João Monteiro: ‘O cinema nasce do sonho e esse sonho não está morto’

25 JULHO, 2017 -

Falámos com o jovem realizador João Monteiro sobre a sua curta-metragem “REINO” (ver no fim do artigo), que foi produzida pela A Severa Filmes, produtora do próprio cineasta português. Para além de todo o caminho percorrido para a sedimentação e preparação deste filme, João Monteiro também nos falou do seu novo projecto “The Illusion of Motion Pictures”, um vídeo-ensaio sobre os filmes do Underground Film Studio e com estreia marcada para amanhã, dia 27 de Julho, no seu site.

Como surgiu a ideia do Reino?

A ideia do REINO inundou-me numa fase de transição. Transições que presenciei nestes últimos dois anos. Mudanças que me fizeram questionar inúmeras possibilidades algo existencialistas, fundamentalmente na existência de um Deus e, subsequentemente, de um Diabo. Duas figuras que influenciam constantemente o meu caminho como um ser humano. A ideia do filme transformou-se rapidamente numa necessidade quase obsessiva em analisar a necessidade extraordinária que a civilização humana tem em se sustentar no conceito de fé para cumprir determinadas regras morais exigidas pela sociedade e para não se deixar levar pelas tentações luxuosas do que é considerado, por ela, imoral e incorrecto. O filme surge fundamentalmente em ideais que debatem a dualidade espiritual, o pecado, o milagre e a oposição sociológica entre os conceitos de bem e os de mal.

O filme começa com uma mensagem meio enigmática: “Na época desses reis, o Deus dos céus, estabelecerá um novo reino que jamais será destruído. Esse novo reino destruirá e exterminará todos esses reinos, e subsistirá para todo o sempre.” (David 2:44). Que época é essa e que reis são esses?

É importante referir que essa mensagem foi retirada do antigo testamento bíblico, testamento que descreve a civilização humana antes, durante e após a vida de Jesus Cristo o salvador dos homens segundo a religião cristã. Um antigo testamento que também salienta vigorosamente a necessidade que o homem tem em recorrer a uma voz às palavras silenciosas de Deus.

Penso que não seria relevante referir historicamente as personagens bíblicas apresentadas neste testamento de David mas sim a sua importância conceptual referente à narrativa do filme. Podemos assim concluir que esta mensagem é altamente subjugada aos tempos modernos e que ela serve de mote para o percurso espiritual, fisico e quase apocalíptico traçado à personagem principal do REINO.

O que te levou a fazer um filme com tanta carga religiosa?

O conceito de religião é a meu ver o fenómeno mais intrigante na evolução da raça humana e, sendo impossível para mim, abordar todas as religiões já existentes na terra num só filme, decidi focar-me na religião que eu conheço melhor e que de facto move mais pessoas em todo o mundo: o cristianismo. A religião serviu durante quase toda a existência da humanidade como um serviço algo educativo. Com a utilização de ícones, símbolos e ideais esculpidos pelas diferentes religiosidades, o homem conseguiu não só criar asas culturais inerentes ao seu povo, como também claras diferenças entre o que é bom ou mau para essas mesmas culturas. A noção entre o bem e o mal é consequente pura e simplesmente da religião que a mesma região, país ou continente adoptou. Se eu queria criar uma narrativa sobre esta dualidade espiritual, penso que utilizar a religião cristã como a espinha dorsal do meu filme seria obrigatório.

Acreditas na existência de Deus?

Acredito na existência do pensamento infinito e na evolução eterna. Ideais que produzem os conceptualismos que nos definem como homens. Acredito que Deus vive nestes ideais. Nesta matéria, no ar, na terra, no mar e no fogo.

A personagem principal do filme, interpretada por Eloy Monteiro e que não tem nome, é uma personagem-tipo? Ou seja, é representativa do próprio ser humano como pecador, uma vez que acaba na cruz como Jesus, o filho de Deus.

A personagem do REINO não é nada mais que um alvo existencial e prático dos conceitos já referidos acima. Posso dizer que ela, a meu ver, não é uma representação lógica do ser humano, mas sim, um ensaio do que ele se pode tornar quando enfrentado por um desejo avassalador e desumano em contactar Deus. A meu ver, o julgamento na cruz é um alvo simbólico da traição de Deus perante os homens. Esta personagem não ama verdadeiramente Deus e não respeita o seu silêncio. Talvez aí possamos ligar essa falta de amor por Deus à sociedade moderna. Uma sociedade que utiliza esta figura divina de uma forma pretensiosa, oportunista e pouco genuína.

A paleta de cores do filme e os próprios planos fazem lembrar o La Notte do Michelangelo Antonioni ou até El Cant Dels Ocells do Albert Serra. Existe essa referência?

