Joan Miró, o artista que encanta em Serralves

11 NOVEMBRO, 2016 -

Após tanta celeuma relativamente à permanência da coleção de Joan Miró no Museu de Serralves, no Porto, esta veio a confirmar-se e a celebrar-se há semanas atrás. Celebra-se, assim, o acervo de um dos maiores artistas ibéricos num museu português, provenientes da exposição Joan Miró: Materialidade e Metamorfose. Para que se aborde o talento espanhol, importa assinalar que não se remeteu somente à pintura mas também à cerâmica e à escultura. Talento este que conheceu equivalência na quantidade de obras criadas e no surrealismo que empreendeu e que norteou o seu percurso criativo. Tanto que o substantivo “Miró” passou a designar uma obra sua, com particularidades específicas e com uma mística muito “sui generis”. Tanto que até o arquiteto português Álvaro Siza Vieira equaciona remodelar Serralves graças à perpetuação das obras de Miró. Tanto que merece um especial escrutínio.

Joan Miró i Ferra nasceu a 20 de abril de 1893 na cidade catalã de Barcelona, em Espanha. Filho de Miquel Miró Adzerias e de Dolors Ferrà, foi desde cedo que se entregou ao engenho pela pintura, sendo o seu pai ourives e incutindo-lhe também apreço pela arte manual. Com 7 anos, tinha lições de desenho numa escola privada que ficava sediada numa mansão medieval. Com 14, ingressou numa Academia de Belas Artes em La Lotja, não obstante o desagrado nutrido pelo seu progenitor. A sua formação prosseguiu em Barcelona, nomeadamente na Cercle Artístic de Sant Lluc, e já com 25 anos, organizou a sua primeira exposição na galeria Sala Dalmau. Obtendo uma reação satírica, aproximou-se da comunidade artística parisiense e, em 1920, emigrou para a capital francesa, de forma a poder consolidar as suas influências cubistas e surrealistas. No entanto, as suas raízes permaneceram intactas no seu percurso, visitando a Catalunha durante os verões.

Joan Miró antes tinha tentado seguir uma carreira diante de um escritório mas um esgotamento nervoso fê-lo repensar as suas pisadas profissionais. Foi desta forma que se entregou às suas influências artísticas, nomeadamente a exposições em Barcelona de obras fauvistas e cubistas e a dois nomes do pós-impressionismo, sendo estes Vincent van Gogh e Paul Cézanne. Este primeiro período do seu trabalho seria designado de “Fauvista Catalão” e seria marcado pela predominância da cor e pela simbiose das diferentes correntes acima mencionadas.

Contudo, e já em Paris, os ares gauleses motivaram um toque mais identitário e próprio da sua obra. Alguns pormenores individuais e nacionalistas acabaram por fazer parte de uma linguagem simbolista que catapultou Joan Miró como um dos pioneiros deste idioma representado na década de 30. O escritor norte-americano Ernest Hemingway reforçou a capacidade de um quadro de Miró levá-lo a sentir Espanha como presença física e saudade emocional. Esta composição meticulosa mostrou também a influência cubista no âmbito de certas representações em certas distorções ou desproporções. Na essência, revelava-se um eixo realista corroborado pelos símbolos pictóricos que exprimia. Este registo tentou ser promovido pelo artista mas foi visto como demasiado realista e convencional pelos seus parceiros surrealistas. Assim, a separação entre a figura e a terra, esta como suporte de um cenário paisagístico, tornar-se-ia cada vez mais explorada nos anos seguintes.

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Nord-Sud (1917)

A natureza poética e surreal do espanhol tornou-se cada vez mais reforçada a partir de 1924, quando se juntou oficialmente ao grupo surrealista. As eventuais contradições dualistas que vinha expondo no seu trabalho conheciam novas oportunidades de estudo criativo numa dimensão onírica e surreal. Desta forma, adotou uma postura mais antagonista perante as convenções outrora defendidas e deixou-se levar pela dinâmica do sonho e pela abstração motivada por esta distinta viagem. Os símbolos voltaram a conhecer um novo fôlego e passaram a ser ligados à conduta surrealista seguida pelo artista.

Foi esta toada simbolista que impediu Miró de se desvincular totalmente da matéria e da sua objetividade. A linguagem esquemática que se articulou com a espontaneidade surrealista foi produto de um trabalho metódico e consolidado por parcerias com, por exemplo, Max Ernst. O artista alemão contou com a ajuda do espanhol para ser o pioneiro na técnica do “grattage”, onde a pintura se “desprende” da tela, tendo como fim dar a ilusão de relevos e de texturas tridimensionais. Na sua produção individual, as formas que foi expondo tornaram-se gradualmente mais simplificadas e foi enveredando também pelas colagens. Aqui, arriscou numa linha quase contrária à qual tinha seguido até então. Estas experimentações foram sendo elencadas num conjunto de mais de duzentos livros ilustrados denominados “Livres d’Artiste”.

