João Pardal Monteiro: “Em Lisboa temos boa arquitetura de todas as épocas”

29 JUNHO, 2017 -

Membro de uma verdadeira dinastia de arquitetos, o presidente da Faculdade de Arquitetura da Ajuda fala sobre o ensino desta disciplina em Portugal, a importância de desenhar à mão e o que aprendeu com os mestres. 

Sobrinho-neto de Porfírio Pardal Monteiro e filho também de um arquiteto ilustre, João Pardal Monteiro assumiu a presidência da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa há pouco mais de dois anos. Encontrou as finanças da escola num estado calamitoso e as próprias instalações degradadas, algo que tentou corrigir no seu primeiro mandato.

Antes de a conversa ter início no seu gabinete, faz-nos uma breve visita guiada pelo campus da Ajuda. Trata-se de um complexo amplo, arejado, com árvores no exterior e com uma bela vista para o Tejo.

Embora seja época de exames, há estudantes nas salas de aula e até nas oficinas, que ocupam uma nave ampla equipada com toda a maquinaria necessária para os alunos desenvolverem os seus projetos.

Quando se candidatou apresentou alguma espécie de programa?

Apresentei. Mas posso contar-lhe a história. Candidatei-me um bocadinho por acaso. Tínhamos uma lista que se chamava a ‘Terceira Via’, porque havia duas listas muito fortes que se alternavam no poder há muitos anos. Eu nunca tinha tido nenhum cargo na faculdade além de professor. Um dia um colega telefona-me para casa, já eu estava deitado. ‘Vamos propor-te para presidente’. Julguei que era para presidente do Conselho de Escola, um órgão que não ocupa muito tempo, e respondi: ‘Está bem’. No dia seguinte, ele diz-me: ‘Tu aceitaste ser candidato a presidente’. ‘Eu?!’. Acabei por aceitar mas não estava convencido de que ia ganhar.

Essas duas listas correspondiam a visões diferentes da arquitetura?

Também. Mas sobretudo é a questão do poder, da influência e da política interna, por isso é que nunca me atraiu.

Se havia essas duas listas fortes, como acabou por venceu a eleição?

Presunção e água benta cada qual toma a que quer, mas penso que houve duas razões fortes. Uma é que tenho 30 anos de faculdade e quase toda a gente me conhece – esse aspeto jogava muito a meu favor. Os alunos também elegem o presidente, tive o voto dos alunos e dos funcionários – e isso ajudou. Ao mesmo tempo era uma cara diferente das que tinham andado por cá.

Quais foram as suas prioridades quando foi eleito?

Os primeiros dois anos de mandato foram muito dedicados a reorganizar a faculdade, pôr as coisas a funcionar bem, porque havia muita coisa que não funcionava.

Pode dar-me exemplos de coisas que não funcionassem e passaram a funcionar?

Não queria falar muito nisso, mas a parte financeira era um desastre completo. O gestor financeiro tinha deixado isto chegar a um estado bastante gravoso, em termos de dívidas, por exemplo. A escola estava degradada, suja. Ainda não está toda pintada, mas vai estar. Como costumo dizer, já não mete água por tudo quanto era lado.

Metia mesmo?

Tudo.

Uma vez resolvida essa parte, que outros objetivos tem para o segundo mandato?

Na parte de reorganização estamos a incentivar a internacionalização da faculdade. Dentro da Universidade de Lisboa estamos em primeiro ou segundo lugar na percentagem de alunos estrangeiros – e não é só Erasmus. Somos quem recebe mais alunos de fora e quem manda mais alunos para fora, o que nos dá uma ligação bastante boa à Europa. Muitos dos nossos alunos acabam o curso e vão para o estrangeiro, porque já ficam com ligações, o que é ótimo em termos de perspetiva de vida. Concorremos muito a concursos internacionais, e com bons resultados. Isso tem muito a ver com a maneira como os professores encaram a faculdade. Isto é quase um sacerdócio. Se for ver, a esta hora [19h] a faculdade ainda está cheia de professores e alunos a trabalhar. As pessoas empenham-se. Há alunos que nestas alturas de exame passam cá os dias, vão a casa dormir, tomar banho e pouco mais. Costumo dizer que nesta faculdade não se chumba – ou se é bom aluno ou se desiste.

