Jean Zay criou o Festival de Cannes e foi um dos grandes nomes da educação e cultura francesas

14 MAIO, 2017 -

Jean Zay foi um dos principais nomes na formalização educativa e cultura de França, incentivando e enrobustecendo as iniciativas culturais e formativas do país. Numa fase bastante conturbada, que sucedia a Primeira Guerra Mundial, mas que antecedia a Segunda, o gaulês, associado à franco-maçonaria, inventariou e dispôs meios, bens, valências, e noções para a afirmação de pilares e pioneiros na produção artística e cinematográfica nacional. A partir do escritório, não se escondeu do contacto pessoal e personalizado com os vários agentes educativos e culturais, provendo o seu Ministério da Educação Nacional e das Belas Artes com um lastro eficiente e condizente com as necessidades desta pasta.

Jean Zay nasceu em Orléans, pequena cidade a sul de Paris, no dia 6 de agosto de 1904. De descendência judaica, o seu pai era diretor de um jornalista de cariz socialista radical (“Le Progrès du Loiret“), enquanto a sua mãe era professora. A educação do jovem Zay firmou-se no Lycée Pothier, em plena vila de Orléans, e, aos 24 anos, concluiu a sua licenciatura em Direito. Do seu progenitor, herdou a veia política, juntando-se, com somente 21 anos, ao “Parti Radical“, a partir do qual assumiria uma série de exercícios políticos, como conselheiro geral, ou representante provincial. Ainda em tempos de formação, venceu um prémio de composição literária em 1922, e um de composição filosófica em 1923, tempos em que conheceu o futuro compositor musical, e diretor do Conservatório de Orléans, René Berthelot. De forma a sustentar os seus estudos, Zay colaborou no periódico do seu pai, onde foi secretário de redação. Esse gosto pela escrita permaneceu, tendo, em conjunto com Berthelot e com o futuro fundador do jornal “La République du Centre”, Roger Secrétain, fundado uma revista literária, designada por “Le Grenier“, tornando-se, pouco depois, em “Le Mail”.

Desde então, o francês galgou caminho na política, sendo, em 1932, eleito como deputado regional do parlamento nacional, ainda associado ao seu partido, e batendo o então candidato pelo partido democrata popular Maurice Berger pelo caminho. A sua atividade política foi marcada pela sua luta pelos direitos do homem e do cidadão, pelo acesso à informação e educação por toda a gente, e pela sua associação à franco-maçonaria, em concreto à Grand Orient de France. Sempre com um espírito de renovação e de inovação, porfiou para que a sua força partidária se remodelasse, – sendo um dos “Jeunes Turcs”, membros do partido que desejavam essa remodelação partidária – e se associasse à “Front Populaire“, que viria a governar o país em 1936, um ano depois desta aproximação. Este, encabeçado por Léon Blum, convidaria Zay para assumir a pasta da Educação Nacional e das Belas Artes, pasta que deteve durante perto de quarenta meses, tornando-se o mais novo ministro dessa legislatura, aos 32 anos. Antes, e convidado pelo presidente do Conselho Albert Sarrualt, seria secretário de estado da presidência do Conselho, tendo passado pela conselhia geral do cantão Orleáns-Nord-Est. As primeiras e mais urgentes medidas que foram, por si, concebidas foram o aumento da idade mínima da obrigatoriedade escolar (14 anos), e um plano educacional transversal e comum às várias escolas básicas do país. A partir deste sustento, reformulou o sistema educativo, estratificando-o em três tipos hierárquicos, iniciando-se no básico (école primaire), passando pelo preparatório (collège), e finalizando no secundário (lycée). Pertinente foi, também, a criação de aulas de tutoria, para além de métodos de aprendizagem interdisciplinares, – através de aulas, ou de disciplinas especializadas para essas sinergias – e a abertura de vários institutos de Ensino Superior.

Nas belas artes, foram vários os espaços e os contributos legados por Zay, batizando a abertura do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), e do Musée National des Arts et Traditions Populaires, e, com uma certa influência corporativista, agregou os diversos agentes culturais na Réunion des Théâtres Lyriques Nationaux. Com isto, proveu-lhes uma plataforma de gestão de recursos humanos, financeiros, e tecnológicos, destinando-se, em especial, às Óperas de Paris e à Ópera-Comique. No entanto, seria no cinema que teria um papel providencial, desbloqueando um impasse conjuntural de forma arguta e envolvente, e dinamizando o setor com uma série de iniciativas e de reformas legais e produtivas. Entre estas demais, a que se denotou foi a criação do Festival Internacional de Cinema de Cannes, cuja estreia estava agendada para 1939, mas que, por via do despoletar da Segunda Guerra Mundial, foi adiada para 1946, ano em que Zay não estaria presente para contar a história da sua conceção. No propósito desta idealização, estavam o fomento da atividade cinematográfica, e a sua valorização cooperativa com a das restantes nações.