Admito que o embrião estético do REINO nasceu de uma absorção de um lote quase infinito de referências. Referências não só cinematográficas, mas também pictóricas e literárias. Nestas referências estéticas, posso salientar a trilogia do silêncio de Ingmar Bergman, o filme  “Andrei Rublev” de Andrei Tarkovsky, vários filmes do Novo Cinema Português e os primeiros filmes do realizador dinamarquês Carl T. Dreyer como os meus maiores aliados.

A escolha do preto e branco já estava pensada ou a dada altura pensaste que fazia mais sentido?

Essa pergunta é bastante interessante, principalmente pela importância que a utilização do preto e branco tem na narrativa do filme. Todas as ideias iniciais foram esculpidas numa paleta monocromática, quase como se eu fosse destinado a utilizá-la quando o REINO fosse produzido. Todo o filme foi filmado em preto e branco, e sem a utilização de luz artificial. Esta é uma opção técnica que realça todo o propósito da minha produtora, “A Severa Filmes”, em fazer cinema que contradiz os altos orçamentos impostos pela indústria contemporânea cinematográfica. Ao esculpir um mundo monocromático ausente de cor, consegui salientar o vazio psicológico vivenciado pela personagem. Penso que a utilização de cores neste filme iria descartar qualquer aproximação ao objectivo narrativo que eu decidi construir.

E a direcção de actores como é que funcionou, como encontraste o Eloy e como foi trabalhar com ele?

Conheci o Eloy Monteiro em 2015 na produção de um outro filme. Desde aí que fortaleci uma grande relação de amizade com ele, relação que foi determinante para a construção do REINO. Durante os 3 meses em que escrevi o argumento do filme, tive sempre em mente o Eloy como a figura física que o deveria interpretar. Após várias reuniões com ele, o argumento foi finalmente concluído quase como em trabalho de equipa. Esta conectividade criativa permitiu-me a mim e ao Eloy orquestrar este filme de uma forma altamente natural e algo íntima. Mais do que ninguém, ele sabia onde eu queria chegar.

Reino abriu-te portas? Agora, em 2017, já com algum distanciamento da estreia do filme ainda sentes orgulho do resultado do teu trabalho ou mudavas alguma coisa?

O REINO foi para mim uma prova que é de facto possível fazer-se cinema com baixos orçamentos. Consegui esculpir uma obra onde a determinação e o gosto de fazer arte venceu a mão monetária interligada ao cinema contemporâneo. Com menos de 250€, consegui financiar o filme e distribuí-lo por 4 países. Essa foi a minha vitória. O filme também foi decisivo para a validação da minha produtora, “A Severa Filmes”. Um ano depois, posso dizer que não mudaria muitas coisas, porque todos os erros são tão ou mais importantes como as coisas acertadas que fazemos. Penso que, nos meus próximos projectos, essa maturidade estará implícita de uma forma natural.

Quais são agora os teus projectos para o futuro?

Com o lançamento do website da minha produtora no mês passado, foi-me finalmente cedida uma plataforma onde posso, de facto, distribuir e partilhar novos projectos por toda a web. Entre estes, encontram-se novas curtas-metragens de baixo orçamento, experiências no cinema documental, e também uma série de magazines. Todos estes novos trabalhos irão ser lançados ao longo do ano, começando com o meu mais recente projecto, o video-essay: “The Illusion of Motion Pictures“. Este filme de cariz documental analisa o processo criativo da dupla fundadora da produtora “The Underground Film Studio”. Esta dupla, formada pelos realizadores Daniel Fawcett e Clara Pais, é responsável pela existência de um lote extraordinário de trabalhos, entre eles, a magazine “Film Panic” e a longa metragem “The Kingdom of Shadows”.

Vejo na Clara e no Daniel duas pessoas que, tal como eu, vivem com uma necessidade transcendente de fazer cinema que contradiz todo os dogmas criativos impostos à indústria artística. Para nós, a arte sofre uma crise altamente profunda e, para a combater, temos de utilizar todas as ferramentas, ideias e métodos ao nosso alcance. O cinema tornou-se o nosso maior aliado. Neste filme, pretendo, não só explorar detalhadamente o esqueleto criativo dos filmes realizados pelo par, como também salientar o quão importante é existir uma união entre todos os artistas para combater esta crise artística.

Deixo um apelo a todos os jovens realizadores e criadores que querem fazer arte em Portugal: o cinema nasce do sonho e esse sonho não está morto. É possível fazer-se cinema no nosso país e, apesar de todos os obstáculos que nos são colocados, nós devemos sempre prevalecer e nunca ceder ao medo e à desistência. Devemos lutar pela arte, pela cultura e, principalmente, pelo nosso cinema. O sonho ainda não morreu, ele está entre nós. Nós somos o sonho.

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