Mas as médias de entrada também são altas…

Não. As médias de entrada já foram muito altas, mas têm descido.

Qual foi a nota de entrada mais baixa em Arquitetura no ano passado?

12. Noutro anos chegámos a ter médias de entrada de 18 e 19, estávamos ao nível da Medicina. Os alunos piores iam para as privadas porque não entravam nesta.

Com uma média de 16 ou 17 não se pode dizer que seja mau aluno!

Não gosto de dizer os alunos piores porque eu próprio não teria entrado na faculdade com essas médias. Mas à medida que foi começando a haver menos alunos, as médias foram descendo progressivamente. Chegaram a existir no 1.º ano 23 turmas, na Lusíada e mais algumas na Lusófona. Hoje na Faculdade temos oito a dez turmas de alunos de 1.º ano.

Disse que tinham muitos alunos estrangeiros. Isso não rouba lugar aos portugueses?

Os alunos estrangeiros vêm quase sempre numa fase mais avançada. 80% entram ao terceiro, quarto ou quinto ano. Sobrecarregam um bocadinho essas turmas, mas têm pouca expressão ao nível das entradas.

Eles dizem se o ensino da arquitetura aqui na universidade é mais ou menos exigente, melhor ou pior do que nos seus países?

Outro dia estiveram cá duas turmas de alunos belgas. Juntámo-los no anfiteatro e em vez de eu me pôr a discursar convidámos alunos que dominassem bem o francês para falar. ‘Aqui passamos pelas salas e podemos falar com as pessoas sobre o trabalho que elas estão a fazer. E nunca fazemos uma pergunta a que os professores não nos respondam diretamente’. Claro que isto tem o reverso da medalha, que é um grau de exigência muito grande. Sentem-se mais acompanhados, mas depois também lhes exigem muito mais trabalho. Às vezes cai-se no exagero na quantidade de trabalho que os alunos têm de fazer. Mas os alunos que nos visitam é raro não gostarem de cá estar e os nossos que vão para Erasmus quando vêm apreciam mais a faculdade. Há um espírito nesta faculdade, que aliás se vê por aquela ‘bandalheira’ nas salas, com maquetes espalhadas. Há pequenos exageros mas que fazem parte. No meu tempo íamos às aulas e seguíamos para casa ou para os ateliês trabalhar. Estes habituam-se a trabalhar cá.

Os alunos que terminam o curso têm boa aceitação no estrangeiro?

Os portugueses têm bastante prestígio. Com estas relações do Erasmus, e não só, há uma certa facilidade em irem trabalhar para fora.

Como é que um arquiteto se adapta à era do computador e do AutoCAD?

Isso é fácil. O computador e o AutoCAD são ferramentas. O meu pai – que já faleceu – tinha 60 e muitos anos quando o computador entrou no ateliê. E rapidamente aprendeu a trabalhar com o AutoCAD.

Os arquitetos hoje ainda precisam de saber desenhar à mão?

Acho que é essencial. E no ensino obrigamos os alunos a pensar pelo desenho. Não só pelo desenho do computador, é muito importante que aprendam a desenhar à mão. A meu ver não é proibi-los de desenhar a computador – é mostrar-lhes as vantagens de desenhar à mão.

Que são quais?

Não sou capaz de fazer um projeto sem antes o esquissar à mão. A rapidez com que transmito uma ideia – mesmo que o desenho não seja brilhante – não tem nada a ver com a do computador. Estou a fazer uma planta para estudar o programa de um edifício e depois faço o esboço de uma perspetivazinha no canto do papel – isso é algo que o computador não nos dá, porque desde logo tem um rigor que é desnecessário. Costumo dizer que se começarmos pelo lápis fininho – que é o computador – e não pelo grosso estamos a saltar etapas.

É possível fazer um projeto de arquitetura sem usar computador?

Acho que sim. É uma questão de tempo. O computador tem um grave defeito, que é tirar-nos o tempo para pensar. Desenha-se tão depressa que aquele tempo que se tinha para pensar sobre as coisas se perdeu. É raro, mas há arquitetos que continuam a desenhar os projetos à mão. Não me parece que sejam as ferramentas que fazem o bom ou o mau edifício, é muito mais a cabeça que vai gerir o projeto, porque o projeto tem uma cabeça a gerir e muita gente a trabalhar.

