Joaquim Vieira: ‘Balsemão contribuiu para a formação da opinião pública em Portugal’

29 AGOSTO, 2017 -

Saiu em rutura com o Expresso há anos e agora desafiaram-no a fazer uma biografia de Francisco Pinto Balsemão. Aceitou e fez um retrato de ‘corpo inteiro’.

Por que se lembrou de escrever esta biografia?

Não me lembrei, foi a editora que me convidou. Não me teria ocorrido fazer a biografia de Balsemão, mas foi-me lançado o desafio. Ainda hesitei um bocado, de certa forma, sou protagonista desta história – estive no Expresso, saí em conflito. Mas após alguma reflexão achei que poderia ter o distanciamento e a isenção necessárias para fazer a biografia.

As outras biografias que fez foram ideia sua ou também surgiram a partir de convites?

A do Mário Soares também foi proposta pela editora. A do Álvaro Cunhal, que é mais uma fotobiografia, também foi, se bem me recordo, uma proposta. O que fiz pela minha iniciativa foi uma fotobiografia do Salazar – propus ao Círculo de Leitores em 2000 ou 2001, no seguimento de um trabalho que estava a fazer, a História de Portugal do século XX através da imagem. Depois decidiram fazer 10 fotobiografias e dirigi essa coleção. Dirigi ainda mais oito fotobiografias. A partir daí, fiquei uma espécie de biógrafo encartado. As editoras como reparam nisso vão-me convidando para fazer biografias, mas não sou eu que as proponho.

Quais são as parecenças entre Balsemão, Soares e Cunhal?

Balsemão tem mais coisas parecidas com Soares do que com Cunhal. O líder comunista tinha aquela visão espartana do exercício da vida pública, enquanto Balsemão e Soares tinham uma visão mais hedonista – a política é para exercer, mas não como uma obrigação ou um dever, mas com gozo. Se não der gozo, não vale a pena exercer a política. Além disso, tinham uma tolerância e um espírito de abertura que Cunhal não tinha, era muito mais inflexível em tudo. Soares e Balsemão também partilhavam o sentido da negociação do compromisso. Isso é um elemento muito importante para chegarem a acordo para a revisão constitucional de 1982, que é o contributo mais importante que Balsemão dá à política em toda a sua carreira. Esta revisão abre o caminho para a organização do Estado português como um estado moderno, numa Europa comunitária. Se essa revisão constitucional não tivesse ocorrido, Portugal não tinha condições para entrar na União Europeia.

E ambos se dedicavam aos prazeres da vida…

Isso todos têm, o Cunhal também tinha. Se esmiuçarmos, arranjamos sempre histórias que fogem um bocado àquilo que é a visão convencional do casamento. O Cunhal nunca se casou, mas separou-se da mãe da filha para ir viver com a cunhada, uma história que foi escondida no meio do partido durante muito tempo, mas que acabou por vir a público. Balsemão namorou com a futura cunhada antes de casar com a irmã dela. Ou seja, ambos tiveram relações com duas irmãs.

Nesta biografia, o que vamos ficar a saber sobre Balsemão que ainda não sabíamos?

Além da vida profissional, são abordados aspetos da vida privada. Quando faço uma biografia faço um retrato de corpo inteiro, escrevo sobre tudo e não falo apenas sobre a vida pública. Balsemão tinha um estilo playboy, teve relações com inúmeras mulheres dentro e fora do casamento. Um amigo dele disse-me que Balsemão não é uma pessoa imoral, mas sim ‘amoral’, que não tem moral. Nas relações com as mulheres não havia limites. Mas a história mais complicada e que mais o afeta é a do filho que nasceu fora do casamento, que ele enjeitou. Primeiro quis que a mulher abortasse, mandou-a para a Suíça com as coisas todas pagas, mas ela não fez o aborto e voltou a Portugal para ter a criança. Ele ainda quis que ela fosse a Londres fazer o aborto e colocou a hipótese de arranjar uma médica para o fazer em Portugal, mas ela quis ter o filho. Esta mulher ainda tinha uma relação familiar com o Balsemão, eram primos em segundo ou terceiro grau. Ela teve o filho e Balsemão não quis que dissesse que era filho dele, não quis que ele se chamasse Francisco, fez uma grande pressão e negou sempre que fosse filho dele. Meteu o caso em tribunal e foi perdendo: perdeu primeiro no tribunal de menores, depois na 1.ª instância, depois na Relação, depois recorreu para o Supremo e perdeu. No Supremo ainda recorreu para o Pleno do Supremo. Este processo demorou cerca de sete anos.

