John Fitzgerald Kennedy: entre o mito e o homem

24 MAIO, 2017 -

A imortalidade da sigla ‘JFK’ não é passível de grande discussão. Daqui a seis dias, cumpre-se um centenário sobre o dia em que o homem que lhe deu corpo, John Fitzegerald Kennedy, nasceu. Foi a 29 de maio de 1917, ironicamente no mesmo ano da revolução bolchevique contra a qual foi um feroz opositor.

Em 1963, no ano ano sua morte, foi a Berlim Ocidental saudar «o espírito batalhador do povo da Alemanha Federal» e o discurso tornou-se célebre. Kennedy, presidente dos Estados Unidos da América, a dizer em alemão: «Eu sou um berlinense», sob aplausos. «Para ver a diferença entre o mundo livre e o mundo comunista, basta vir a Berlim», disse JFK, afirmando que «a democracia não é perfeita, mas nunca teve que construir um muro».

Mas, antes de chegar aí, de roubar a presidência a um Nixon predestinado, mais experiente e de um partido que governara com Eisenhower; antes de conquistar os corações americanos no primeiro debate presidencial transmitido em direto na televisão; antes de prometer levar a América à lua e de ser o primeiro presidente dos Estados Unidos da América de religião católica e também o primeiro de ascendência irlandesa; antes de Jackie inspirar milhões de mulheres e declarar a presidência do marido como um irrepetível «reino de Camelot»; antes de tudo isso, quem era John Fitzgerald Kennedy?

A verdade é que ‘Jack’, como era conhecido entre amigos e família, quase não foi JFK, como ficou para sempre nos livros de história.

O mais velho dos seus nove irmãos, Joe, era o favorito do pai e encarado como o futuro político da família.

Joe, no entanto, faleceria num incidente de viação na Segunda Guerra Mundial e o fardo das expectativas do clã caiu sobre Jack, que também cumpriu e arriscou a vida em serviço militar.

Uma família de topo

O pai dos Kennedy, Joseph (ou Joe sénior), era amigo íntimo de Franklin D. Roosevelt desde o início da carreira de Roosevelt no Partido Democrata, sendo também ele uma figura proeminente da força política.

Enquanto Roosevelt foi presidente, Joseph Kennedy foi embaixador norte-americano no Reino Unido durante dois anos. JFK tinha vinte de idade.

Da família de nove irmãos, três seguiram carreira política e houve espaço para sol e sombra.

Entre as irmãs, Rosemary Kennedy foi uma das primeiras mulheres a ser sujeita a uma lobotomia nos Estados Unidos. Kathleen Kennedy casou com um marquês de Harrington, mas faleceria na queda de um avião com apenas 28 anos. Pat Kennedy, mais nova, namorou com o infame senador McCarthy e casou com o célebre ator Peter Lawford, amigo de Frank Sinatra, que também conhecia bem Joseph e Jack Kennedy.

O cantor chegou mesmo a apoiar a candidatura de JKF junto da comunidade italo-americana e os Kennedy mantinham boas relações com o mundo do espetáculo.

A família era um símbolo de alta sociedade, a fortuna e a filantropia eram públicas. Os negócios de Joseph em Hollywood e em Wall Street também.

O jovem JFK foi escuteiro e namoradeiro, mas desde cedo afetado por uma saúde frágil que o impediu, por exemplo, de estudar em Londres como o irmão, acabando por matricular-se primeiro em Princeton e depois em Harvard, onde fora o pai a estudar antes.

A transferência também se deveu a fragilidade física, de diagnóstico intermitente: durante a juventude, o segundo mais velho dos Kennedy foi de suspeita de leucemia para consecutivas gastroenterites.

Enquanto o pai liderou a diplomacia de Washington em Inglaterra, ‘Jack’ viajou pela Europa de Leste de carro, conhecendo bem de perto o ‘bloco’ a que mais tarde se viria a opor como chefe de Estado.

Em Harvard, mais independente dos irmãos, ganha gosto pelo estudo e apaixona-se por livros de história e filosofia política. Pensa em dar aulas – chega a fazê-lo em Stanford – e publica a sua tese em livro, sobre a indolência britânica perante o crescimento do império nazi. O livro, “Why England Slept”, tornou-se um bestseller.

Depois de terminar o curso, sente-se impelido a seguir o exemplo do irmão mais velho na carreira militar, mas é reprovado para a academia de oficiais do Exército devido aos mencionados problemas de saúde.

