Joey Bada$$ assegura o seu lugar na emergente constelação do rap

8 ABRIL, 2017 -

Nos frescos dos seus 22 anos, Joey Bada$$ apresenta-se como um dos mais promissores nomes do rap na década atual. Tendo-se estreado nos estúdios em 2015, com “B4.DA.$$“, colheu as graças dos mais interessados pelo desenvolvimento deste género musical, e aguçou o apetite para um futuro que se torna, neste mês, presente. A sua carreira, que contou com uma participação na série Mr. Robot, no papel de Leon, tem galopado de forma consistente, levando-o a experimentar novas formas de expressão criativa e lírica.

Neste contexto, surge “ALL-AMERIKKKAN BADA$$“, álbum que traz pungência e efervescência nas mensagens, nos sons, e na mistura que resulta de ambos. O título do disco inspira-se e homenageia mistura realizada pelo seu amigo Capital STEEZ, um dos fundadores da Pro Era, de seu título “AmeriKKKan Korruption“. Sobre a Pro Era, importa salientar que se trata de um grupo coletivo de artistas fundado em Brooklyn, em pleno coração novaiorquino, e que se apresentou como a era progressiva do hip-hop, posicionando-se, para além da própria produção, também como uma editora musical. Outra das influências inequívocas neste álbum, para além do artista acima mencionado, que partiu em 2012, foi Ice Cube e o seu trabalho “AmeriKKKa’s Most Wanted” (1990), referenciando o grupo segregacionista Ku Klux Khan.

As músicas possuem a particularidade de estarem nomeadas em maiúsculas, ajudando à expressão entusiasta e fervorosa do próprio álbum. Para além disso, importa reforçar que todo o álbum deixa-se levar numa sonoridade pura, limpa, e bem trabalhada, contrastando com o choque lírico, que promete sujar-se no vocabulário e na visita a mentes e posições conservadoras e discriminatórias.

Nesse rumo, segue a música inicial “GOOD MORNING AMERIKKA“, uma introdução à viagem que Joey se apresta a oferecer ao ouvido, à mente, ao coração. O discurso direto é mantido com os próprios Estados Unidos, denunciando a problemática que ainda se vai mantendo, e que funciona como o dínamo dos KKK, sendo a segregação racial. Aqui, o dedo é apontado ao país, que remanesce num clima racista, e a discussão de todas estas injustiças dominam o novo dia que chega a partir do álbum.

FOR MY PEOPLE” traz um ideal de unidade na sociedade, a partir da comunidade, apelando ao surgimento de um herói para os representar e os revalorizar, mas também ao valor da música naquilo que é a luta e a exortação da “my people”. Por sua vez, “TEMPTATION” fala daquilo que é necessário para se efetivarem as mudanças, embora não esqueça aquilo que os limites podem trazer de nocivo; já “LAND OF FREE” critica direta e duramente Donald Trump, lamentando a saída de Barack Obama, e não se inibe de relacionar os três Ks de “AMERIKKKA” com o status quo da presidência norte-americana. Na essência, coloca a tónica na liberdade que deve dominar a atualidade do país, disponível para todos sem exceção.

DEVASTATED” foi o primeiro single do disco a ser publicitado, e explicita uma espécie de regeneração individual e coletiva, dispondo-se o músico a voltar à carga no confronto e no debate da sua realidade de forma mais consciente. “Y U DON’T LOVE ME? (MISS AMERIKKKA)” é a penúltima faixa a solo, sendo que as restantes são quase todas colaborativas. Esta faixa interrelaciona as frustrações de uma paixão com as circunstâncias políticas e sociais, que a contaminam, sendo essa Miss AMERIKKKA a protagonista da música.

As colaborações começam em “ROCKABYE BABY“, e Joey traz ScHoolboy Q, um dos nomes grandes do género. Aqui, o desejo de revolução acentua-se, e isso sente-se numa letra mais forte e provocatória, com ScHoolboy a ajudar a solidificar essa intenção. Em “RING THE ALARM“, juntaram-se três ao músico de 22 anos, sendo eles três membros da Pro Era. Nyck Caution, Kirk Knight e Meechy Darko, ao lado de Bada$$, disparam o alarme para a guerra que as ruas suscitarão, uma guerra que estará pronta pelos seus proponentes. O experiente Styles P coopera em “SUPER PREDATOR“, relançando a narrativa de uma presença que desgasta e desbasta a sociedade, alicerçada pelas forças repressivas em relação às manifestações de comunidades de etnia negra.

O músico de reggae jamaicano Chronixx também não desperdiçou o convite de Joey, não dispensando os impropérios em “BABYLON“. Esta música destaca-se também pelo desespero que emana nas comunidades acima citadas, que acabam perseguidas e brutalmente violentadas. Uma sensação de, no revelar e expressar da identidade individual e étnica, a discriminação permanecer latente mas presente naquilo que é dito e feito. O último convidado de honra na produção deste álbum foi J. Cole, conceituado rapper, participando em “LEGENDARY“, faixa na qual se introduz a construção da lenda do indíviduo que vinga e supera as suas atribulações sociais. Por fim, “AMERIKKKAN IDOL” fecha da forma como começou: com um tom contestatário em relação aos fantasmas que voltam a pairar na atualidade, e que fazem reviver os constrangimentos raciais, sem nunca esquecer o devido incentivo para não deixar esmorecer o combate em relação a estes. Um remate perfeito numa travessia que leva os sentidos numa diacronia que segue coerente até aos dias de hoje.

Joey Bada$$ transporta o carisma e a jovialidade que levaram os prodígios ao estatuto de nomes consolidados da elite do rap. Com somente dois trabalhos no seu currículo, estão dados os primeiros passos para que uma estrela incandesça sem se ir apagando. O mais recente deles traz uma dimensão social bastante proeminente, fazendo jus ao papel do rap e do hip-hop na intervenção e na construção de uma música ativa e destemida, viva e dinâmica na discussão da atualidade. A necessidade emancipativa permanece incólume e impenetrável nas entranhas deste tipo de música, levando-o a destacar-se das demais pela sua voracidade e personalidade. Desta feita, e com “ALL AMERIKKKAN BADASS“, o músico corresponde às expectativas lançadas pela atualidade, e perspetiva-se num degrau acima, cada vez mais perto de um presente augurado como futuro auditivo e interventivo.

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS

Cinema nunca deve ser afetado pelo politicamente correto, mesmo com o risco de ofender ou chocar um

Manel Cruz regressa aos palcos com “novo material e arranjos diferentes” de ca

A entrega dos prémios da 89ª edição dos Óscares, apresentada e

O romance 'The underground railroad', de Colson Whiteh