João Ferreira: ‘O ser patriota é diferente do ser nacionalista’

6 JUNHO, 2017 -

Considera que o embate com a União Europeia é inevitável e que as margens de governar diferente estão a estreitar-se.

João Ferreira é um dos principais rostos do PCP. É atualmente eurodeputado, vereador na Câmara de Lisboa e candidato da CDU a esta câmara. A conversa foi longa, e mais do que a atual candidatura do comunista abordou o seu percurso e trabalho, e a avaliação que faz do atual governo e da possibilidade que ele tem de sobreviver a um confronto “inevitável”, para o entrevistado, com as instituições europeias e Berlim.

Quando é que acordou e deu por si a pensar “eu sou comunista”?

Aos 16 anos, quando entrei na JCP [Juventude Comunista Portuguesa]. Decidi um dia que queria entrar na JCP. Fui procurar na lista telefónica a morada e fui à Sousa Martins. Foi a partir daí.

E porque decidiu ir ao número 8 da Sousa Martins?

Chegando à conclusão de que me revia nessa condição de comunista, o que tinha sentido era juntar-me a outros que se reviam igualmente nessa condição, para juntos fazermos o que um comunista deve fazer, que é transformar o mundo.

Foi mais complicado optar por ser biólogo?

Não. Foi igualmente simples. Mas isso foi mais tarde. Primeiro fui comunista e depois biólogo.

O que o atraía na biologia?

Atraia-me mais a ciência. E, dentro das ciências, as ciências naturais. A biologia resultou um bocado disso. Era para mim evidente que iria para uma área de ciências, dentro delas, as ciências naturais, e a biologia surgiu desde cedo como uma área das que mais me interessavam, até pelo que faz a outras ciências.

E dentro da biologia, quais eram as suas preferências?

Tudo. Na altura, na Faculdade de Ciências havia cinco cursos de Biologia com opções diversas. E eu escolhi o ramo científico, que era um ramo onde era possível, em parte, construir o nosso curso, e optei por compor um curso que cobriu praticamente todas as áreas da biologia, da molecular à ecologia. Aliás, eu acabo o curso e começo a trabalhar em biologia molecular, bioquímica, e acabo a fazer um doutoramento, que não concluí, em Ecologia.

Vai para bolseiro de investigação científica no quadro do doutoramento?

Acabei o curso e tenho a minha primeira bolsa no último ano, a que corresponde o estágio. Tive a sorte de ainda antes de terminar o curso já ter um salário – não era propriamente um salário, era uma bolsa, mas permitiu-me viver, trabalhando em biologia, durante dez anos. Tive a bolsa do estágio, depois outra do Jardim Botânico e só ano e meio ou dois anos depois é que inicio o doutoramento na Faculdade de Ciências. Depois saí da faculdade e comecei a trabalhar numa empresa privada de estudos em ambiente. E aí acabou a minha vida de bolseiro, que ainda durou seis anos.

Depois desse trabalho que fez em ecologia, acha que o aquecimento global é uma questão fundamental na nossa época?

Eu preferiria falar não só em aquecimento global mas em alterações globais, que passam pelo clima, mas passam também pelas alterações no uso do solo ou fragmentação de habitats, pela utilização insustentável de recursos esgotáveis. É este padrão de alterações globais, mais do que a questão apenas do aquecimento global, que nos deve preocupar. Mesmo no domínio das alterações climáticas, hoje é consensual que a expressão das alterações em termos da subida da temperatura média é redutora. Há um conjunto de outras alterações e consequências associadas, como a ocorrência de fenómenos climáticos extremos com maior frequência, que não se esgotam na subida da temperatura.

A gravidade dessas alterações, começando pelas climáticas, não coloca na ordem do dia a necessidade de uma profunda mudança social?

É evidente que sim. Este padrão de alterações globais é indissociável do modo de produção existente: o capitalismo. E se é certo que o socialismo não é, por si só, garante para resolver estes problemas e encontrar uma relação harmoniosa entre o homem e a natureza, eu diria que, sem o socialismo, essa resolução será impossível. É uma condição necessária, embora não suficiente, encontrar um novo modo de organização da sociedade que permita a relação harmoniosa e sustentável entre o homem e a natureza.