Zay, em 1932, casou-se com Madeleine Dreux, e teve duas filhas, de seus nomes Catherine e Hélène. Porém, a sua vida levaria uma volta bastante desconfortável para o seu lado, demitindo-se da sua pasta ministerial, afiliando-se ao exército no despoletar da Guerra, e, lá, servindo como segundo tenente de um dos quartéis. Permanecendo associado às funções de deputado até 1942, recebeu dispensa para comparecer à última sessão do parlamento, realizada em Bordéus, no mês de junho de 1940. Após a invasão Nazi ao país gaulês, era intenção do ex-ministro viajar para Casablanca, e, nessa cidade marroquina, onde estaria a combater em pleno conflito, preparar um governo de resistência. Antes de o conseguir formalizar, acabou preso por deserção, na capital marroquina de Rabat, e regressou a França, onde foi encarcerado numa prisão militar em Clermont-Ferrand.

Estes eram tempos em que, após um golpe de estado perpetrado pelo Marechal Philippe Pétain, as condições estavam reunidas para que o nazismo, efetivamente, se alastrasse até ao país francês, montando o governo-fantoche de Vichy. Aí, eram patentes as aversões sociais da ideologia, e, como tal, Zay tornar-se-ia vítima de uma perseguição, acumulando fundamentos nos factos de ser descendente de judeus, membro do “Parti Radical”, e franco-mason. A propaganda governamental anti-Jean Zay avolumar-se-ia, e consumar-se-ia num poema que havia escrito, de seu título “Le Drapeau” (1924, no pós-Primeira Guerra, onde exortou para o desarmamento e onde criticou as forças armadas), acusando-o de falta de patriotismo. Isto, para além dos escritos que deixou, onde registou às suas experiências e vivências. Alguns destes seriam compilados em “Les Carnets Secrets de Jean Zay“, que inclui apontamentos enquanto ministro.

Em outubro de 1940, seria, então, condenado num tribunal militar, perdendo o seu posto no exército, e decretada a sua perpétua deportação. No entanto, a sua pena haveria de ser comutada por uma outra, dando lugar ao seu encarceramento numa prisão em Riom, partilhando a cela com o rabino Edward Gourévitch. A comunicação com a sua família e amigos era-lhe viabilizada, e as tentativas de fuga foram nulas, pois Zay estava concentrado na redação e no escalonamento de propostas de resistência e de oposição ao regime vigente, procurando a emancipação que estava para vir. Para além de escrevinhar essas projeções para um futuro social e politicamente apoiado e estável, deu autoria a um livro póstumo (“Souvenirs et Solitude“, lançado em 1945), em que listou várias das suas experiências e sensações como recluso, refletindo sobre a justiça e as próprias condições do seu aprisionamento, e até sobre distantes e íntimas memórias.

Contudo, e mesmo sem se revelar como um presidiário com um comportamento problemático, tudo findaria de forma fatal para o convicto radicalista. A 20 de junho de 1944, três membros da milícia apresentaram-lhe uma ordem de transferência de espaço prisional, devidamente assinado por um dos chefes de gabinete do governo de Vichy. Presumindo que a mesma se tratasse de um documento forjado pela resistência, levaram-no a um bosque, e assasinaram-no a sangue-frio perto de uma minaria, num lugar que se tornaria conhecido como “Les Malavaux“. O seu corpo só seria descoberto em 1946, no dia 22 de setembro, em conjunto com um par de outros cadáveres.

A sua pena acabaria anulada de forma póstuma, já depois do final da Segunda Guerra Mundial, em pleno continente europeu, lamentando os fundamentos que levaram ao sucedido. O único dos três assassinos de Zay que se encontrava vivo foi obrigado a trabalhos forçados até 1955. Em sua honra, seria criado, no ano de 2005, o Prix Jean-Zay, destinado a galardoar obras literárias nacionais de vulto; e justifica-se, desta feita, a sua trasladação para o Panteão de Paris, contestada por muitos membros da extrema-direita gaulesa. Para além disso, também vários institutos, centros de investigação e de produção/promoção/valorização cultural, e espaços urbanos receberam o nome de Jean Zay para a sua formalização identitária.

