Jodi Cobb: ‘Punha a máquina em frente à cara enquanto chorava sem parar’

7 JUNHO, 2017 -

A fotojornalista norte-america já viajou por mais de 60 países, é mestre da fotografia e especialista em explorar o desconhecido. Jodi Cobb foi uma das protagonistas do National Geographic Summit, no teatro Tivoli BBVA.

Jodi Cobb foi uma das protagonistas do National Geographic Summit, no teatro Tivoli BBVA, na semana passada, em Lisboa. Subiu ao palco com um ar jovem, de roupas coloridas e óculos redondos, mas com postura de quem não acha muita graça a apresentações em público. Apesar da timidez, agitou uma plateia jovem que reagiu com “ah” e “oh” a cada fotografia partilhada pela jornalista. «O meu irmão aos quatro anos perguntou aos meus pais: ‘O que é que eu posso fazer que nunca tenha feito?’ Era um bocado pequeno para uma pergunta daquele tamanho. O certo é que se tornou o meu lema de vida», partilhou Cobb com o público em Lisboa.

Viajou por mais de 60 países, é mestre da fotografia e especialista em explorar o desconhecido. A norte americana- que viveu a sua infância no Irão -, não tem o mais sonante dos nomes no meio porque é adepta da discrição. Jodi faz por passar despercebida. Porém, o talento gritante como fotojornalista não lhe trouxe sucesso nessa tarefa de quem tenta viver em pezinhos de lã. As fotografias que tira e as histórias que conta, além de serem conhecidas internacionalmente e reconhecidas através dos mais prestigiados prémios, tornam imortal aquelas que foram outrora zonas de culturas  intocáveis e genuínas perante uma onda de globalização cada vez mais ágil e catastrófica.

Aos 12 anos, Cobb já tinha dado a volta ao mundo com os pais. Quando lhes disse que queria ser jornalista, não imaginavam que a filha iria abraçar a missão de eternizar parte da humanidade em pedaços de película fotográfica.

A jovem  – que entrou na universidade e dançou ao ritmo da cultura hippie -, fotografou os protestos pela igualdade das mulheres e capturou os bastidores dos amigos músicos,  como o hoje famoso Bruce Springsteen. Viveu o furor dos anos 60, longe de sonhar que, um dia, o seu trabalho seria enviado para o espaço, numa nave espacial chama “Voyajer”.

Ao b,i., apesar de cansada e a «sofrer os efeitos do ‘jet lag», relembra os tempos da juventude com carinho. «Não tínhamos dinheiro nenhum, aliás nós tínhamos muito pouco além da música. Tínhamos A música. Tudo o resto cabia-nos inventar. Não havia uma geração hippie anterior que pudéssemos seguir, ou que nos inspirasse determinados valor, não havia ninguém. Criámos tudo aquilo».Hoje olha para trás e aprecia 40 anos de fotografias que está a reunir num livro de retrospetivas. Entre elas, estão as da sua aventura como primeira pessoa a explorar o mundo secreto e cruel das tradições centenárias das geishas japonesas; as da revelação do místico e intocável mundo das mulheres da Arábia Saudita – a que teve acesso graças ao visto «dado pelo próprio rei em pessoa» -, ou as chocantes e arrebatadoras capturas do projeto ao qual dedicou um ano de investigação : “21st Century Slaves”, para a National Geographic.

Quando lhe perguntamos o peso de ter sido a primeira e única mulher durante algum tempo nos locais onde trabalhou, Cobb responde que foi sempre «muito óbvio» que era a única mulher. Depois de três décadas ao serviço de uma das mais famosas revistas do mundo, comenta que na maioria do tempo em que esteve na National Geographic «era a única mulher do staff», e  esteve «sempre consciente de o que é que isso implicava». Garante que os colegas foram sempre «maravilhosos e prestáveis», tanto nos dois jornais em que havia trabalhado, quanto na National Geographic. «Os problemas eram sempre mais frequentes com a direção, em  temos de igualdade salarial, igualdade de oportunidades de realizar determinados projetos, mas eu soube tirar partido do que ser mulher me poderia dar. Fui a sítios em que nenhum homem poderia alguma vez ter entrado», explica .