É depois presidente da ABIC (Associação dos Bolseiros de Investigação Científica). 

Como sócio-fundador e depois como presidente.

Perante a situação atual na investigação científica, acha que o atual governo fez inversão nas políticas do governo PSD/CDS nessa área? 

As políticas são demasiado parecidas e corre-se o risco de frustrar as justas expetativas que muitos acalentaram quando da derrota do anterior governo. Isto não é um problema que tenha surgido com o anterior governo. O problema da precariedade com a investigação científica vem de há muito. Anteriores governos PS têm um papel destacado nesse processo de precarização do trabalho científico. O problema agravou-se, como em muitas outras áreas, com o governo PSD/CDS, e aquilo que se espera é que seja possível, no quadro da atual solução política, dar resposta às justas expetativas desses jovens trabalhadores científicos.

O trabalho deste governo não está aquém até de outros governos do PS? No mandato de Mariano Gago houve precarização do trabalho, mas houve um grande aumento no trabalho de investigação.

Eu diria que durante o ministério de Mariano Gago se deu um impulso tremendo para a precarização do trabalho científico nas instituições públicas. É verdade que houve um impulso aprofundado na formação avançada de recursos humanos, houve um incremento muito grande no número de doutorados, nos número de pós-docs. Mas muito pouco foi feito no sentido da incrementação das carreiras docentes e de investigador. Houve defesa assumida – foi um período que vivi com muita proximidade porque tinha responsabilidades na ABIC, era Mariano Gago ministro, e o atual ministro, Manuel Heitor, era secretário de Estado da Ciência e Tecnologia –, em que se fez muito pelo aumento da precariedade dos trabalhadores científicos, entre os quais os investigadores. Há um aumento das bolsas que esconde relações de trabalho subordinadas que deviam ter um contrato, e não uma bolsa. Houve muitas bolsas de doutoramento, mas houve outras de investigação científica e para técnicos científicos, para esconder relações de trabalho, que deviam ser enquadradas num contrato de trabalho. Na prática, eram bolseiros que não deviam ser bolseiros. O problema vem daí. Isso resulta de uma certa visão de que a carreira científica deve ter a precariedade como algo que lhe é inerente.

Não é importante que se respeite aquilo que são os rácios de publicação de artigos e que haja uma permanente avaliação do trabalho científico?

É importante em qualquer outra carreira que existam formas de avaliação justas do desempenho. Mas a ideia aqui não foi essa, a ideia foi pura e simplesmente acabar com a ideia de uma carreira. Uma carreira não é uma sucessão de bolsas. O problema é estar em causa a ideia de uma carreira na investigação científica. Para ser justo, não quero que se fique com ideia de que isto nasceu com Mariano Gago e Manuel Heitor: um secretário de Estado de Durão Barroso, cujo nome não me ocorre, dizia claramente que “os investigadores precisavam do aguilhão da precariedade”, dito desta forma. Esta situação tem de ser alterada.

Quando é eleito para o Parlamento Europeu, qual é a sua primeira reação?

Aparece-me como algo muito diferente de tudo aquilo que tinha feito até então, um ambiente muito hostil e muito orientado para a direita. Uma das imagens que retenho e que me causou um certo impacto foi entrar no parlamento e ver os deputados do CDS sentados quase ao meio do hemiciclo – o que já diz da orientação política e ideológica prevalecente naquele parlamento. E depois foi a necessidade de abarcar, com apenas dois deputados na altura, muito o que se discutia, até porque chego lá depois do Tratado de Lisboa, em que o Parlamento Europeu ganha poder legislativo em muitas áreas. Há a necessidade de acompanhar essa imensidão de trabalho com os quadros que lá estão. Foram tempos de uma enorme exigência para atender a áreas muito diversas.

É possível fazer política naquele parlamento, no sentido de inverter políticas, ou aquilo é uma máquina de triturar qualquer veleidade nesse sentido?