O sustento político e as convicções de Jean Zay

Jean Zay destacou-se pelo seu trabalho político, que teve, como principais áreas de incidência, a educação e o cinema. Na base destas dimensões, está a sociedade, e as reformas mais ou menos extensas, mais ou menos minuciosas, que necessita para atingir um ponto de equilíbrio sustentável e saudável. Desta feita, os ideais republicanos plasmavam naquilo que é a sociedade, alimentada pela devida educação intelectual e moral. Sem dar azo a utopias de cariz revolucionário, importava, também, evitar qualquer tipo de conservadorismo social, convidando o aprofundamento do desenvolvimento individual e coletivo, garantindo condições dignas para isto se proporcionar. Tudo sem esquecer a importância de debater, e de superar as controvérsias em conjunto, evitando confrontos desmedidos. Estes valores levaram-no, para além da sua condição maçónica, e das origens judaicas, a que fosse considerado como uma ameaça aos ideais nazis e de extrema-direita. A valorização humana, indiferente de raça, religião, sexo, ou estrato social, era o grande objetivo da sociedade e educação ensejadas por Zay, onde a inteligência e a estabilidade moral e comportamental saíam como grandes metas.

É a partir desta visão sociopolítica que o francês desdobra a sua proposta de sistema educativo, que não descura aqueles que, por carência financeira, não tinham possibilidades de ingressar na escola, ou em fases mais avançadas da estrutura académica. Além disso, atentou no facto de que muitos endinheirados, mesmo sem a formação adequada, eram empregados na função pública a partir dessa facilidade de chegada a estes postos de emprego. Necessidades como esta levaram Zay a inspirar a fundação da École Nationale d’Administration, obra que não conseguiu levantar avante durante a sua atividade política. A educação via-se, então, como o motor da sociedade, como um meio democrático que, sustentado pelo fluxo cultural, consegue dar resposta às necessidades mais proeminentes.

A renovação educativa

Como justificação para a proposta da reforma educativa, na altura reconhecida como uma das mais elaboradas e de cariz democrático da época, estava a vontade de conceder oportunidades equitativas de acesso às instituições de ensino, dando o mote para a constituição de uma sociedade mais consciente, crítica, e capaz de responder aos desafios existentes. Conforme citado acima, um dos contextos cuja incidência se sentiu mais foi no ensino primário, para além de englobar os próprios liceus para jovens raparigas, na altura bastante recorrentes no continente europeu. As premissas que deveriam de constar nessa reforma passavam pela difusão da cultura nacional, incluindo a sua história e as diversas expressões nacionais, tanto ao nível social como artístico.

A primeira prioridade do gaulês, naquilo que é a estabilização do sistema educativo, foi o estabelecimento da escolaridade mínima obrigatória nos 14 anos, dando alguma flexibilidade às várias escolas para definir os moldes de apresentação e de ensino dos conteúdos programáticos até a esta idade. As turmas, seja em que ano de escolaridade se integrassem, tinham um máximo de 35 alunos. Aquilo a que estas ficavam comprometidas era a oferecer, aos seus educandos, um complemento à instrução transversal no país, uma plataforma de apresentação a estes da cultura nacional, e orientação profissional. Tudo isto para despertar o espírito autónomo e informado dos estudantes, que também viam as suas valências físicas trabalhadas com a inclusão da Educação Física, e com a criação de recintos exteriores para a prática das aulas. Isto permitia a que não se cingissem somente ao espaço físico da escola, abrangendo atividades grupais e extra-curriculares, e visitas de estudo, em que os alunos interatuavam e se familiarizavam com o meio ambiente.

No que toca ao próprio funcionamento curricular dos diversos escalões escolares, Zay abdicou da proposta pós-Primeira Guerra, que advogava uma escola única, e delegou funções administrativas em decretos, que substituíram os diretores do então primário e secundário, categorias nas quais se dividia a oferta educacional. Em 1937, observou 175 turmas do sexto ano, averiguando a forma como aprendiam, e apresentando-lhes um pouco daquilo que seria o ensino avançado, ou segundo degrau, que começava daí em diante. Esta ideia acabou por cair em desuso até ao final da década de 50, quando foi repescada e testada. Um dos cuidados que manteve no seu exercício foi o de incentivar a integração profissional e a prática investigativa, a partir da criação de centros de orientação profissional e de investigação académica, tanto ao nível escolar como universitário. Entre estes, estão o Centre Régional des Oeuvres Universitaires et Scolaires (CROUS), e os Centres d’Entrainement aux Méthodes d’Éducation Actives (CEMEA), destinados à formação especializada dos docentes. Ainda sob o espectro da possibilidade de um idioma universal, estimulou o estudo do esperanto.