A sentença do Supremo é muito posterior ao 25 de Abril, embora se tenha iniciado antes deste momento. É condenado e obrigado a aceitar a paternidade, mas só vê o filho pela primeira vez quando ele tem 17 ou 18 anos.

Como foi o primeiro encontro?

Escrevo sobre isso, mas não sei pormenores. Sei que a conciliação foi instigada pela Tita [mulher de Balsemão] e que acabou por existir um bom ambiente familiar – o rapaz passou a fazer parte do seio familiar [mais tarde viria a ser administrador do grupo Impresa].

Não existe muito a tradição das biografias em Portugal. Acha que será bem recebida?

Quando escrevi a de Mário Soares ele ficou zangado comigo, telefonou-me a insultar-me praticamente, a perguntar se eu não sabia que ele era um homem casado. Isto é como as biografias dos reis e das rainhas, as biografias também falam dos amores vividos. A diferença é que ele não foi um rei, mas um Presidente.

Estamos a falar de figuras públicas e estas, sobretudo quando tiveram cargos notórios, estão sujeitas a um grau de escrutínio que quem não exerceu esses cargos não tem. É o que acontece também no jornalismo – a própria jurisprudência quando recebe queixas por invasão da vida íntima de figuras públicas por parte de jornalistas, esses processos esbarram nos tribunais dos direitos do Homem, porque a jurisprudência vai no sentido de dar o direito à opinião pública de conhecer esses aspetos mais privados das figuras públicas. E aqui é o mesmo caso. Esta situação está amplamente documentada nos tribunais, está lá tudo escrito, incluindo o facto de ele querer que a mulher com quem teve uma relação abortasse. Está até documentado que ele arranjou outros homens para tentar provar que ela era promíscua e que o rapaz podia ser filho de outro – na altura não havia testes de ADN, por isso não se podia provar cientificamente a paternidade. Sabe-se também que Francisco Sá Carneiro foi testemunha de defesa de Balsemão e foi a tribunal depor.

Nesta biografia fala sobre as mulheres de Balsemão?

Não me refiro a elas em particular, acho que estaria a expor demais estas pessoas. Embora ele seja uma figura pública, elas continuam a ter direito à sua vida íntima. A não ser que tenham sido casos públicos, não faz sentido estar a mencionar nomes. Falo sobre as secretárias, o Balsemão era especialista em secretárias.

Mas quando fala em secretárias está a colocar todas em causa…

Estão todas sob suspeição, mas não acho que tenham sido todas (risos).

Após o lançamento do livro, está preparado para um processo?

Porquê? Não vejo razão para isso. O livro foi lido pelos advogados da editora e não encontraram matéria que pudesse levar a isso. Na altura houve coisas que vieram a público. Houve até uma notícia sobre uma secretária que era para ser publicada no Tal & Qual.

Como foi a infância e a adolescência de Balsemão?

Era um menino bem, vem de uma família rica, estava num liceu de famílias mais ou menos bem do ponto de vista material, no Pedro Nunes, em Lisboa. A certa altura, entraram naquele liceu pessoas que vinham do Gil Vicente, que pertenciam a outro meio social. Falei com alguns desses antigos alunos, que me disseram que havia uma distinção de classes, uma certa casta não assumida.