Aquilo é uma máquina que procura triturar qualquer veleidade nesse sentido. Mas é possível e nós procuramos fazê-lo na nossa ação. Nunca perdemos uma perspetiva de uma ligação muito forte à situação nacional. Sempre tentámos que a agenda do Parlamento Europeu e da Comissão Europeia determinasse a nossa própria agenda. Houve margem para levar ao parlamento e ter iniciativas em áreas que achamos importantes. E conseguir levar a informação de lá para cá, em assuntos que lá estavam a ser discutidos, e que exigiam a informação e a mobilização social, geralmente, para os combater. E isso, nalgumas ocasiões, produziu resultados. Tudo o que teve a ver, antes de eu estar no parlamento, com a Diretiva Bolkestein, que pretendia liberalizar ainda mais o trabalho nos serviços, e que foi travada graças à luta que se travou em Portugal e noutros países. Ou a Diretiva do Tempo de Trabalho, de 2009, que previa em determinadas circunstâncias que se pudesse trabalhar 70 horas por semana – isso também foi travado.
Há uma ligação histórica entre ecologia e socialismo, mas também a formação do movimento operário teve um grande incremento na agitação revolucionária na Europa em 1848, na mesma época em que se formam grande parte dos Estados-nação.

Como se vê o PCP nessa dualidade, ser um partido do movimento operário, dizendo-se internacionalista proletário, e simultaneamente afirmando-se patriota?

Esse equilíbrio é assumido pelo PCP desde a sua fundação. Na história do PCP, com quase um século de vida, essa sempre foi uma questão adquirida: é possível ser-se patriota e ser simultaneamente internacionalista. O ser patriota é diferente do ser nacionalista, porque é uma afirmação de uma identidade e partilha com um povo, mas que não se ergue contra outros povos. Encontra na relação com outros povos uma forma de realização.
Mas o sujeito histórico que faz a transformação social deixa de ser a classe operária e passa a ser o povo?
Não. É uma questão das etapas históricas dessa transformação. A construção da sociedade nova pela qual nos batemos admite etapas. Seguramente, atos radicais de transformação, mas também períodos em que se possa alargar a unidade com outros setores sociais que permitam ganhar força para outros processos mais súbitos e radicais de transformação.

Colocando a questão no quadro da chamada política de alianças nesta etapa: o PCP identifica-se mais com a classe operária de outros países ou com certos setores da burguesia nacional?

O PCP identifica-se com a classe operária de todos os países e reconhece nela esse papel-motor da transformação. O que não invalida que, nas circunstâncias concretas do nosso país neste período histórico, não convirjam outros setores sociais com os interesses da classe operária, nesta etapa. E que não possam até convergir com os interesses da classe operária alguns setores da burguesia. O desenvolvimento do capitalismo, também em Portugal, faz com que haja uma divisão social cada vez mais acentuada: num polo, a grande burguesia, e, no outro, a maior parte das restantes camadas da população, classe operária, camadas intermédias e assalariadas e alguns setores da pequena burguesia que tendem a aproximar-se objetivamente, nas suas condições de vida, da classe operária. Apesar de nem sempre essa condição material ser acompanhada de uma tomada de consciência do facto, há uma convergência objetiva, que nós procuramos que seja também subjetiva, destes setores e camadas com a classe operária.

Como vê situações de crescimento da votação em partidos xenófobos e racistas e situações, como no Brexit, em que regiões industriais que eram baluartes do Partido Trabalhista votaram pela saída da UE, numa campanha dirigida pelo Brexit de direita, enquanto populações mais jovens, escoceses e gente de esquerda votam remain? 

Acho que as razões do Brexit são diversas. As motivações são várias. Os milhões que votaram pela saída não são todos eles uma cambada de racistas e xenófobos. A dado passo é inquestionável que argumentos dessa natureza tiveram um peso importante, mas houve desde sempre argumentos a favor de um Brexit pela esquerda.

Como se faz um cordão sanitário entre o nacionalismo racista e xenófobo, mas que apela a um certo sentimento nacional, e aquilo que o PCP determina como “patrióticos de esquerda”. Como é possível que um discurso não alimente o outro?