O apoio às artes e à produção cultural

Na relação íntima da educação com a cultura, Jean Zay não pôde descartar as suas funções na pasta que incluía as Belas Artes. Naquilo que é a ligação entre estas e a própria educação, está o caminho cultural que é lecionado e trabalhado pelos alunos dos diferentes graus de escolaridade. Com isto, começou por, ao lado de Marc Rucard, redigir um projeto-lei que abolia a propriedade literária e artística, e que concedia aos autores, criadores e produtores legislação que protegia os créditos e as valias provenientes dos seus trabalhos. Nasceu, assim, o direito de autor, ao qual estava associado um possível contrato de cedência de direitos a terceiros das obras produzidas, para além de outro de concessão temporária. Alguns editores, por volta de 1936, bateram-se contra a medida empreendida pelo duo, sendo alguns deles responsáveis pela sua revogação no governo de Vichy. Porém, após o término do conflito bélico, no ano de 1957, foi reinstituída a propriedade literária, em que a legislação moral se perpetuava do lado do autor em relação à(s) sua(s) obra(s). O seu contributo na literatura incluiu a conceção de “bibliobuses“, isto é, de autocarros que funcionavam como bibliotecas ambulantes.

No que concerne às artes performativas, criou espaços de congregação e de convivência artística, tais como as reuniões dos teatros líricos nacionais, e museus que perpetuassem as tradições populares e os diversos trabalhos dos artistas franceses. Também nas obras públicas, que incluíam os préstimos de arquitetos, propôs a existência de uma percentagem que os orçamentos municipais ou nacionais deveriam de dedicar à efetivação desses projetos urbanos e/ou de cariz artístico.

Porém, a sua maior proposta seria, precisamente, no cinema, com o Festival Internacional de Cannes. Numa fase em que o duce italiano Benito Mussolini havia apadrinhado o Festival de Veneza, e o Ministro da Propaganda alemão Joseph Goebbels incentivava a produção cinematográfica como meio de promover o ideal ariano e germânico, de muito valeu a paixão que Zay tinha pelo cinema, e que compreendia as diversas indústrias artísticas. Os contactos que foi encetando, para além da legislação que foi preparando para conferir um estatuto profissional ao cinema, tornaram-se determinantes para dar um novo fôlego à sétima arte, que atravessava a crise transitória do mudo para o sonoro. Antecedendo a estruturação do festival, o ministro apadrinhou a criação de um galardão para condecorar o melhor do cinema francês, sendo este o Prix Louis-Delluc.

Alimentar a atividade cinematográfica tornou-se primordial, e foi dando o mote para que a produção cinematográfica se fosse aglomerando, liberalizando-o para além das insolventes indústrias, e, em conjunto com os demais profissionais artísticos, institucionalizando-se, levando até à formação de sindicatos. As artes performativas federalizaram-se numa instituição voltada para o espetáculo, e as bilheteiras tornaram-se supervisionadas, para conclusões serem retiradas quanto ao proveito e ao efetivo fomento destas artes.

Jean Zay foi um nome preponderante na história da educação e do apoio à produção artística em França. Os quarenta meses durante os quais assumiu o Ministério da Educação Nacional e das Belas Artes foram recheados de iniciativas, tanto burocráticas como pragmáticas, de reforma e formalização, mas também de renovação e inovação. A formação em advocacia que trouxe uniu-se ao prazer que tinha pelo cinema e pelas restantes áreas da cultura e da sociedade, e resultou numa forte e sentida atividade progressista e positiva. A educação conheceu mudanças que ainda se visualizam hoje, a literatura alimentou os sonhos daqueles que queriam fazer carreira desta, o teatro conheceu mais vida e suporte, e o cinema saiu de um momento apagado para um estrelato famigerado. Apesar de sentir as aguras da guerra, não partiu sem deixar uma marca que se eterniza numa cultura que muito pouco tem de parca.

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