Era uma pessoa que, desde muito cedo, gostava de ir para a praia do Tamariz meter-se com as jovens estrangeiras. Quando foi para a Faculdade de Direito, era dos poucos que ia de carro para as aulas. Antes de ter carro teve uma scooter, com a qual sofreu um acidente e, por causa disso, esteve preso durante um dia.

Porquê?

Porque provavelmente foi considerado culpado do acidente e foi detido. Aquilo meteu advogados e a prisão foi considerada ilegal e foi solto no fim desse mesmo dia. O acidente ocorreu em frente ao Hospital de São José, perto do local onde era a Faculdade de Direito naquela altura. Ia ele e um amigo à pendura.

O que o surpreendeu mais no início de vida de Balsemão?

A transformação que ele faz a partir da esfera salazarista, muito conservadora, para uma área mais liberal. Essa evolução dá-se a partir dos anos 60. Tem muito a ver com a sua passagem no Diário Popular. Ele não era o diretor, mas na prática era como se fosse, era ele que dirigia o jornal, e por isso tinha uma luta diária com a censura. Além disso, convivia com jornalistas que eram da oposição, que partilhavam novos pontos de vista. Creio que isso terá sido muito importante para a sua evolução.

Depois aceitou o desafio de Marcelo Caetano: pertencer a um grupo que procurava fazer com que o regime evoluísse para algo democrático.

A primeira namorada teve importância na vida de Balsemão?

Foi Helena Vaz da Silva, uma mulher com quem, segundo um amigo da altura, teve uma relação que não durou muito tempo. O Balsemão mais tarde dirá, sem dizer o nome da pessoa, que teve uma namorada que contribuiu um pouco para o início da formação da consciência política dele. Eu presumo que se estivesse a referir a ela. No entanto, acho que a consciência política apareceu muito mais tarde.

Essa consciência surge em que altura?

Ele passou pela tropa, foi para a Força Aérea e torna-se ajudante do Kaúlza de Arriaga, que era coronel na altura, secretário de Estado da Aeronáutica, e era um salazarista convicto. Quando está na Força Aérea torna-se chefe de redação do jornal que funciona ao serviço dos interesses daquela instituição. Isto acontece quando começa a guerra colonial em Angola e eram publicados textos totalmente a favor do regime. Depois de sair da Força Aérea, faz um estágio em advocacia com outro grande apoiante do regime, que foi seu professor em Direito, Pedro Soares Martinez. Só depois é que vai para o Diário Popular, onde se dá uma grande transformação.

E nessa altura começa a defender a abertura do regime?

Ele era pouco interventivo. Só depois é que Marcello Caetano o convida para deputado. Ele estava no Diário Popular e o Marcello estava consciente de que era importante ter apoios nos media. Ele achava que o Balsemão podia apoiar a política que defendia. Marcello encarrega o Melo e Castro de criar a lista daquilo que mais tarde deu origem à Ala Liberal. Quando a lista foi apresentada a Marcello, este propôs mais dois nomes: o de Balsemão e o de Mota Amaral. Era importante ter o apoio da comunicação social, mas a verdade é que, nessa altura, Marcello Caetano enganou-se, porque Balsemão acabou por virar-se contra ele.

Em 1973 forma o Expresso, mais um sinal de oposição.

Sim, muito forte. Até porque o Expresso tem uma luta constante contra a censura e o Marcello fica furioso com a abordagem do jornal. Ao ter criado o Expresso – e mais tarde a SIC –, Balsemão ganha um papel muito importante na história dos media. São dois órgãos de informação fundamentais. Por estas vias, Balsemão contribui para a formação da opinião pública em Portugal, que era uma coisa que não existia: as pessoas viviam em carneirada, não tinham pensamento próprio, e o Expresso contribuiu muito para acabar com isso, daí ter tido muito sucesso na altura. Mais do que as expectativas que o próprio Balsemão tinha.

