Jerry Lewis, o fim do estado de graça

21 AGOSTO, 2017 -

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Calou-se a gargalhada mais querida da América. Jerry Lewis, o Rei da Comédia, tinha 91 anos e um longo historial de problemas clínicos. Partiu mas na hora da morte é o humor que fica   

Uma plateia não é mais do que oitenta ou noventa mães e pais a bater palmas e a dizer “boa, rapaz”. As pessoas a quem disseram vezes suficientes “boa, rapaz” raramente dão em comediantes”, afirmava o mesmo Jerry Lewis mordaz que dizia nunca se ter sentido com mais de nove anos.

Este domingo, a gargalhada favorita da América calou-se após um longo historial de problemas clínicos na última década. Se morreu a rir só os mais íntimos poderão responder mas esse é o lastro deixado por aquele a quem chamaram de Rei da Comédia.

Com o crooner Dean Martin formou o par cómico mais popular do Séc. XX. A dupla estreou-se em 1946 e fez furor imediato. Na rádio com o “The Martin & Lewis Show” da NBC, em clubes noturnos – eram célebres os serões no Cabaré, cabaré novaiorquino onde quase todos os grandes da comédia começaram a fazer rir –,  já na televisão no “The Colgate Comedy Hour” da NBC, que apresentavam com algumas das maiores estrelas do mundo americano do espetáculo – e no cinema. Martin era o galã, Lewis o palhaço da gargalhada ruídosa. De 1949 a 1956, os dois fizeram 16 filmes, de “Jumping Jacks” a  “Artistas e Modelos”, e “Scared Stiff” com Carmen Miranda.

Separaram-se então com o estatuto de grandes estrelas – chegaram a ter o mais salário do show business americano – e após o derradeiro “Hollywood Or Bust” puderam ser Jerry Lewis e Dean Martin. Acabaram unidos para sempre a cantar “Side by Side (We Ain’t Got a Barell of Money)”, separados pelos males crónicos do mundo espetáculo: os ciúmes, as guerras de ego, a relação com a imprensa e as divergência profissionais. Para grande desgosto da América, cada um seguiu o seu caminho, os dois ficaram gravados na história da nobreza americana dos filmes, das séries, dos programas e das canções. Aquando do derradeiro reencontro, Lewis trouxe o bolo do 72º aniversário de Martin e este disse: “não sei porque nos separámos”.

Fascinado com as possibilidades do cinema, Lewis foi um dos primeiros do seu ofício a escrever, dirigir e protagonizar os próprios filmes. Sem ele, o rumo da comédia não seria o mesmo e a vida de contemporâneos como Woody Allen e Mel Brooks teria sido bem mais difícil – ambos eram inspirados pelo humor desconcertante.

“Um imbecil neurótico e temperamental”, definia-se sem vontade de rir. Era assim Lewis. Um humorista entre o 8 e o 80 para quem o meio-termo era zona cinzenta e pouco estimulante. Era o caso da personagem de “O Idiota”. Lewis deu alegrias a todos os desajeitados a quem a vida privava dos grandes prazeres. De olhos tortos, sorriso acoelhado, voz anasalada e ingenuidade atroz, representava tudo aquilo que a sociedade dos costumes prevenia. E graças a esse papel contra-corrente dava voz na ficção aos que não a tinham na vida real.

Nos anos 60, Lewis dedicou-se à realização em filmes bem sucedidos como “O Homem das Mulheres”, “As Noites Loucas do Dr. Jerryll”, uma visão cómica de “Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, mas com o declínio comercial retirou-se. A década de 70 foi de pousio para só voltar nos anos 80. Em “O Rei da Comédia”, de Martin Scorsese (1983), Jerry Lewis renascia para sempre tal como o conhecemos até a piada chegar à punchline.

O tempo valorizou outras facetas. Por exemplo, a de filantropo. Era presidente da Associação de Distrofia Muscular nos EUA desde a década de 50. Para ajudar, apresentava uma maratona anual de angariação de fundos no Dia do Trabalhador. Fê-lo durante 44 anos, até 2011. “O importante é que o faço, não é como o faço”, disse uma vez ao The Times sobre esse papel. Durante esses anos, angariou uma maquia na ordem dos mil milhões de dólares.

Já então, sofria de diversos problemas clínicos. Em 1982, sofreu um ataque cardíaco grave. Nos últimos dez anos, batalhou contra meningite vertebral, fibrose pulmonar e diabetes. Desde junho que se encontrava hospitalizado com uma infeção urinária. E desde há perto de um ano que não se reencontrava com os palcos – a última apresentação fora no hotel South Point, em Las Vegas, em outubro.

Este domingo de manhã, pelas 09h15, o agente confirmou a morte. Tinha 91 anos e duas estrelas no Passeio da Fama, uma pela carreira televisiva, e outra pelo percurso cinematográfico, mas a maior graça de todas era aquela que ouvia todas as noites: a gargalhada estridente que dá anos de vida.

Artigo escrito por Davide Pinheiro, publicado no nosso parceiro jornal i

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