De uma forma muito simples: patriotismo, ao contrário de nacionalismo, não é feito contra outros povos. Pelo contrário, busca estabelecer e aprofundar as relações com outros povos. Há, ao contrário de certas teorizações, maiores proximidades entre a extrema-direita e os ditos liberais, conservadores, democratas cristãos e sociais liberais do que há com as forças progressistas de esquerda, os comunistas e a extrema-direita – quanto mais não seja porque essas forças todas defendem o mesmo tipo de organização da sociedade que é o capitalismo. As suas diferenças baseiam–se apenas nos setores da classe dominante que defendem. Existem contradições no seio das classes dominantes, mas todos defendem por vias diversas a mesma forma de organização social.

Um aspeto que faz a diferença em relação à extrema-direita é a forma como se vê quem tem direitos políticos, sociais e culturais. O PCP é favorável a que os imigrantes que aqui vivem e trabalham tenham todos esses direitos?

Como é evidente. E é um exemplo que desmonta essas teses que procuram fazer equivaler posições entre o PCP e a extrema-direita. O PCP luta para que os imigrantes tenham todos os direitos económicos, sociais, culturais e políticos que têm todos os outros trabalhadores.

Sobre o princípio constitucional da autodeterminação, como veem a questão da Catalunha e do País Basco?

Nós revemo-nos no princípio constitucional por inteiro. Sem me referir em particular a esses dois casos, direi que os povos têm o direito à sua autodeterminação.

No Parlamento Europeu, o PCP está com o Bloco de Esquerda no GUE. Como vê o Podemos e o Syriza?

É verdade que há no Grupo da Esquerda Europeia- Verde Nórdica (GUE) uma grande diversidade. Isso não impede que cada partido tenha as suas posições próprias. É um grupo confederal que permite a cada partido poder sustentar posições divergentes de outros partidos do GUE. Algumas vezes, o PCP toma posições que não são coincidentes com a maioria do grupo. Essa diversidade traduz a pluralidade dos processos históricos e políticos nos diferentes países. Nós compreendemos essa diversidade. É possível desenvolver, mesmo com partidos que têm diferentes opiniões, um trabalho conjunto. Não sei se vale a pena particularizar partido a partido.

Não é diferente o trabalho conjunto que possam fazer com o Syriza ou com o Podemos?

É verdade que, concretamente com o Syriza, tendo em conta a experiência concreta deste partido no governo da Grécia, há muitas questões que nos afastam radicalmente relativamente à UE, relativamente a aspetos fundamentais do processo de integração. A opção do governo grego, de sujeição à UE, resultou naquilo que nos é dado a ver na Grécia. Nós defendemos a necessidade de haver uma rutura com as imposições da UE.

Como vê o aparecimento do Podemos?

Parece-me que resulta do estreitamento da base dos partidos que tradicionalmente têm assegurado a alternância no governo em Espanha. Esse estreitamento, se encaminhado para projetos de esquerda consequentes e transformadores, pode ser positivo.

O Podemos pode fazer parte desses projetos “consequentes e transformadores”?

O Podemos é uma formação recente que, mesmo internamente, está em processo de decisão e discussão sobre o seu posicionamento. Não é absolutamente claro que caminho seguirá, mas podemos dizer que, pelo posicionamento que tem sido tomado por eles, por exemplo no Parlamento Europeu, há diferenças em relação ao que tem sido o posicionamento da social–democracia tradicional. Não creio que se possa dizer que são a mesma coisa.

Recentemente, depois do G7 e a cimeira da NATO, a chanceler Angela Merkel afirmou que a Europa não poderia confiar da mesma forma nos EUA e precisava de fazer valer as suas forças. Jornais como o “Financial Times” afirmam que é previsível um reforço do federalismo europeu, através de mecanismos de mutualização da dívida e de um orçamento que sustente o euro, em troca de um maior controlo político dos países da UE. O que pensa disso?

É o caminho que se desenha desde a resposta à crise. Esse caminho apostou sempre numa maior centralização do poder no seio das instâncias europeias e das potências que as controlam. Nós já caminhamos nesse sentido. Agora, aquilo que se pretende é levar mais longe esse caminho, avançar na maior centralização do poder que é necessária no sentido da imposição de políticas cada vez mais férreas para os diversos países.