Com a SIC aconteceu a mesma coisa: na altura, a opinião era condicionada pela RTP. [A criação da estação privada] acaba por estar relacionada com a ideia de ‘libertação da sociedade civil’, uma expressão que Balsemão estava sempre a usar.

E o que acontece após o 25 de Abril?

Balsemão não tem um grande papel. Não sei se é por causa disso, mas ele está muito envolvido no processo de paternidade e acaba por assumir um certo low profile. Ele está envolvido no lançamento do PPD, futuro PSD, mas o líder é claramente Sá Carneiro. Mesmo quando há contestações internas, ele nunca ambicionou assumir a liderança. Chegou a subscrever as Opções Inadiáveis,  um grupo de oposição a Sá Carneiro, que contava com Sousa Franco e Magalhães Mota. No entanto, ao fim de dois meses, não sei que volta lhe deram mas acabou por sair.

As Opções Inadiáveis, que começou por ser só uma contestação interna às políticas de Sá Carneiro, tornou-se a partir de certa altura mesmo um grupo – tinham mais de metade do grupo parlamentar do PSD. Acabaram por dar origem à ASDI – Ação Social Democrata Independente – e concorreram às eleições de 80 contra Sá Carneiro em aliança com Mário Soares – chamava-se Frente Republicana e Socialista. Balsemão conseguiu tirar o cavalinho da chuva, ficou muito discretamente ao lado de Sá Carneiro e quando este ganhou as primeiras eleições com a coligação AD (Aliança Democrática), em 1979, pôs Balsemão no Governo.

Ele tinha uma legitimidade histórica, era um dos três fundadores do partido, em 74. Sá Carneiro decidiu ir buscá-lo porque, como Ângelo Correia lhe disse, essa união era importante: ‘Você tem ali pelo menos uns 7% de votos de Cascais, Estoril até Lisboa. Isso pode fazer a diferença para ganhar as eleições’. Sá Carneiro foi mesmo buscá-lo, mas Balsemão não estava muito satisfeito. Esteve no único Governo de Sá Carneiro, mas houve eleições no fim desse ano – as eleições tinham sido intercalares e, ao fim de um ano, tinha sempre de haver as gerais – e, nessa altura, Balsemão disse que não queria ficar no Governo, queria dedicar-se outra vez ao Expresso.

O Joaquim Vieira entrou no jornal nessa altura?

Entrei quando ele era primeiro-ministro, em 1981.

Como é a ascensão de Balsemão a primeiro-ministro?

Foi um acaso histórico. Ele não estava talhado para ser primeiro-ministro. Sá Carneiro morre no acidente de Camarate e Balsemão é o número 2 do PSD. O número 2 do Governo era Freitas do Amaral, só que este último dirigia o partido minoritário da coligação AD, por isso coloca-se a questão de quem deveria suceder a Sá Carneiro. Faria sentido que fosse o líder do partido maioritário. Balsemão ascende assim a líder do PSD e torna-se automaticamente primeiro-ministro.

Como avalia o seu papel como primeiro-ministro?

O mais importante foi mesmo a revisão constitucional. E esta nem sequer compete ao primeiro-ministro, mas sim aos líderes partidários – a revisão constitucional deve ser feita no Parlamento, mas a verdade é que aquilo foi combinado. Houve ligações partidárias e Balsemão participou nas negociações com Mário Soares e Freitas do Amaral. No fundo, são eles que fazem a revisão.

Como primeiro-ministro, penso que se diria que se tratou de um governo de gestão. Não foi um governo muito complicado, não trouxe grandes problemas. Criou um ambiente do ponto de vista financeiro e económico, que é certo que já vinha do tempo de Sá Carneiro, que levou ao resgate financeiro do FMI com o Governo do Bloco Central.

Há quem diga que Balsemão teve um papel muito importante ao ir buscar os portugueses que estavam no Brasil para investirem em Portugal.

