção assimilada. Dentro deste registo, deixou também “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991), “As Intermitências da Morte” (2005) e “Caim” (2009). Numa toada menos religiosa e mais social, criou “Memorial do Convento” (1982), “A Jangada de Pedra” (1986), “Todos os Nomes” (1997) e “O Homem Duplicado” (2002). Foi também este o autor que foi encarregue de contar os episódios seguintes do único heterónimo que não havia sido morto pelo seu criador Fernando Pessoa. “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984) providenciou o regresso do médico a Lisboa e relatou as suas peripécias pela cidade. Em nenhuma delas abdicou da sua identidade e dos seus ideais, mantendo um tom corrosivo e colérico perante aquilo a que opunha. Como alvo, a Igreja Católica como instituição milenar e o catolicismo como religião a que tantos recorriam desenfreadamente para encontrar o sentido da vida. Também como o epicentro deste “saramagómetro” esteve a política nacional e internacional, desde as sociedades mais opressoras até às mentes mais compressoras.

Foi com distinção que José Saramago viu o seu nome associado ao prémio Nobel da Literatura a 8 de outubro de 1998. A mesma distinção que o fez célebre no seio da cultura lusitana e que o tornou uma personalidade assinalável na atualidade europeia. A tal distinção que não se organizou só em ideias e em discursos mas também em estrofes, em parágrafos e em intermináveis e interoperáveis frases. Uma distinção que o fez viver de forma tão intensa numa arte tão imensa. A de ler, a de escrever, a de criticar, a de sentir. A distinção que a tantos ainda motiva devoção. 18 anos contados em história e transformados numa conterrânea glória.

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