Mas a perspetiva de mutualização da dívida e de ter um orçamento que colmate os impactos negativos da moeda única em países como Portugal não é uma mudança de orientação?

A evolução da zona euro chegou a um ponto de pré-rutura que era antecipável e natural na intrínseca dinâmica de divergência que lhe era subjacente. Quem ganhou com este caminho tudo fará para salvaguardar este instrumento de domínio. A implosão não servirá os seus interesses. Se há um náufrago a afogar-se pode interessar, pelo menos, deitar-lhe uma boia. Isso não significa colocá-lo dentro do barco. Aquilo que se está a falar, e não é sequer de agora, é de adotar os instrumentos imprescindíveis para salvaguardar esse instrumento de domínio da grande burguesia da Alemanha e das potências que defendem os seus interesses. A implosão não interessa.

Não vê a possibilidade de democratização da UE?

As propostas que têm sido aventadas, e eu vou referir-me a duas a mutualização da dívida e o orçamento da zona euro – podem ter declinações diversas. Uma, que é defendida pela social-democracia, é, a partir de um certo nível de desemprego, um apoio europeu aos subsídios de desemprego. De que é que estamos a falar? De conformarmo-nos com uma divergência intrínseca dentro da zona euro, conformarmo-nos com um papel de periferia dependente, níveis de empobrecimento, desemprego e dependência elevados desde que, a partir de determinados valores, se arranje um mecanismozinho de subsidiar o apoio aos de-sempregados.

A proposta de Macron de uma política fiscal comum não tinha a vantagem de acabar com os dumpings fiscais e com os paraísos fiscais, tipo Holanda, na UE?

Por si só, a equiparação fiscal não garante isso. Podem ser 27 Holandas. E convenhamos: a dinâmica da UE não tem sido para defender os interesses das classes trabalhadoras, tem sido no sentido de defender os interesses do capital. E quando falamos numa harmonização fiscal há algumas boas almas que acreditam que, de repente, a UE ia passar fazer aquilo que nunca fez na sua história, que é defender os trabalhadores. E se calhar, no entender dessas pessoas, passava a taxar devidamente o capital. Não nos parece realista poder supor isso. Independentemente disso, já se fala de harmonização fiscal há muito tempo e nada acontece. Mas queria dizer outra coisa: para contestar a dinâmica intrínseca de divergência é preciso contestar a própria união monetária e o euro. Não se pode servir a dois amos ao mesmo tempo: ou a moeda serve países com a estrutura produtiva da Alemanha ou serve países como os do sul da Europa, como Portugal.

Mas o orçamento não é para colmatar esse problema?

Mas deixe-me desenvolver: ou uma moeda se ajusta às características da economia portuguesa, o que nunca sucedeu ou sucederá, ou se ajusta às características da economia alemã, como sucedeu ou sempre sucederá. Depois há as boas almas que dizem que isso não terá problema desde que se arranje um mecanismozinho de mitigação que colmate alguns prejuízos, como este apoio aos subsídios de desemprego, que significa que nos conformamos com taxas de desemprego permanentes e muito elevadas desde que entrámos no euro.

A desconexão não tem custos enormes?

Já vou a essa parte, mas não quero deixar de responder à questão da mutualização da dívida. Talvez não se lembrem, mas a mutualização da dívida já esteve em cima da mesa por proposta da chanceler alemã. Houve uma proposta de Durão Barroso, que tinha o visto prévio de Angela Merkel, que chegou a ser discutida no Parlamento Europeu. Tinha duas pequenas particularidades: mutualizava-se a dívida, mas depois admitia duas soluções – ou se arranjava um mecanismo de indemnização por via do qual os países com prémio mais elevado iam depois compensar os países de prémio menos elevado; ou então a dívida mutualiza-se mas, depois, o prémio de risco seria dado em função da perceção de risco que têm os mercados em relação a cada país. Ficava tudo na mesma. Isso caiu. Mas não será extraordinário que Angela Merkel volte a pegar nessa proposta. Em relação ao orçamento de que se fala para o euro, os estudos indicam que jamais seria possível atingir um valor significativo, atingir 10 ou 11% do PIB para a zona euro.

O euro é mau, mas sair do euro numa conjuntura de empobrecimento na austeridade e falta de força política para a negociação não pode ser um desastre?