Mas ainda não se podia investir nessa altura. Balsemão quis abrir a economia ao investimento privado, mas teve dificuldade em fazê-lo porque existia uma lei de delimitação dos setores público e privado. Ele quis alterá-la, mas essa alteração não passava no Conselho da Revolução (formado por militares), nem no Presidente da República (Eanes). Essa lei só é alterada mais tarde, após a revisão constitucional, mas Balsemão sai pouco tempo depois disso. Na prática, esse investimento só veio mais tarde.

Teve discussões com Balsemão enquanto primeiro-ministro por causa do Expresso?

Não, mas sei quem teve – o Augusto Carvalho (antigo diretor-adjunto). Marcelo Rebelo de Sousa fica como diretor do Expresso durante o primeiro Governo de Balsemão, mas esta decisão acaba por ser terrível: Marcelo publica coisas que não agradam, faz críticas e acaba por surgir uma instabilidade dentro do Governo. Ainda em 1981, seis ou sete meses depois de o Governo ter tomado posse, Balsemão demite-se. Faz uma jogada à Sá Carneiro – queria mais condições, queria acabar com a contestação interna no PSD e queria carta branca para formar um Governo mais forte. Mas Sá Carneiro é Sá Carneiro, Balsemão é Balsemão. São personalidades completamente diferentes e a confusão continuou. Assim, nessa altura, foi buscar Marcelo. Ele achava que Marcelo era menos perigoso dentro do Governo do que como diretor do Expresso.

Regressando aos problemas…

Pegando nessa questão do Marcelo: o Augusto Carvalho fica como diretor interino a partir do momento em que Marcelo é chamado para o Governo. A certa altura, é chamado à presidência do Conselho de Ministros. Na reunião estavam Balsemão e Marcelo. Balsemão começa a descarregar no Augusto, dizendo que o Expresso estava a publicar o que se passava dentro do Conselho de Ministros, mostrando que tinha informações privilegiadas. Balsemão queria que Augusto dissesse quem é que lhe dava a informação e o então diretor respondia ‘mas quando era diretor dizia que o Expresso tinha de ser sempre independente e agora está a ir contra os seus próprios princípios…’. A certa altura, Balsemão é chamado pela secretária para atender um telefonema urgente e Marcelo, que está sozinho com o Augusto, diz ‘Oh Augustinho, ainda bem que você não disse que sou eu que dou as informações. Você não diga nada!’.

Balsemão é um jornalista com ambições políticas ou um político que viu no jornalismo um meio?

Acho que é mais jornalista do que político. Ele torna-se político um bocado por acaso. Não acho que existisse uma ambição política quer antes quer depois dos 25 de abril. Claro que depois não se pode ser político a meio tempo, ele teve de assumir o papel. A verdade é que o Expresso é um projeto político de contestação à ditadura – não esquecer que o PPD sai de dentro do Expresso. É no gabinete de Balsemão que o PPD é fundado, com telefonemas para Sá Carneiro, que estava no Porto, a discutir programa, ideias, nome do partido. O Expresso nessa altura era mais uma sede política do que um jornal. Depois havia lá uns jornalistas que eram figuras decorativas. O fundamental era passar certos recados políticos, certas notícias e as pessoas compravam o Expresso mais pelo noticiário político. Mas, apesar disso, Balsemão sempre quis ficar na segunda linha, nunca quis atirar-se para a liderança de nada. Ele aparece como líder em virtude de circunstâncias que não foram criadas por ele.

Depois da política, como foi o regresso ao Expresso?

Muito pacífico. Houve alguma hesitação em relação ao seu regresso enquanto diretor do jornal. Tinha o caminho aberto para isso, mas achava que não fazia sentido voltar. Balsemão era amigo do Aga Khan e pediu-lhe conselhos. ‘Não volte ao sítio onde já foi feliz’, disse-lhe. Mas Balsemão tinha uma costela jornalística muito forte, deve ter sido um sacrifício muito grande tomar essa decisão

O que se segue?