Acaba por ser recrutado para a reserva da Marinha e em 1942 voluntaria-se para as patrulhas de torpedos.  Chega a oficial e é destacado para a guerra no Oceano Pacífico, contra os japoneses. Em 1944, sucede-se o desastre do irmão, Joe, sob o Canal da Mancha. Em 1945, Kennedy é condecorado por atos heroicos e dispensado honradamente devido a problemas físicos e dor crónica.

Da guerra à política

O regresso a casa, que para si era um regresso aos livros, era visto pelo pai como o seu começo na política. Antes disso, ainda experimenta brevemente exercer jornalismo e cobre a conferência de Potsdam, que juntou Churchill, Estaline e Harry Truman para discutir a paz. Na década de 50, Kennedy chega a vencer um Pulitzer por uma obra sobre senadores americanos de destaque.

Um ano depois, vence um lugar para o congresso pelo Estado de Massachusetts, financiado e coordenado pelo pai, sendo um dos múltiplos veteranos a tentar a política depois da Segunda Guerra.

Em 1952, é eleito para o senado pelo mesmo Estado e fica noivo de Jacqueline ‘Jackie’ Bouvier. O casamento gerou dois filhos e foi algo atribulado, embora tenha causado furor nacional na imprensa e nos lares norte-americanos.

Os problemas de saúde, no entanto, não melhoraram: a dependência de analgésicos e de injeções de corticoides vai aumentando. É-lhe diagnosticado hipertireoidismo. Mais tarde, seria montado um ginásio na Ala Ocidental da Casa Branca para Kennedy poder exercitar as costas, que sempre o atormentaram.

É nesta altura que conhece Lyndon B. Johnson, líder da maioria democrata que seria seu vice-presidente, e que começa a apreciar charutos cubanos.

Depois de vencer a reeleição para o senado, começa a pensar nas presidenciais de 1960, nas quais seria eleito o mais jovem inquilino de sempre na Casa Branca , aos 43 anos [Roosevelt chegou à Sala Oval aos 42, mas herdou o cargo]. Truman, do seu próprio partido, temia a inexperiência.

O seu catolicismo, por outro lado, tentou ser usado por Nixon, vice-presidente incumbente, mas Kennedy arrumou a questão ao dizer: «Eu não falo pela Igreja e a Igreja não fala por mim».

Um dos seus irmãos mais novos, Bobby, teria um papel fulgurante na campanha e o pai pedir-lhe-ia para estar no Governo com ‘Jack’.

Bobby, pai de onze filhos e o mais católico dos nove irmãos, tinha uma timidez e frieza que o irmão não invejava. Foi nomeado Attorney General, o equivalente a ministro da Justiça em Portugal. Seria assassinado, como o irmão.

Quando o Presidente faz 45 anos, enche-se o Madison Square Garden para celebrar o aniversário e Marilyn Monroe escreve-lhe uma canção intitulada “Parabéns, senhor Presidente”. O vestido da diva era de tal modo apertado que, para o vestir, teve que ser cosido na hora. Jackie, a primeira-dama, recusou comparecer.

Alegadamente, o presidente terá mantido casos extraconjugais com atrizes como Monroe e Marlene Dietricht, assim como com a assistente pessoal de Jackie. E lá se foi o catolicismo outra vez…

O castigo divino?

Haverá mesmo uma maldição Kennedy? Talvez a família política mais distinta da história dos EUA sofra mesmo de infortúnio crónico.

Joe Kennedy viveu pouco tempo saudável enquanto o filho foi presidente. Um ano após a vitória, em 1961, sofre um enfarte e fica paralisado e preso a uma cadeira de rodas até ao fim dos seus dias. As dificuldades na fala vão-se agravando; a mente foi perspicaz até ao fim.

Os seus filhos mais próximos, Jack e Bobby, são vítimas de assassinato político depois daquele que fora criado para a política, Joe júnior, morrer como piloto da Marinha. Kathleen, sua irmã, faleceu na queda de um avião em França depois de perder o marido, também na Segunda Guerra Mundial. Rosemary Kennedy, outra irmã, foi diagnosticada com défice cognitivo e lobotimizada a ordem do pai, ficando a cargo de uma instituição até à sua morte.

JFK e Jackie Kennedy perderam um filho recém-nascido e um bebé por aborto espontâneo, sendo que John júnior também morre num desastre de avião, mas em 1999, nos Estados Unidos.

Artigo escrito por Sebastião Bugalho, publicado no nosso parceiro Jornal SOL

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