Quanto à saída do euro, que é uma medida que o PCP tem colocado em cima da mesa, nós nunca iludimos que um processo de saída tem custos, o que se deve fazer é contrapor esses custos aos de uma permanência, porque essa tem custos, do nosso ponto de vista, insuportáveis para o país. E se é verdade que não podemos admitir que a generalidade do povo português, depois de um processo de empobrecimento devido ao euro e à austeridade, ainda tivesse de sofrer um novo processo de empobrecimento e ficasse com rendimentos ainda mais degradados. Defendemos uma saída em que os custos não sejam pagos pelos mesmos que pagaram os custos da entrada.

Há condições políticas para garantir isso?

Não é uma saída sem condições. É uma saída planeada, para reduzir custos e aumentar benefícios, a defesa firme dos nível de vida e das poupanças dos trabalhadores, o respeito pela vontade da maioria da população.

Mas se nós não conseguimos impor condições dignas quando estamos na UE e na moeda única, como é que as conseguimos numa saída?

Há três grandes problemas que o país enfrenta que se relacionam: a questão do euro, a questão da banca e a questão da dívida. A saída que nós defendemos tem de abordar estes três problemas na sua interdependência. É evidente que um processo de recuperação da soberania monetária do país tem de envolver um controlo público da banca porque, de resto, fora do euro ou dentro dele, terá de ser feito, até porque vimos o que significou o domínio privado do setor financeiro; tem de se juntar também com o enfrentamento da questão da dívida que, de todas as maneiras, teria de ser enfrentada dentro ou fora do euro. Aquilo que a experiência, nomeadamente a grega, demonstra é que uma reestruturação da dívida dentro do euro não é viável. Mais uma razão para encararmos essas três questões juntas.

Implica uma saída da UE?

Não necessariamente. Melhor dito: não ponto final. Não é uma questão que esteja na mesa. É uma situação normal estar na UE e não estar no euro. Há nove países que não estão no euro e estão na UE. Na sua maioria, esses países não estão na moeda única não porque não cumprem os critérios dela, mas porque escolheram não estar. Tirando dois ou três casos, quem não está não quer estar. Percebe-se porquê: os países que estão fora do euro têm um maior crescimento e a crise bateu menos a esses do que àqueles que estão na zona euro e, dentro dela, bateu mais aos países da periferia. O argumento de alguns que procuram associar uma coisa à outra não tem qualquer razão. E revela uma total falta de argumentação para defender a permanência no euro. Quem defende a permanência no euro não tem outros argumentos sem ser agigantar os papões, nomeadamente o da saída da UE.

Que balanço faz da decisão do PCP, em conjunto com o BE, de apoiar um governo do PS popularmente apelidado de “geringonça”?

O aspeto primeiro e mais positivo que tem de integrar este balanço: é a derrota do governo do PSD/CDS. Foi esta solução política que permitiu que, hoje, PSD e CDS não estejam no governo a levar as privatizações até ao fim da linha e a cortar nas funções sociais do Estado, nomeadamente na saúde, na educação e na segurança social, mais ainda do que tinham feito. Há outros aspetos positivos, que foi o início da devolução de rendimentos e de direitos, que é ainda – e isso também tem de constar de um balanço – manifestamente insuficiente. Não recuperámos tudo o que de mal foi feito pelo anterior governo, e isso é o mínimo que se exige. Não recuperámos ainda no plano das leis laborais, das condições de vida, da fiscalidade e dos serviços públicos e funções sociais do Estado.

Quando Schäuble diz que Centeno é uma espécie de Ronaldo do ECOFIN, está a fazer ironia ou está agradado com a performance do governo português?

Admito que possa haver alguma ironia ou até provocação, mas é um facto que o governo português, na sua ação, assumiu por inteiro o conjunto de imposições e constrangimentos que a UE impõe a Portugal.

Mas há um tom diferente?

Não podemos falar de uma rutura e é uma rutura que se impõe. Houve um início de um caminho de devolução de direitos e rendimentos, um caminho que ainda não foi totalmente feito e que é necessário percorrer. Mas aquilo que temos a constatar é que o prosseguimento desse caminho choca com as imposições e constrangimentos impostos por Schäuble e pela UE.