A criação da SIC e a formação do grupo Impresa.

Como vê agora o estado do grupo?

É quase uma história de ascensão e queda. O grupo estava com uma dívida muito grande e não estava a ter a rentabilidade necessária. É uma situação que não será nada fácil de resolver, tendo em conta o quadro geral dos media, por causa  da crise que os meios convencionais vivem graças ao digital, o acesso livre aos conteúdos, o Facebook, etc. E quanto maior é o grupo, maior o problema. O grupo tem estado em crise praticamente todo o século XXI, as várias vagas de reestruturações e despedimentos que já houve ilustram isso – a partir de certa altura, Balsemão passou a enviar cartas internas aos trabalhadores que já davam sinais muito preocupantes.

O que correu mal?

O problema aqui está na grande teimosia de Balsemão, que queria manter o grupo centrado no núcleo familiar. Penso que isso foi a grande asneira. Foi por isso, aliás, que Pedro Norton saiu do grupo – queria que Balsemão arranjasse um grupo estratégico europeu, mas tinha de ceder a maioria. Balsemão queria controlar tudo – despesas, o que se recebe ou não recebe, o que paga aos filhos… Não há nenhum parceiro estratégico que aceite pôr dinheiro e que depois não controle. Tem de haver pelo menos uma partilha. Balsemão teve oportunidade de fazer uma divisão 50/50 com a TV Globo e mesmo assim, à última hora, recuou, não quis ceder o controlo.

A questão da traição de Nuno Vasconcelos (presidente da Ongoing e afilhado de Balsemão) e Ricardo Salgado (Grupo Espírito Santo) é abordada no livro?

Sim, falo bastante disso.

Como reagiu Balsemão ao aperceber-se dessa traição, já que ambos eram seus amigos e queriam controlar a Impresa?

Não faço ideia como reagiu, mas deve ter sido complicado. Quiseram tomar conta daquilo. Entretanto surgem as investigações judiciais e há escutas de Ricardo Salgado, nas quais este fala com o Zeinal Bava sobre as negociações que o Bava fazia com o Balsemão por causa da plataforma de televisão por cabo. O Ricardo Salgado achincalhava um bocado o Balsemão. Mais tarde, Vasconcelos manda um SMS a Balsemão a dizer que gostava de se encontrar com ele, ao que Balsemão responde dizendo que nunca mais o quer ver.

Acha que Balsemão também não o vai querer ver mais depois da publicação do livro?

Não faço ideia. A verdade é que já não nos víamos antes (risos). Mas não faço mesmo ideia de como irá reagir.

Não receia que as pessoas digam que este livro é uma vingança por ter saído do grupo?

Admito que há quem diga isso, mas na introdução do livro explico que achei que estava em condições para fazer a biografia de forma isenta. E nem acho que o livro seja muito crítico. Quanto a mim, o livro enaltece aquilo que Balsemão fez de positivo do ponto de vista político e na história dos media. E aponta também os problemas, como a criação da SIC e 40% do capital que teve de ir buscar ao estrangeiro, com recurso a um testa-de-ferro. Mas isso é tudo factual, está tudo documentado.

40% do dinheiro por detrás da criação da SIC entrou com recurso a um testa-de-ferro?

Sim, 40% do capital para criar a SIC teve de vir de fora de Portugal com recurso a um testa-de-ferro, que era um amigo de infância, Luís Correia de Sá. A lei só permitia que os órgãos de comunicação na altura tivessem 10% de capital estrangeiro. E Balsemão com 10% não ia a lado nenhum, não tinha dinheiro para a SIC. Esse Correia de Sá tinha estatuto de emigrante, explorava o catering de plataformas petrolíferas em vários pontos do mundo, principalmente em Angola. Isso dava-lhe o estatuto de emigrante, estava registado em Luanda. E os emigrantes, para poder facilitar a captação de capitais, podiam ter depósitos em divisas cá dentro e o Banco de Portugal não inquiria de onde vinha o dinheiro.