O arquiteto é como o realizador de um filme?

Aquela ideia do arquiteto sozinho a fazer o seu projeto é uma coisa idílica e que na prática não se passa. Não conheço nenhum bom arquiteto que trabalhe sozinho. Esta não é de modo nenhum uma profissão solitária.

Num artigo que escreveu para o Público fazia referência à Aula de Arquitetura dos Paços da Ribeira no século XVI. Sabemos alguma coisa sobre como era o ensino da arquitetura naquela época?

Alguma coisa. O ensino da arquitetura naquela época era feito pelos mestres, uma aprendizagem muito direta, muito ligada à prática da profissão. Hoje o arquiteto tem de ter uma formação mais holística. Por um lado técnica – se não tiver uma boa formação técnica não consegue fazer aquilo que quer – mas tem de ter uma formação humanística e artística muito fortes.

Teve algum mestre que lhe passasse o saber?

Comecei a minha vida profissional a trabalhar com o Daciano da Costa, mais na área do design, da arquitetura de interiores. Quando comecei tinha 21. E aprendi muito com ele. Pelo ateliê do Daciano passava muita gente – muitos arquitetos, uns mais marcantes do que outros, e esses arquitetos influenciavam muito o ambiente. Foi muito rico para mim ter lá trabalhado.

Tal como nos ateliês dos artistas os aprendizes começavam por preparar as telas ou as tintas para os mestres, nos ateliês de arquitetura também se começava pelas tarefas mais simples?

Quando eu entrei o Daciano dizia: ‘Tu começas pela vassoura’. Claro que a vassoura era simbólica [risos]. Ainda me lembro do primeiro desenho que comecei a fazer lá.

Era um desenho de quê?

Um arranjo de interiores de um aparthotel na Madeira. Como projeto não tinha nada de especial, mas o que marca um jovem de 20 anos é começar a trabalhar e ter os colegas mais velhos à volta a dizer-lhe: ‘Faz assim, não faças assado’. E aquilo ia saindo. Estive no ateliê do Daciano a tempo inteiro durante quase dois anos, a seguir ao 25 de Abril, enquanto a faculdade esteve fechada. E posso dizer que quando a faculdade reabriu estava cheio de vontade de completar a minha formação. Sentia que o curso estava a fazer-me falta. Acho que nunca fui tão bom aluno como nesses anos, exatamente por causa disso: estava completamente focado no curso, com a certeza de que queria exatamente aquilo.

Há a ideia de que os jovens que vão trabalhar para os ateliês são quase escravos que ficam só com a parte chata do trabalho. 

O trabalho chato já foi mais chato do que é hoje. Lembro-me de estar a desenhar uma fachada de um edifício na Almirante Reis que tinha para aí 100 metros de comprido. Aquilo era só repetir a mesma coisa, depois se me enganava raspava tudo, fazia outra vez. Com o computador o trabalho está muito facilitado. No ateliê é preferível ter alguém que pensa pela sua cabeça e que vai propondo soluções do que alguém que só faz o que lhe mandam. Claro que em arquitetura há trabalhos mais chatos, mas não me parece que haja trabalho escravo. A não ser que me fale dos ateliês que não pagam aos estagiários.

Também há muito?

Há. Posso dizer que nunca tive no meu ateliê um estagiário a quem não pagasse e não acho que se deva fazer, até porque isso degrada o próprio mercado da arquitetura. Se eu estou a pagar às pessoas que lá tenho e há quem tenha pessoas a trabalhar de graça obviamente é uma concorrência desleal. A Ordem tem esse problema presente e está a tentar resolvê-lo.

Há pouco falou sobre o seu pai. O que era ele em relação ao arquiteto Porfírio Pardal Monteiro?

Era sobrinho. O meu pai trabalhou muitos anos com o Porfírio e quando o Porfírio morreu foi ele que deu seguimento ao ateliê.

Ele não tinha filhos?

Tinha um filho engenheiro civil que trabalhou quase até morrer com o meu pai.