Collage Painting (1934)

Em termos pessoais, o artista casou-se em Palma de Maiorca com Pilar Juncosa, tendo com esta uma filha de nome María Dolores a 1930. Contudo, não só no plano mais íntimo a sua vida conheceu um novo ímpeto. O filho de Henri Matisse, de nome Pierre, abrira uma galeria de arte em Nova Iorque e tornou-se num pilar para a promoção da arte moderna no continente americano. Joan Miró contou com a sua representação e as suas obras passaram a ser exibidas do outro lado do Atlântico.

Até ao despoletar da Guerra Civil Espanhola, o pintor visitava o seu país com frequência mas prescindiu dessas visitas mal esta começou. Seguindo a maioria da comunidade surrealista, Miró preferiu coibir-se de comentários políticos, apesar do nacionalismo catalão que vinha advogando no seu trabalho e do mural que pintou para o Pavilhão Republicano Espanhol (isto na exibição parisiense de 1937).

De seguida, e já em plena Segunda Guerra Mundial, o pintor retornou a Espanha durante a França de Vichy, governada nos bastidores pelas forças nazis. Ainda assim, o impacto assumido pelo conflito não impediu Miró de explorar guaches e, com estes, uma simbologia celestial que confluiu em si também as aves e as mulheres. Foi nesta senda que o espanhol se baseou para a maioria do que restava da sua produção criativa até ao final da sua carreira.

The spectacle of the sky overwhelms me. I’m overwhelmed when I see, in an immense sky, the crescent of the moon, or the sun. There, in my pictures, tiny forms in huge empty spaces. Empty spaces, empty horizons, empty plains – everything which is bare has always greatly impressed me.”

Joan Miró sobre a celestialidade

Durante um período de sucessivas migrações, o artista foi colaborando com outros notáveis criativos, tais como o japonês Shuzo Takiguchi (na produção de uma monografia) e os franceses Fernand Mourlot (diversas litografias) e André Breton (um dos embaixadores do movimento surrealista). No final da década de 50, Miró deu uso às competências adquiridas na produção de litografias e começou a construir esculturas e obras de cerâmica. Algumas destas constam no jardim da Fondation Marguerite et Aimé Maeght, em França. Também sob a tutela de Breton, o pintor fez parte da exibição “Homamge to Surrealism”, representando a Espanha com artistas como Salvador Dalí ou Enrique Tábara.

Potenciando a fama que granjeou nos Estados Unidos, Joan Miró produziu uma vasta gama de trabalhos neste país, desde esculturas a tapeçarias. Consigo levou o também catalão Josep Royo na produção da tapeçaria do World Trade Center, tratando-se de uma das obras mais caras que se perdeu aquando dos ataques de 11 de setembro. Para além dessa, fizeram outra que foi exibida na National Gallery, em Washington.

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Miro’s Chicago (1981)

Após ser nomeado doutorado honoris causa pela Universidade de Barcelona, deixou o seu último grande trabalho na cidade de Chicago, na qual foi posicionada a sua escultura “Miró’s Chicago” (1981). Em pleno dia de natal de 1983, Joan Miró foi vítima de uma falha cardíaca na sua residência em Palma de Maiorca e faleceu aos 90 anos de idade. Antes da sua morte, criou e estabeleceu em 1975 a Fundació Joan Miró, no Montjuic, em Barcelona. A mesma foi criada para fomentar a produção de arte contemporânea por parte de jovens criativos e para homenagear a arte moderna produzida por si e por demais artistas. Para esse fim, possui mais de dez mil peças que se encontram espalhadas por este espaço museológico.

Joan Miró foi um dos artistas mais abrangentes e diligentes do século XX. Não só na pintura como também na escultura, o espanhol tornou-se num dos notáveis que foi homenageado em vários centros do mundo. As formas orgânicas intercalaram-se com os planos do seu desenho e com o dadaísmo que importou na sua simbologia artística. Grande parte desta expiração criativa nasceu também da repressão franquista ao regionalismo catalão, dando-se a causas deste género para consolidar a sua produção. Apesar de se associar ao surrealismo, nunca se privou de ir mais além, embarcando em horizontes expressionistas e abstracionistas, ambicionando a pintura em quatro dimensões e até a “gas sculpture”. O espanhol nunca foi o mais amistoso para com os críticos de arte e para os representantes institucionais, fazendo valer a sua conceção artística própria. Foi esta que motivou que outros tantos como Mark Rothko, Jackson Pollock e Roberto Matta dessem à luz o expressionismo abstrato. Assim, este artista multifacetado deixou um percurso criativo repleto de abordagens distintas, apesar de nunca perder a essência da sua identidade. O acervo da sua autoria que se encontra em Serralves é um exemplo da dimensão que um “Miró” assume. Um mito compreendido no abstrato sonhador mais rendido.

Fotografia do artigo é da autoria de Francesc Català-Roca /Estúdio Joan Miró, Maiorca

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