Embora seja difícil categorizar os vários projetos que desenvolveu, lembra o da escravidão do século XXI como «extremamente difícil»,  já que  passou «um ano inteiro à procura do mal, e a encontrá-lo todos os dias».  Sobre este trabalho, Jodi Cobb diz que não conseguia acreditar que os seres humanos «conseguiam atingir tamanho grau de frieza e maldade». «Foi um enorme choque e, quanto mais  trabalhava na história, quantas mais situações documentava, mais furiosa ficava, mais triste e desiludida. Chorei todos os dias daquele projeto», lembra. A fotojornalista desabafou sobre a dificuldade que é testemunhar alguns dos piores cenários da humanidade com uma sensação de impotência: «Eu queria ajudar cada uma das pessoas que encontrava e fotografava. Mas de que forma podia ajudá-los? Uma vez, deparei-me com uma fábrica enorme, repleta de trabalhadores que eram todos crianças. E tudo o que eu podia fazer era fotografar o que via e partilhá-lo com as 45 milhões de pessoas que liam a revista. Sei que essa era a minha missão». No entanto não era raro o peso nos ombros tornar-se demasiado: «Às vezes, ter de justificar esta ideia amorfa do ‘criar consciência’ como sendo o suficiente é demasiado difícil. Mas era tudo o que eu podia fazer». Embora este tipo de situações exija uma certa frieza, afirma que no seu caso não pode «de todo» falar em sangue frio. «Simplesmente punha a máquina em frente à cara enquanto chorava sem parar. Algumas das piores situações a que assisti  não fotografei porque não podia, ou porque me deparava com alguém num determinado cenário em que  a ajuda imediata era precisa. Aí, claro que eu intervinha. Mas de repente não podia libertar todas aquelas pessoas e tive de  lidar com isso».

Como é «natural», viajar sozinha exige imensos cuidados. Porém, todos os projetos obrigavam a que alimentasse uma forte rede de contactos e uma preparação rigorosa sobre o que poderia encontrar e a quem deveria pedir ajuda para chegar onde precisava. A experiência do confronto de culturas nunca era só de uma das partes: Cobb teve de lidar com a justiça dos olhos de quem via pela primeira vez uma mulher ocidental a viajar sozinha. Com um certo fascínio no olhar, termina a conversa com a partilha sobre o quanto a sua postura como mulher feminista e ocidental mudou ao longo do tempo. «Foi tão interessante essa experiência. Aperceber-me de que há todo um conjunto de razões na História dessas culturas para o rumo que algumas das suas tradições tomaram é fascinante. Porquê  é que as mulheres usam burca, o hijab, ou o véu? Questionava-me mas, de repente, tornou-se perfeitamente claro e compreensível para mim. No caso do hijab e do véu, as mulheres partilhavam que se sentiam protegidas, que gostavam de o usar porque fazia com que os homens não ficassem especados a olhar para elas. Havia um anonimato que lhes permitia movimentarem-se e viajarem pela vida delas sem que os outros as controlassem», explica. «Depois houve o momento em que me apercebi, pela partilha delas, que sentiam pena de mim.  Olhavam para mim e viam a minha independência como uma desistência dos conceitos de família e da proteção dos homens. Estavam sempre preocupadas com o porquê de eu viajar sozinha, o porquê de eu querer conduzir em vez de ter um motorista que me poderia levar onde eu quisesse. Por que raio haveria de querer uma coisa dessas? Se a tradição não existir com um contexto e for só uma desculpa para abusar das mulheres, devemos obviamente protestar com elas. Aí sim precisamos de ação urgente, mas é preciso saber ouvir o que as próprias mulheres têm a dizer».

Artigo de Ana Carvalho, publicado no nosso parceiro Jornal SOL
Fotografia de Diana Tinoco

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Merecia uma nota de gratidão. Aprendi muito com a sua humildade, que felizmente não a