Isso, o PCP e o BE já diziam. Mas, apesar desses constrangimentos, esse caminho mostrou-se mais possível?

Acho que o caminho está a estreitar-se. Não deve ser a conjugação circunstancial de fatores favoráveis, do ponto de vista internacional, que desvaneceram a perspetiva do choque que nos pode fazer esquecer que esse choque é inevitável. Como dizia o Kassovitz [realizador do filme de culto “O Ódio”]: “Até agora, tudo vai bem, mas o importante na queda não é a queda, mas a aterragem.”

Perante isso, o apoio do PCP é para a legislatura ou pode quebrar a qualquer momento? 

Depende do governo do PS. Se o governo for fiel à posição conjunta que assumiu com o PCP, e que está longe de ser cumprida, há condições para isso. Se isso não acontecer, a coisa poderá ser diferente.

Porque é que o PCP nunca articula as suas posições com o BE? Têm posições comuns na maioria dos casos, podiam pressionar o PS. 

Há um trabalho a nível da Assembleia da República com os partidos. As diferentes posições conjuntas mostram que há pontos de partida e perspetivas distintas entre todos.

Tanto o PCP como o BE colocam a questão do entrave da UE como fundamental. Não têm, no mais importante, mais consensos entre eles do que com o PS?

Sem ignorar diferenças importantes, diria que isso é relativamente claro.

Há um site chamado Que Fazer, supostamente de militantes do PCP, que compara a posição da direção do PCP com a das correntes renovadoras que saíram do partido. Há divergências no PCP a este respeito?

Não conheço o site. Acho que o xx Congresso do PCP demonstrou que há, no coletivo partidário, um consenso muito amplo sobre aquilo que foi feito depois das legislativas e das iniciativas que o PCP tomou, e foi o PCP que as tomou, para abrir caminho à atual solução governativa, e, de uma forma mais geral, sobre a análise que é feita da situação internacional e nacional e do caminho necessário para a sua transformação.

Candidata-se à Câmara Municipal de Lisboa. Presumo que não concorde com a gestão da câmara do PS. Quais são as divergências? 

A gestão do PS confronta, em aspetos essenciais, aquilo que achamos que deve ser o caminho para Lisboa. como seja a habitação, o desenvolvimento económico da cidade, os transporte públicos e a mobilidade, as empresas municipais, as políticas culturais e do desporto. São uma evidência as dificuldades que existem em Lisboa em relação à habitação. Tornou–se incomportável viver em Lisboa. Isso resulta das políticas do governo anterior e da alteração da lei das rendas, na qual Assunção Cristas teve particular responsabilidade, mas resulta também daquilo que têm sido as opções da atual maioria camarária, como nas políticas de licenciamento. Há uma opção mais de base que está expressa no PDM, como a liberalização dos usos do solo, uma revisão feita pelo PS com o PSD. A gestão do PS tende a colocar no mercado o exclusivo do desenvolvimento da cidade. Tem expressões negativas, como no turismo.

Mas o turismo não é positivo?

Lisboa terá sempre turismo, mas é necessário que a cidade tenha também outras prioridades, como as condições de vida e de fruição dos seus habitantes. E isso não está a acontecer. O poder municipal demitiu-se de um papel regulador que torna possível essa conjugação. Isso é visível no aumento dos preços da habitação, na degradação dos transportes e num certo degradar da base económica e de sustentabilidade da cidade, como o comércio tradicional.

O que será um bom resultado nesta campanha eleitoral?

A CDU é a primeira força eleitoral na região de Lisboa – a primeira. Isso não pode deixar de balizar aquilo que são os nossos objetivos. Estamos prontos a disputar e assumir todas as responsabilidades, inclusive a presidência da câmara. Não ignorando as enormes dificuldades que encontramos, nomeadamente a enorme manipulação no espaço mediático para fazer crer que apenas existem duas ou três candidaturas, vamos bater-nos.

Entrevista de Nuno Ramos de Almeida, publicada no nosso parceiro Jornal SOL
Fotografia de João Biscaia

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