Balsemão combina que o grupo Pallas (um grupo de investimento internacional) dava o dinheiro ao amigo. E assim aparece Luís Correia de Sá com uma empresa em nome dele, a LCS, com os 40% na SIC. E até há uma comunicado interno do Balsemão a dizer que a partir do dia seguinte o seu amigo de infância ia entrar com 40% na empresa.

Mas a história acaba por tornar-se complicada: Luís Correia de Sá ganhou muito pouco com isto, uns 110 ou 115 mil euros, mas aparece na lista dos homens mais ricos de Portugal feita pela revista Fortuna. Afinal, é um dos homens por detrás da criação da SIC. Correia de Sá estava num processo de divórcio da mulher, que era belga e tinha ido para Bruxelas com as duas filhas. Ela viu a revista e avançou com um processo no tribunal de Bruxelas para ficar com metade de uma fortuna que ele não tinha. Correia de Sá perde o processo e hoje em dia está completamente falido, na miséria.

Balsemão não o ajudou?

Que eu saiba não.

Considera que Balsemão foi o maior empresário na comunicação social portuguesa?

A título singular foi, não estou a ver outro com quem se possa comparar. Não há um grupo tão grande quanto este e não há órgãos de comunicação que tenham tido um peso tão grande na história recente. Tínhamos de ir ao século XIX, à fundação do Diário de Notícias, do Século, para encontrar algo que se assemelhasse.

Por que cultivava a figura de homem austero, que só tinha três ou quatro fatos?

Porque é um bocado aquilo que ele é. É uma pessoa poupada. É uma coisa que tem a ver, se calhar, com o ambiente familiar em que cresceu. Há quem diga que ele não é avarento, mas sim um bom administrador. Mas há aqui uma característica de uma certa austeridade relativa. Disseram-me que vai comemorar os 80 anos numa hamburgueria (risos).

Com quantas pessoas falou para fazer este livro?

Cerca de 60 pessoas. Consultei bastantes arquivos e Balsemão deu-me autorização para consultar todo o tipo de documentos que necessitassem da sua autorização, como a ficha da PIDE, a ficha militar, as notas do liceu e da faculdade.

Acha que este livro vai ter sucesso?

Não faço ideia. Balsemão não é uma figura muito popular na sociedade portuguesa. O sucesso que poderá ter estará relacionado eventualmente com a curiosidade que as pessoas têm em relação às histórias que não conhecem.

Acha que Balsemão já leu o livro?

Não deve ter lido, dizem que está de férias no Algarve e o livro foi entregue na quarta-feira no escritório dele. A não ser que alguém subrepticiamente lhe tenha feito chegar o PDF…

Acha que Balsemão vai perder tudo?

Não sei se vai perder tudo, mas está numa situação muito complicada.Se ele pudesse ficar apenas com uma coisa não ficava com a SIC, ficava com o Expresso. A SIC tinha de ser vendida a um grupo internacional qualquer ou à NOS, que poderia contra atacar a Altice (que comprou a TVI). Mas já ouvi dizer que a NOS não vai avançar por causa da grande dívida da Impresa.

Futuros projetos? Uma biografia de Proença de Carvalho?

A de Balsemão ainda fiz porque me convidaram, mas mesmo que me convidassem, não havia razão nenhuma para fazer a biografia do Proença de Carvalho (risos).

Marcelo Rebelo de Sousa?

Já foi feita, pelo Vítor Matos. Não há muito a acrescentar, a não ser a fase após ter sido eleito Presidente da República.

E José Sócrates?

Essa é uma história que merece ser contada, mas não numa biografia (risos).

Entrevista de Joana Marques Alves e Vítor Rainho, publicada pelo nosso parceiro jornal SOL

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