Vê essas sucessivas gerações como uma dinastia?

Quando já tinha terminado o curso fui trabalhar com o meu pai. Com certeza que é muito bom para um jovem arquiteto ter ateliê montado, e é muito bom estar a trabalhar com um arquiteto que tem trabalho – nem todos têm essa sorte. Hoje muitos dos arquitetos que saem das faculdades têm de ir fazer outras coisas… Mas posso dizer que 80% dos projetos que tive foram ganhos por concurso.

Não estava a perguntar em relação ao facto de o apelido poder ser um bom cartão-de-visita. Estava a referir-me mesmo a uma certa propensão familiar para seguir esta profissão.

A profissão de arquiteto é muito absorvente. Quase vivemos para a arquitetura. E isso vai condicionar os nossos filhos. Uma parte das minhas férias é a viajar e a ver edifícios. Os miúdos vão comigo desde pequeninos, como eu ia com o meu pai. Corri a Europa toda com o meu pai. Aos 14 anos estava a ver os castelos do Loire todos. E também vi muita arquitetura moderna. O que condicionou o Porfírio a tirar arquitetura? O pai dele, meu bisavô, era canteiro, e na altura os arquitetos iam às pedreiras escolher as pedras. Havia dois arquitetos que iam lá muito: o Ventura Terra e o José Luís Monteiro, o autor da estação do Rossio. O Ventura Terra era muito amigo do meu bisavô, que o tratava por Sr. Terra. Na casa que o meu bisavô mandou fazer em Lisboa, que foi o Porfírio que desenhou, havia uma secretária enorme que tinha sido oferecida pelo Sr. Terra.

Essa casa ainda existe?

Existe. É um primor de desenho, do mais modernista que há, porque esse meu bisavô era uma pessoa muito austera, não queria grandes floreados. Então a casa é de uma simplicidade enorme e deveria ser, quanto a mim, classificada. Mas temos tendência para classificar só as peças mais fulgurantes. É uma pena, está abandonada.

Existem na família objetos pessoais do Porfírio?

Fiz uma exposição sobre ele aqui há dois anos e vi-me um bocadinho aflito para arranjar objetos pessoais. Encontrei uns óculos que tinham sido dele, partidos, estavam para lá caídos para o ateliê, os tira-linhas da altura, mas o património do arquiteto é muito mais o desenho e a obra feita do que outra coisa qualquer.

A cidade de Lisboa está muito na moda. Para um arquiteto é uma cidade onde se vê boa arquitetura?

Para mim é. A arquitetura de Lisboa, no geral, é boa. Está algo estragada nalguns sítios, a que hoje não damos grande importância, provavelmente daqui a uns anos daremos. Mas há boas peças.

Nomeadamente recentes?

De todas as épocas. Há boa arquitetura de todas as épocas. E, se reparar, uma grande parte dos arquitetos de Lisboa mais conhecidos passou por esta escola. O Manuel Aires Mateus – que não é professor cá, por muito que eu o tenha convidado – é um arquiteto formado nesta escola. O João Luís Carrilho da Graça, nosso professor no primeiro ano, é um arquiteto formado na nossa escola. O Gonçalo Byrne… não vou dizer todos que nunca mais acabava. Para não falar nos mais antigos, Manuel Tainha e o próprio Manuel Salgado são da nossa escola. O que não quer dizer que não tenha imenso orgulho nos arquitetos do Porto.

Não há rivalidade?

Já sabia que ia fazer essa pergunta! Não, não há rivalidade nenhuma, antes pelo contrário. Posso dizer que, em 2016, fomos nós que propusemos o arquiteto Souto Moura para prémio ibérico de carreira.

E ganhou?

Ganhou. As rivalidades não trazem nada de bom nem às faculdades nem à arquitetura do país.

Mas uma certa competição pode ser saudável.

Sim. Mas as nossas escolas são bem diferentes. Nós temos 2600 alunos e ser uma escola grande não tem só desvantagens. A nossa escola é muito cosmopolita: é uma escola do mundo, não é só uma escola portuguesa.

Entrevista de José Cabrita Saraiva, publicada no nosso parceiro jornal i
Fotografia de Diana Tinoco

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